"É preciso aumentar o número de mulheres polícias em missões"

Bósnia, Timor, Haiti, República Centro-Africana e agora Nova Iorque. Luís Carrilho é o novo police adviser da ONU

Na bagagem com que já correu mundos devastados pela guerra o superintendente-chefe Luís Carrilho não dispensa o terço que o Papa Francisco lhe ofereceu numa visita que fez à República Centro-Africana (RCA), em novembro de 2015, quando o oficial português ainda comandava a polícia da ONU naquele país. "O Papa abriu portas para o diálogo entre as várias comunidades religiosas e grupos étnicos. E pediu para rezarmos por ele", contou ao DN Luís Carrilho. Aos 51 anos, o oficial da PSP, inicia hoje funções como police adviser no Departamento das Operações de Manutenção de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Depois de missões na Bósnia e Herzegovina, em Timor, no Haiti e na República Centro-Africana, sempre em funções de comando, Luís Carrilho vai agora viver em Nova Iorque durante dois anos e ter condições de receber a família (a mulher e duas filhas adultas).

Como conselheiro especial da Polícia da ONU, quer levar muito a sério uma meta da própria organização: "Precisamos de aumentar o número de mulheres policias nas missões das Nações Unidas." É um objetivo importante por razões operacionais: "No terreno - a situação de insegurança que justifica a presença da ONU em muitos países em conflito - existem muitas vítimas e grupos vulneráveis que precisam de apoio e as mulheres policias têm uma melhor capacidade de dar proteção aos civis, nomeadamente, às crianças, às mulheres, aos idosos e mutilados".

Quando ainda estava ao comando do corpo de polícia das Nações Unidas na missão de paz da RCA, Luís Carrilho foi distinguido com o louvor Outstanding Role Model (ou Exemplo a Seguir), tornando-se o primeiro oficial português a receber tal distinção da ONU. Agora, como police adviser, Luís Carrilho vai continuar com os olhos postos no mapa do mundo, mas desta vez como um estratego à distância. "A divisão onde estou coordena, do ponto de vista estratégico, as ações da polícia no terreno, tanto em missões de manutenção de paz, como é o caso da República Centro-Africana, como em missões políticas, como é o caso da missão na Guiné-Bissau."

O oficial recorda que, atualmente, existem 18 missões internacionais onde o corpo de polícia da ONU se encontra. "É importante que venha pessoal com capacidades técnicas e perfil adequado para estas missões e que essa coordenação entre a missão e os países membros se faça de uma forma integrada através da Divisão de Polícia em Nova Iorque", frisou.

Luís Carrilho enaltece o papel que as várias forças de segurança portuguesas já tiveram em missões no estrangeiro, "incluindo a GNR e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, mas também técnicos civis que em Timor deram um enorme contributo".

Para o oficial, "a missão de sucesso da ONU é aquela que acaba, que não tem continuidade por já não ser necessária". Luís Carrilho recorda a sua passagem por Timor e pelo Haiti, onde as missões terminaram. "Temos dois objetivos nestas missões: o apoio operacional, a proteção de civis e o desenvolvimento e a capacitação das polícias nacionais. Conseguimos cumpri-los em Timor e no Haiti." No Haiti "foi possível reduzir o número de raptos e a criminalidade em geral e aumentar o efetivo policial". Em Timor, que foi a sua "missão mais gratificante", também foi possível organizar a autoridade do país e deixar o território "estável".

Já "a mais difícil foi a da República Centro-Africana". "Ainda falta muito por fazer ali, mas o país está no bom caminho", recorda.

Por experiência própria, o oficial da PSP sabe que "as missões de manutenção de paz são o melhor instrumento para ajudar os países a reencontrarem o caminho. No caso da RCA é um país muito bonito, com boa gente, pessoas com vontade de trabalhar e rico a nível cultural, em matérias-primas e a nível geográfico. Mas a segurança é a base do desenvolvimento, sem isso não há educação, as escolas não funcionam, não há nada sem isso".

Luís Carrilho terminou a sua missão na República Centro-Africana há um ano e dois meses. Com tantas viagens pelo mundo, para trás tem ficado a sua terra natal, a ilha de Santa Maria, nos Açores, onde nasceu em 1966 e onde não vai há muitos anos. "Sou um ilhéu, por definição." Por isso se sentiu bem a viver nas ilhas de Cabo Verde, Haiti e Timor.

Ler mais

Exclusivos