Quais são os temas fortes que a Ordem dos Farmacêuticos quer discutir neste congresso?.O tema mais forte é o acesso ao medicamento, que é, no fundo, o acesso à saúde. O segundo é a solidariedade, pois queremos contribuir para diminuir as desigualdades importantes que existem na saúde, fruto também do nosso fraco desenvolvimento económico e de novas franjas de pobreza. Temos, por isso, o projeto Dignitude, que, através de um consórcio de entidades do setor, apoia mais de 1500 pessoas..Que défices existem no acesso ao medicamento?.É verdade que nos últimos 20 anos fizemos um enorme esforço para integrar a inovação, mas a questão é o tempo que o processo demora até o medicamento inovador chegar aos doentes. É uma matéria complexa e, se não quisermos politizar ou manipular demagogicamente, temos de reconhecer que temos centros hospitalares onde o processo é mais rápido e outros onde é mais moroso. Há também outros medicamentos que levam mais tempo, também por causa da negociação com os laboratórios. Este governo, continuando um trabalho do anterior ministro Paulo Macedo, tem procurado encurtar os tempos de aprovação da comparticipação destes medicamentos..Quando fala do acesso ao medicamento refere-se à comparticipação?.Sim, da autorização do Estado. Estamos a falar, por exemplo, do HIV, da hepatite C. Se estes fármacos não forem comparticipados, a maior parte dos nossos doentes não os pode comprar..Quanto tempo demora a chegada deste tipo de fármaco inovador ao hospital desde que é aprovado?.Após o Infarmed dizer que é para comparticipar, com despacho do ministro, há um parecer da Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica a dizer que os hospitais "podem" adquirir, não diz que "têm" de adquirir. Perde-se eficácia porque nunca passam só os supostos 180 dias do prazo. Chegámos a ter medicamentos que estiveram dois ou três anos à espera..Como funciona a distribuição nos hospitais?.Não é que não queiram comprar, mas o financiamento aos hospitais, muitas vezes, para não dizer sempre, não contempla a inovação. No caso do HIV, lembro-me de um processo de um hospital que tinha orçamentado um valor de cerca de 300 euros por doente para terapêutica. Acontece que a medicação inovadora custava quatro ou cinco vezes mais por doente. Portanto, tinham de ir buscar o dinheiro a outras rubricas. É difícil. Os hospitais ficam com os medicamentos à porta..Durante esse período, os doentes não têm acesso ao medicamento se for para salvar a vida?.Têm, através de autorizações excecionais. Qual é o problema? É muito burocrático. O médico passa a prescrição, que segue para o diretor do serviço de oncologia, depois para a Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica, direção do hospital, Infarmed, e volta outra vez a fazer o percurso inverso. Às vezes, em certos tumores, a janela de oportunidade para salvar o doente é de apenas três meses. Ora, este processo às vezes demora mais do que isso. Ou o doente já morreu ou não vai a tempo de ser eficaz..Que outras preocupações traz a Ordem para este congresso?.Uma grande preocupação é o facto de se terem baixado os preços dos medicamentos e as margens de comercialização para níveis quase incomportáveis. Isso fez, por exemplo, haver falha de medicamentos de fármacos que, não sendo inovadores, cumprem lindamente a sua função e até são mais baratos. Mas como cá os preços deixaram de ser atrativos, foram para exportação..Essa falha de medicamentos só tem que ver com preços muito baixos?.Só tem que ver com isso. Quanto mais baixarem os preços dos medicamentos, menos atrativo fica o mercado e isso promove a exportação paralela. Na Grécia aconteceu a mesma coisa, no pico da crise, deixou de haver stocks de alguns medicamentos. Temos medicamentos novos para o cancro que custam cinco mil euros por doente e, no outro extremo, antibióticos que custam um euro ao doente e sete euros ao Estado. Nós não somos um mercado interessante nem em valor nem em volume, os preços estão tão baixos que deixa de ser interessante. E não se pode bloquear a exportação paralela, pois a Comissão Europeia veio proibir isso, ao mesmo tempo que pressiona para baixar os preços. A poupança, a partir de certo limite, dá cabo da cadeia do medicamento..Quanto caíram os preços nos últimos anos?.Entre 2010 e 2016 o custo unitário por embalagem caiu em média 28% (ou seja, 53% nos genéricos e 10% nas marcas). Há dois anos que não temos quedas de preços, mas Portugal é o único país da União Europeia onde, quando se faz a comparação com a média de preços dos outros países, só se ajusta os preços para baixo. Mesmo que noutros países seja mais caro dois euros, em Portugal não se pode aumentar o preço..Quais estão a ser as consequências desse "esmagamento" das margens"?.É a subsistência dos agentes do setor. O número de farmácias insolventes soma já 215 desde 2012 a agosto deste ano. E se contarmos a partir de 2013, em quatro anos e oito meses houve mais 154 farmácias insolventes (um subida de 252%) e mais 389 penhoradas (mais 116%). Há planos de insolvência em curso e o número de encerramentos só não é mais alto porque alguns desses processos ainda estão em curso. Vamos ver quantas se aguentam. Há uma matéria que tem de ser discutida nesta legislatura, que é a remuneração da farmácia..E qual a proposta da Ordem dos Farmacêuticos? Aumentar os preços de acordo com a inflação e também de acordo com variações na UE?.As duas coisas. Mas pelo menos que respeite a evolução da inflação, que é o que acontece em todos os outros setores..E para a remuneração das farmácias? O que propõe?.A remuneração tem