Filhos, chuva e subidas? Acabe com as desculpas para não andar de bicicleta

Entusiasta da bicicleta, Miguel Barroso publicou um livro no qual mostra que, depois de ultrapassados obstáculos que parecem intransponíveis, as duas rodas podem passar a ser as melhores aliadas dos portugueses

Umas férias em Copenhaga, capital da Dinamarca, mudaram a vida de Bruno Loureiro, bancário, de 38 anos. Depois de visitar a cidade onde circulam mais bicicletas do que carros, em 2011, decidiu que a sua rotina tinha de mudar. Vendeu um dos carros, comprou uma bicicleta e passou a fazer desta o seu meio de transporte. Do Barreiro a Benfica, além do percurso do barco, faz diariamente 12 quilómetros para chegar ao trabalho. Já apanhou dias de calor tórrido, chuva torrencial e até cheias. "Pequenos transtornos, quando comparados com a sensação de liberdade que se tem a andar de bicicleta. Além disso, passei a poupar imenso dinheiro e a chegar muito mais bem-disposto ao trabalho."

Para Bruno, não há desculpas para não usar a bicicleta. Se chove, usa impermeável. Se está calor, leva uma muda de roupa. "Uso-a todos os dias do ano, quer trabalhe quer não." Na opinião do bancário, os argumentos que muitos usam para não pedalar diariamente são quase todos possíveis de ultrapassar, desde que haja vontade. Uma posição que também é defendida por Miguel Barroso, autor d"O Livro da Bicicleta, lançado em julho pela Esfera dos Livros. "A maior parte das desculpas resultam de mitos. No livro, tento desmontar muitas ideias preconcebidas. Existem dificuldades reais, mas há maneiras de as ultrapassar", diz o entusiasta da bicicleta.

O clima, o relevo e a cultura estão, segundo o autor, na base da maioria das desculpas. Como é que se faz nos dias de muito calor? "O segredo é pedalar com menos intensidade", sugere. É o que faz Ricardo Ferreira, de 44 anos, guia turístico em bicicleta, que há cerca de 15 anos começou a fazer das duas rodas o seu meio de transporte diário. "Se não for muito depressa, dá para não transpirar."
Já no inverno, a solução é um poncho impermeável, de preferência largo para evitar transpiração em excesso. "Se estiver mesmo muita chuva, há duas hipóteses: esperar que passe, porque os aguaceiros são muito comuns, e usar umas calças impermeáveis", propõe Miguel Barroso. E não é preciso um equipamento próprio para andar de bicicleta. "A pessoa não deve vestir-se para a viagem, mas para o destino."

Colinas do preconceito

No que diz respeito ao relevo, o autor, que usa a bicicleta há 20 anos, reconhece que "há problemas efetivos", como a configuração da cidade da Guarda, por exemplo, mas em Lisboa "às vezes o que existe são as colinas do preconceito". Isto porque, justifica, não há assim tantas pessoas a viver ou a trabalhar no Castelo, em Alfama ou no Bairro Alto. "A maior parte reside em Benfica, Telheiras ou no Lumiar. Quando começamos a andar de bicicleta, há um mapa mental que nos permite evitar subidas. Quando nos apercebemos, estamos em pontos altos e nem demos conta que subimos." Por outro lado, uma subida que parece assustadora rapidamente deixa de o ser.

O transporte dos filhos ou das compras também é, muitas vezes, um argumento para continuar a usar o carro. "Há bicicletas preparadas para levar carga. Eu tenho uma com alforges e uma plataforma para os miúdos se sentarem. E, a partir de certa idade, as crianças podem ser preparadas para andar de bicicleta", afirma Miguel Barroso. No entanto, reconhece, muitas pessoas "chegam à conclusão de que as suas vidas, tal como estão, são impossíveis de conjugar com a bicicleta porque foram levados a comprar casa a 50 quilómetros do trabalho, por exemplo, e os filhos estão numa escola a 30". Nesse caso, sugere, pode complementar parte do percurso. "Pode estacionar o carro à entrada da cidade e ir de bicicleta para o trabalho."

O entusiasta, que se encontra a terminar o doutoramento em Estudos Urbanos, diz que "a cultura da bicicleta perdeu-se nos anos 70, com a motorização da mobilidade baseada no automóvel" e, embora esteja a regressar, "ainda não voltou com a força de outros países". "Quando as pessoas vivem no seu paradigma, têm dificuldade em abrir mão dele." Com o livro, quer não só desmistificar como ajudar aqueles que começam a deixar de ver a bicicleta como brinquedo.

Do ambiente à economia

Ricardo Ferreira optou pela bicicleta porque é "mais rápida, barata, saudável e prática". Já Daniel Santiago, de 30 anos, começou a usar diariamente a bicicleta há um ano, porque demorava quase tanto tempo a tirar o carro da garagem como agora a chegar ao trabalho. "Demoro três minutos em cada viagem", diz ao DN. Só abdica das duas rodas se tiver deslocações grandes para fazer. Entre as várias vantagens, diz que agora se sente menos ensonado após o almoço.

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