"As pessoas não mudaram as aspirações e querem continuar a consumir"

Comparação de preços e ofertas low cost são a fórmula que os cidadãos têm para manter os níveis de compras, sublinha o filósofo francês Gilles Lipovetsky

Esta crise económica dos últimos anos a que chamam a "grande recessão" teve efeitos no consumo, mudou-o, deixou de se poder falar naquele termo tão caro aos seus livros de hiperconsumidores?

É preciso ver o que se quer dizer com mudança. Há mudanças em certas formas de consumo, a mais espetacular das quais é o consumo colaborativo do tipo daquelas empresas Airbnb, Uber e assim, o que é novo, mas depois é preciso procurar o sentido. Será que isto significa uma mudança no consumo? Isso creio que não. Creio mesmo que é uma forma de continuação do consumo e vou explicar porquê. Agora, quando alguém aluga um táxi pela Uber, ou usa uma companhia low cost, é para continuar no consumo sob outra forma, mais barata. Mas não creio que as aspirações das pessoas tenham mudado. Encontram, sim, novas formas de aproveitar o consumo mais barato. Não há mudança completa porque a sociedade do hiperconsumo não cessa de criar novas necessidades e novas formas de satisfação.

Ou seja, as pessoas continuam a consumir na mesma, na sua opinião.

É uma ilusão acreditar que as pessoas recuam no consumo - não é verdade. Diz-se que depois de 2008, da crise do subprime, que as pessoas só iriam consumir de forma muito inteligente e só o que precisassem mesmo. Pois, em 2008 bateram-se recordes de vendas de jogos de vídeo. As pessoas querem continuar a consumir, só o orçamento é menor. O low cost, o consumo colaborativo, é um instrumento de hiperconsumo. As pessoas tornaram-se astuciosas para consumir. Inscrever-se num site para fazer uma viagem a Lisboa, imaginemos, por dez euros, é o que se faz agora. Mas vai na mesma a Lisboa com um serviço mais barato. As pessoas querem aproveitar as coisas. Havia uma ideia, que vinha por exemplo de gente como Guy Debord, de que o consumidor é um bruto que vê a publicidade na televisão e é de tal forma manipulado que vai a correr comprar tudo. Hoje é o inverso que existe: o consumidor é ágil, inteligente, informa-se. Hoje há verdadeiras escolhas quando antes eram muito limitadas: para fazer uma viagem a Nova Iorque havia várias companhias, de facto, mas a diferença era pequena. Agora há escolhas, que dão trabalho a encontrar. E é isso também: o consumidor tornou-se um trabalhador ele próprio. É preciso tempo para encontrar as melhores soluções, as mais baratas. De certa maneira o que mudou foi a ideologia, porque dantes se achava que o consumidor era um irresponsável e afinal não é, informa-se, compara.

E não vai parar nunca o consumo? Isso não é possível...

Haverá limites, mas ainda não os conhecemos. O consumidor tem limites. A ecologia ajuda a esses limites, a saúde também. A carne é cancerígena? Bom, talvez se ache que estão a exagerar, mas ainda assim fica lá na cabeça, integra-se de alguma forma no pensamento das pessoas. A ideologia hedonista do consumo dá satisfação às pessoas mas tem concorrência de outras normas, estejam descansados. Tudo isto cria uma cultura de consumo menos homogénea, mais problemática, mais reflexiva. O consumo é limitado por normas ecológicas, normas sanitárias, pelos media que dão informação sobre estas coisas, pela economia colaborativa e pelas companhias low cost. O novo fenómeno é esse de que o consumo também é em si um trabalho. Mas de facto as aspirações das pessoas não mudaram. Acha que as pessoas vão viajar menos? Ouça: há mil milhões de pessoas que viajam mas no mundo há seis mil milhões de pessoas e as aspirações são parecidas. Acha que as pessoas vão querer deixar de ver o mundo? Vão passar sem ir às praias? Não acredito. Nunca as pessoas foram tanto aos restaurantes - por muitas razões, porque as mulheres trabalham por exemplo. E ir ao restaurante também é uma forma de consumir e normalmente também é uma forma de satisfação pessoal. Desculpem, mas as pessoas querem continuar a consumir. Não é com sanções morais ou discursos moralistas que vamos mudar isto - eu não acredito nisso. Não vamos mudar a atitude dos homens a fazer sermões. Não vamos lá apelando à consciência - isso pode chegar a alguns mas não chega a milhares de milhões.

Ou seja, não é para agora que o consumo se vai limitar...

