Análise de moedas romanas mostra que prata usada depois de 209 a. C. era ibérica

Estudo dos isótopos nos metais de 70 moedas datadas entre 3010 a.C. e 101 a.C. fornece novos detalhes sobre a ascensão de Roma, precisando datas e acontecimentos. Especialista português destaca importância do trabalho

Da importante potência regional que Roma já era, há cerca de 2300 anos, emergiu nos séculos seguintes o império dos Césares, que se alargou a novos territórios, incluindo à Península Ibérica. Essa história, descobriu-se agora, também está escrita - e de forma muito precisa -, na prata das moedas cunhadas pelos imperadores: a partir de um ano muito preciso, 209 a.C., essa prata passou a ser quase toda proveniente da Península Ibérica.

Foi a análise geoquímica dos metais de 70 moedas romanas (denários, como se chamavam), cunhadas entre 310 a.C. e 101 a.C., que permitiu datar com uma precisão sem precedentes esta história. Eles mostram que depois de 209 a.C., a prata que os Romanos começaram a explorar em grande escala no sul da Península Ibérica, nas regiões entre Cartagena e Rio Tio, alimentou o dinheiro dos Césares, e permitiu-lhes ampliar o império.

O estudo foi feito por uma equipa de investigadores alemães e dinamarqueses coordenada por Katrin Westner, da Universidade Goethe, em Frankfurt, e data com muita precisão a evolução desse período crítico, quando Roma se estabeleceu na Península Ibérica.

Aqui, os Romanos passaram então a explorar intensamente os minérios de prata, ouro, estanho, e chumbo, entre outros, e aqui instalaram o seu modo de vida, criando também focos de negócio. Foi o caso, por exemplo, da produção de olaria (ânforas) e de pastas de peixe, na região de Peniche, que eram depois exportadas para todo o império, como revelaram os estudos que o arqueólogo Guilherme Cardoso e a sua equipa realizaram nas duas últimas décadas.

O contributo da análise química

Os isótopos das 70 moedas analisadas revelam então a inconfundível assinatura geográfica da Península Ibérica na prata dos denários cunhados depois de 209 a. C. Antes disso, durante todo o século anterior, a prata para a produção do dinheiro Romano - bem como das moedas da Grécia ou da Sicília contemporâneas - era proveniente da região do Egeu, hoje Turquia, explicam os cientistas, que apresentaram os resultados em Paris, na conferência Goldschimdt, na área da geoquímica.

Nesta mudança de assinatura geográfica quase abrupta na prata usada, a lendária travessia que o famoso general de Cartago, Aníbal, fez através dos Alpes, com os seus elefantes, vindo da Península Ibérica, na Segunda Guerra Púnica, foi um elemento-chave. Com aquele movimento, Aníbal, tentou surpreender as tropas romanas, mas o seu plano falhou. Roma saiu vencedora e a partir daí pôde expandir-se e estabelecer o seu próprio império sobre as ruínas de Cartago.

Depois disso, "o enorme influxo da prata ibérica mudou significativamente a economia de Roma, permitindo que se tornasse a superpotência do seu tempo", explica Katrin Westner. "Sabíamos isto dos relatos que fizeram Políbio [historiador grego que acompanhou o avanço romano na Península Ibérica], Lívio [historiador romano] e outros, mas o nosso estudo fornece novas provas científicas sobre o surgimento do império Romano", nota a investigadora. Essas provas "mostram que a derrota de Aníbal e a ascensão de Roma estão escritas nas suas moedas".

Para o arqueólogo português Guilherme Cardoso, cujos trabalhos permitiram trazer à luz do dia a mais antiga olaria romana conhecida no território da Lusitânia, que foi fundada em Morraçal da Ajuda, Peniche, no tempo do primeiro imperador, Octávio Augusto (27 a. C.-17 a. C.), os resultados deste estudo "são muito importantes". Como explica, "já tínhamos deduzido que a proveniência da prata para a produção das moedas romanas daquela época era a Península Ibérica, mas agora temos essa confirmação física e química, e agora sabem-se, inclusivamente datações precisas". Agora, diz, "sabe-se que uma das minas principais pode ter sido a de Aljustrel, porque ela faz parte do mesmo veio de minério que atravessa a Península Ibérica, e os isótopos nem devem ser muito diferentes dos do sul de Espanha".

No seu próprio trabalho, Guilherme Cardoso está familiarizado com este tipo de surpresas e avanços no conhecimento. Antes de 1998, quando começou a fazer escavações arqueológicas em Peniche, o rico e pujante passado de olaria romana e da produção de molhos e pastas de peixe que eram depois exportadas para todo o império (daí a necessidade de produzir ânforas no próprio local), era totalmente desconhecido.

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