"Cada vez há menos desvantagens"

Uma mãe depois dos 40 anos trará sempre mais vantagens pela maturidade, defende a socióloga Anália Torres. Explica que as portuguesas têm filhos mais tarde por três motivos: aumento da escolaridade, dificuldades na entrada do mercado de trabalho e precariedade laboral.

Quais as razões que levam os pais a ter filhos mais tarde?

Há três fatores fundamentais. O primeiro é o prolongamento da escolaridade, é global mas as raparigas vão mais longe nos estudos do que a média dos rapazes. Depois, são as dificuldades para entrar no mercado de trabalho, o desemprego juvenil é muito elevado. O terceiro é a precariedade. O fenómeno dos filhos depois dos 40 vem de há algum tempo, mas agravou-se com a crise. Para ter filhos, é preciso que pelo menos um dos membros do casal tenha uma situação laboral estável e isso não acontece. Adia-se, chega-se aos 40 e tem de se arriscar porque é o relógio biológico a funcionar.

São fatores de natureza social.

Há um outro fator. Sabendo que ter filhos é uma responsabilidade e, num contexto onde há muitos divórcios, as pessoas têm a perceção de é preciso encontrar o par certo para ter uma criança. Além de que aumenta o número de pessoas que querem ter filhos sem parceiro.

Quais são os problemas de uma gravidez tardia?

Há vantagens e inconvenientes. As vantagens são que as pessoas têm filhos numa idade em que estarão mais maduras, mesmo emocionalmente. São filhos muito desejados e há uma certa maturidade. Como ter um filho é uma revolução completa na vida de uma pessoa - há um ser que depende de nós - quanto mais o projeto for investido, maior é a maturidade com que se encaram os sacrifícios que se têm de fazer.

E desvantagens?

Cada vez há menos desvantagens. Aumenta a probabilidade de haver riscos para a saúde, mas a medicina tem avançado muito e a grávida em Portugal tem sido cada vez mais acompanhada. Outra desvantagem era a pessoa ser muito mais velha que o bebé, mas aumentou a esperança de vida e a probabilidade de convivência com os filhos é maior. Só há um problema sério, dificilmente haverá um segundo filho.

Somos um país de filhos únicos.

O filho único tem mais que ver com a precariedade laboral. Mesmo que se tenha o primeiro filho mais cedo, não se tem o segundo devido à precariedade. Se compararmos com a Alemanha, em que o índice sintético de fecundidade (crianças por mulher em idade fértil) é próximo do nosso [1,50 contra 1,30 de Portugal], observamos que têm muito mais mulheres sem filhos, depois há quem tenha mais filhos. Nós não temos muitas mulheres sem filhos, temos é muitas que só têm um filho.

Ter filhos mais tarde também acontece nos outros países?

Acontece, é um fenómeno geral. Nos países com mais crianças, em que o desemprego e a precariedade não os atingiu como a nós, podem ter filhos aos 30 anos e mais tarde, como acontece nos países escandinavos. Há mais filhos depois dos 40, mas também aos 30.

Os pais tardios partilham mais as tarefas domésticas?

Diria que tenderia a correr melhor, mas depende, ainda há pouca partilha. Os homens mais novos cada vez partilham mais as tarefas e nos cuidados aos filhos mas as mulheres continuam a ter um peso muito grande dessas tarefas.

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