14 mil enfermeiros saíram de Portugal desde 2010

Especialidade vale mais 12 mil euros por ano em Inglaterra

Um enfermeiro especialista em Portugal ganha 1200 euros brutos por mês, tanto como um enfermeiro de cuidados gerais, mas a partir do momento em que emigra para Inglaterra - um dos principais destinos - passa a ganhar mais 12 mil euros anuais. Com o reconhecimento da especialidade, passa também a prestar cuidados que lhe estão vedados no nosso país, como a prescrição de exames e alguns medicamentos, no caso da saúde materna, e tem a possibilidade de progressão na carreira. Desde 2010, foram mais de 14 mil os enfermeiros que optaram por sair de Portugal, um tema que volta a ganhar relevância quando decorre uma greve de cinco dias contra a recusa do Ministério da Saúde em aceitar a integração da categoria de especialidade na carreira.

Em Portugal, os enfermeiros têm rendimento anual bruto de aproximadamente 16.800 euros, menos cerca de 12.000 do que um enfermeiro especialista em Inglaterra, que recebe pelo menos 28.965 por ano, um valor que aumenta consoante os anos de experiência.

O boom de emigração de enfermeiros ocorreu entre 2011 (1175 profissionais) e 2015 (2717), mas a saída do país continua a ser uma opção para milhares de profissionais. Em 2016, mais de 1600 enfermeiros pediram os papéis para emigrar, de acordo com os cedidos ao DN pela Ordem dos Enfermeiros, a quem aqueles profissionais de saúde têm de pedir o certificado de equivalência para poderem exercer noutro país. Além de Inglaterra, países como Espanha, França ou Itália, onde a carreira dos enfermeiros é semelhante à nossa, aparecem também entre as preferências.

"Em Inglaterra a enfermagem não é um curso superior, mas sim profissional. Na Alemanha é a mesma coisa. Portugal, Espanha, França e Itália sim, são países onde a carreira de enfermeiro implica uma licenciatura. Existe ainda uma aposta na investigação e formação, paga pelos hospitais e com redução de horário para a frequência, o que não acontece cá", explicou a recém-licenciada, Ana Ribeiro. A jovem, de 22 anos, terminou o curso este mês e chegou a ponderar fazer as malas. Contudo, decidiu investir ainda numa pós-graduação para depois se aventurar no estrangeiro. "Fiz Erasmus em Barcelona, já a pensar na emigração futura, não por querer, mas porque acredito que o caminho seja por aí".

Ana Ribeiro sublinhou ainda que o seu primeiro contacto com uma eventual emigração surgiu "logo no primeiro ano do curso, incentivada pelos professores. "Os professores e a própria faculdade mostram-nos os benefícios em sair do país e dizem-nos que iremos ganhar mais e ter um futuro melhor", referiu.

Ana Cláudia Silva, natural de Cinfães, está a trabalhar na Irlanda há pouco mais de sete meses. Portugal ficou para trás apenas meio ano depois de terminar a licenciatura. Uma decisão "ponderada, mas dura", que lhe permitiu "um emprego estável e um nível de vida impossível em Portugal". Apesar de estar "feliz com a carreira e o país", pensa regressar um dia, tal como Patrícia de Almeida Santos, a sua colega de casa. "Estou segura onde estou agora, com um emprego que adoro, conta bancária a aumentar, e com desafios e experiências novas todos os dias. Mas sinto que Portugal vai ser sempre a minha casa". A jovem de 23 anos, natural do Porto, disse acreditar que o eventual regresso "será difícil", pois encontrou na Irlanda tudo o que procurou em Portugal e não encontrou: um emprego sem precariedade e um salário condizente com a função que exerce.

Apesar de 2016 ter sido um ano de desaceleração de emigração de enfermeiros, os recentes protestos daqueles profissionais e o braço de ferro entre a tutela e os sindicatos poderão ser mais um incentivo para os jovens recém-licenciados. Recorde-se que aqueles profissionais exigem, há oito anos, ver reconhecido o título de especialista, com o devido ajuste financeiro.

"Inglaterra é um mercado muito grande, sobretudo para recém licenciados, mas temos países como a Arábia Saudita e o Dubai que procuram muito enfermeiros especialistas, mais até do que os países da Europa, porque estão a abrir muitos hospitais novos", adiantou ao DN a bastonária da Ordem dos Enfermeiros. Ana Rita Cavaco questiona "como é que Portugal gasta tantos milhões a formar enfermeiros, porque a maioria vem do ensino público, e não os contrata". Enfermagem será um dos cursos mais caros do ensino superior público, mas desde que tomou posse que a bastonária aguarda uma audiência com o ministro do Ensino Superior para saber quanto custa formar um enfermeiro.

Além da remuneração e progressão na carreira, lá fora, os enfermeiros de saúde materna e obstetrícia têm competências diferenciadas, que, segundo a bastonária, não são reconhecidas em Portugal. Bruno Reis, porta-voz do movimento de enfermeiros especialistas, explicou que, no nosso País, "o parteiro não faz prescrição de medicamentos e exames, nem vigilância de baixo risco". Competências que lhes são "vedadas" em Portugal, mas que podem colocar em prática em Inglaterra, por exemplo.

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