Ártico tem concentração recorde de microplásticos

Encontraram 17 diferentes tipos de plástico no gelo: os que são utilizados nas embalagens, na tinta dos barcos, no nylon (das redes de pesca) e o plástico que é usado nos filtros dos cigarros

Cientistas de um centro de investigação encontraram quantidades elevadas de microplásticos no gelo do mar Ártico, mais do que em anteriores estudos, tanto relacionados com a pesca como com o lixo existente no Oceano Pacífico, vindo de terra.

Através de medições efetuadas em amostras recolhidas em cinco regiões do oceano Ártico, os especialistas do Alfred Wegener Institute, do Centro de Pesquisa Polar e Marinha de Helmholtz (AWI), na Alemanha, detetaram as "quantidades de microplásticos mais elevadas de sempre", refere uma informação divulgada esta terça-feira.

O estudo que elaboraram, publicado no Nature Communications , refere que as amostras de gelo continham mais de 12 mil partículas de microplástico por litro, a maior parte muito pequenas, número que é "duas a três vezes mais alto do que aquele encontrado nas anteriores medições".

Os diferentes tipos de plástico deixam uma marca única no gelo o que permitiu aos investigadores chegar às possíveis origens, como a quantidade enorme de lixo presente no oceano Pacífico, mas também as atividades marítimas e a pesca, cada vez mais intensas em algumas partes do Ártico e que deixam sinais como uma alta percentagem de partículas de tinta e de nylon.

Os cientistas concluíram que os bocados de gelo vindos das massas de água da zona do Canadá contêm altas concentrações de partículas de polietileno, substância principalmente utilizada nas embalagens

Durante o trabalho, os investigadores perceberam que mais de metade das partículas de microplásticos presentes no gelo eram tão pequenas que podiam facilmente ser ingeridas pelos micro-organismos que habitam o Ártico.

Esta observação é muito preocupante pois "ninguém pode dizer com total certeza quão prejudiciais são estas pequeníssimas partículas de plástico para a vida marinha e, em última análise, também para os seres humanos", explica a bióloga do AWI e uma das autoras do estudo Ilka Peeken.

Da análise das características dos poluentes, os cientistas concluíram que os bocados de gelo vindos das massas de água da zona do Canadá contêm altas concentrações de partículas de polietileno, substância principalmente utilizada nas embalagens.

A utilização de um aparelho específico permitiu aos cientistas encontrarem "partículas de plástico com somente 11 micrómetros, o que é cerca de um sexto do diâmetro de um cabelo humano"

"Assim, assumimos que estes fragmentos têm origem na chamada 'grande ilha de lixo do Pacífico' e vêm pelo estreito de Bering [liga os oceanos Pacífico e Ártico entre a Rússia e os Estados Unidos] até ao oceano Ártico trazidos pela corrente do Pacífico", explicam os investigadores.

A utilização de um aparelho específico permitiu aos cientistas encontrarem "partículas de plástico com somente 11 micrómetros (equivalente à milésima parte do milímetro), o que é cerca de um sexto do diâmetro de um cabelo humano", refere Gunnar Gerdts, um dos cientistas que participou no estudo.

Mas, os investigadores ficaram surpreendidos ao verificarem que 67% das partículas detetadas no gelo fazem parte da categoria de menores dimensões, ou seja, de "50 micrómetros e menos", acrescenta.

Encontraram 17 diferentes tipos de plástico no gelo. Além do polietileno e polipropileno (das embalagens), da tinta (dos barcos) e do nylon (das redes de pesca), foram detetados, por exemplo, polyester e acetato de celulose (usado nos filtros dos cigarros).

Estes seis materiais são responsáveis por cerca de metade do total de partículas de microplástico encontradas.

O grupo de investigação recolheu as amostras de gelo em três expedições no oceano Ártico na primavera de 2014 e no verão de 2015.

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