Veja: há estes movimentos a favor do decrescimento económico, há os ecologistas que dão o alarme, mas talvez subestimem a inteligência humana, que sempre procurou resolver problemas. Primeiro: encontraremos novas maneiras de reciclar, desenvolveremos produtos que não devoram tanta energia, claro. Segundo: as coisas materiais, provavelmente, terão um limite, mas as coisas imateriais que limite têm? Vamos consumir menos viaturas - e mesmo isso dependerá - mas vamos ver menos filmes porquê? Vai vê-los no tablet, por exemplo. Os livros pode lê-los no tablet também.

Mas há limites para fabricar esses gadgets - as terras raras, a energia...

Sim, haverá com certeza, mas haverá mais energias renováveis... Quando vamos tocar nessa linha do fim? Não sabemos. E o que impedirá de criar coisas novas?

Há quem diga que podemos estar a chegar ao tempo de uma nova guerra...

Sim, cada vez há mais guerras mas os motivos pelos quais elas existem não são esses... São razões identitárias, são diferenças religiosas...

O petróleo, não?

O Estado Islâmico não apareceu por causa do petróleo. Há uma dimensão irracional e passional do homem. Não são os interesses económicos que hoje fazem explodir as guerras - os Estados Unidos hoje têm petróleo e gás de xisto que chegue. É preciso acabar com esse esquema mental de que é tudo por causa do petróleo. Até porque também há conflitos que se vão resolvendo - o do Irão aparentemente está na via certa para ser resolvido. Os conflitos humanos não têm nada que ver com o hiperconsumo - há outras dimensões que governam os domínios internacionais. Temos com certeza muitos problemas ecológicos e haverá problemas com a subida do nível do mar para as populações afetadas, mas não creio que venha a ser o apocalipse. Lembro-me sempre dos maoistas dos anos 1950 e 60 que diziam que havia grandes contradições no capitalismo, já Marx dizia que o capitalismo não podia funcionar e afinal, o que vemos? O capitalismo é que ganha.E de resto, não podemos deixar de acreditar na capacidade dos homens para inovar. E o que é a inovação? Inovar quer dizer que temos de investir na educação, na investigação, no saber. E que limites pode haver para isso? Pelo contrário, temos de investir muito na inteligência porque é daí que podem vir coisas novas. E daí podemos construir uma economia mais sóbria, menos devoradora de energia, com mais reciclagem. Mas insisto: para isso é preciso investir em engenheiros, investigadores. Se há uma solução é a da mobilização da inteligência, do investimento no saber porque isso é essencial para tudo. E não há limites para isso.

Para um estudioso das motivações e do consumo, e mesmo sabendo que o professor não está muito ligado ao desporto, o que é que lhe parece alguém como Cristiano Ronaldo, que de alguma forma é um ícone do sucesso, do trabalho e do consumo?

Não, eu não quero diabolizar o consumo, porque trouxe coisas boas também - vivemos até mais tarde, com mais saúde, com novos meios de comunicação - há benefícios do hiperconsumismo. Mas também não faço a apologia do consumismo como algo que traz a felicidade. Claro que consumir não dá infelicidade, mas a felicidade é outra coisa, tem que ver com as qualidades nobres, superiores, do homem: é criação intelectual, ou a criação de uma empresa. Fica-se contente a viajar, é bom, mas orgulhoso só se fica de outras coisas. O consumo não é tudo na vida, é só uma parte da vida. Não é a mais importante, claro, porque quando se fica feliz não é por ter um carro novo, mas eventualmente por encontrar a mulher que se ama, porque se tem filhos, ou no seu caso quando um artigo sai mesmo bem.

As ideias que tem divulgado ao longo de 30 anos são a hipermodernidade, o hiperconsumo, a ligeireza do ser humano, a era do vazio - são os títulos dos seus livros. São palavras extremas, ideias extremas, é uma ideia de vida quase incontrolável...

...Ah meu caro amigo, a ideia de que podemos controlar isto tudo não é razoável, a competição é mundial, global hoje. Não vamos mudar o consumo e tornar o mundo perfeito. Trabalhemos para que o consumo seja mais responsável mas no tempo da Revolução Francesa não havia consumo e não deixou de haver barbárie.

Como europeu, quer dar uma ideia sobre esta crise dos refugiados?

É preciso acolhê-los, mas não é responsável pensar que podem vir todos. Não é razoável. Aceitar a abertura sim, mas uma abertura partilhada, desde logo, porque uma abertura total também poderia dar reações negativas das pessoas. É preciso regular isso. Não há só os direitos do homem em causa, também há dever de assegurar a continuidade, a segurança.

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