que ver com o pagamento da intervenção farmacêutica. E 90% do nosso trabalho é serviço público. Há um problema de remuneração das farmácias porque, além da baixa de preços, as margens de comercialização foram muitíssimo esmagadas e hoje não cobrem, por exemplo, o custo de estar uma hora a ensinar um doente a usar uma bomba para a asma. Como é que pagamos ordenados aos farmacêuticos? Somos, à exceção do Luxemburgo, a rede de farmácias com mais farmacêuticos da Europa, três por farmácia. Já fizemos o nosso caminho, ultrapassando a falta de eficiência, melhorando as qualificações. Agora, é tempo de negociar uma forma de não deixar as farmácias morrerem..Dos serviços de que fala, quais deveriam ser remunerados?.Temos a preparação personalizada da medicação (dispositivos manuseados em laboratório de farmácia para idosos polimedicados ou pessoas com dificuldades cognitivas), reconciliação da terapêutica (um serviço que garante que não há duplicação da medicação e que está adequada e atualizada) e um serviço ligado à adesão à terapêutica, que consiste em alertas por sms sobre a hora da medicação, por exemplo. Hoje já recebemos um fee para troca de seringas e dispensa de medicamentos genéricos..Que modelos de remuneração de serviços farmacêuticos existem noutros países?.Em Inglaterra, por exemplo, quando é uma primeira dispensa, há um pagamento adicional. Há outros casos diferentes em Espanha, Bélgica, Suíça, Canadá ou Austrália. A nossa margem é a mais baixa da Europa. Para nós, o que faz sentido, particularmente para idosos, é o médico prescrever o medicamento e o serviço farmacêutico..E como está a indústria farmacêutica nacional?.Há medicamentos eficazes que foram abandonados pelos laboratórios multinacionais porque os preços baixaram muito. Há fármacos oncológicos ou corticoesteroides que não se consegue arranjar no mercado. O Estado poderia encontrar formas de produzir em Portugal em parceria com laboratórios portugueses, desde que com preços justos..Como avalia o estado da saúde em Portugal? .Temos um dos melhores sistemas de saúde do mundo, mas, apesar de apresentarmos bons resultados, somos o país da UE (sem contar com os do ex-Bloco de Leste) que teve menos investimento em saúde na última década e nos últimos cinco anos em particular..Existe subfinanciamento na saúde?.Sim, existe um subfinanciamento. E como não haveria de haver se a dívida aos fornecedores já cresceu neste ano e meio tanto ou mais do que quando a troika cá chegou? Se não houvesse subfinanciamento essa dívida não se acumulava, à volta dos 1,2 mil milhões de euros..Em julho, o sindicato dos farmacêuticos convocou uma greve inédita. Valeu a pena convocá-la e desconvocá-la?.O sindicato convocou uma greve pela primeira vez em 20 anos de existência porque não tinha alternativa. O governo aprovou finalmente as carreiras farmacêuticas e é grande o mérito de ambos em terem conseguido, com diálogo, evitar a greve. É óbvio que para isso foi importante o princípio da neutralidade orçamental, pelo menos neste momento. Quando houver descongelamento das carreiras, isso também se aplicará aos farmacêuticos. Agora, porque temos uma das maiores dívidas públicas do mundo, o sindicato foi sensível a essa matéria, mas não consideramos que está tudo resolvido. Temos 180 dias para regulamentar o internato, que é importante para a renovação da classe, pois só com especialização é que há acesso à carreira hospitalar..Como vê a greve dos enfermeiros?.É um direito legítimo que os profissionais têm. Qualquer greve tem regras, como serviços mínimos. Desde que sejam cumpridos, é um mecanismo que usam para enfatizar os seus problemas..O que se passa para que, praticamente ao mesmo tempo, tenham sido convocadas greves com proporções invulgares pelos enfermeiros, uma inédita pelos farmacêuticos, além das dos médicos e técnicos de diagnóstico? É o subfinanciamento que explica?.Há, de facto, uma tensão neste momento na saúde que tem muito que ver com o subfinanciamento, porque nenhum ministro pode governar a saúde sistematicamente subfinanciado, mas precisamos de ter um plano para aumentar gradualmente o investimento e também reorganizar o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Não é preciso grandes reformas, mas é preciso adaptar o sistema: mais foco no financiamento e na organização, mais proximidade, cuidados primários, mais digital..A Ordem parece preocupada com o futuro das convenções entre os laboratórios de análises e o Estado. O que está em causa?.Estou preocupada. Até hoje não vimos nada preto no branco, mas espero que o governo não se esqueça da rede de laboratórios que serviram sempre o SNS desde há 40 anos, de norte a sul. O governo tem falado da internalização das análises. Para estas decisões serem tomadas têm de estar fundamentadas e, por essa razão, vamos fazer um estudo para saber quem ganha o quê com a internalização: quanto é que o cidadão vai ganhar em comodidade, liberdade de escolha, qualidade e se faz sentido num país que tem uma lei de bases de saúde que prevê a complementaridade. Qual é o impacto para o SNS? Passamos a pagar mais ou menos por um hemograma ou um domicílio? As pessoas vão ficar horas à espera? Quantas horas abertos por dia? Temos de saber se vai ser melhor..Qual a opinião da bastonária sobre a tendência crescente para o consumo de "medicamentos naturais", que também se vendem na net?.O conceito de medicamento natural não existe, são suplementos, sem indicação terapêutica. As pessoas gostam de terapias não convencionais e existe todo um mercado de terapias e terapeutas alternativos, mas não está devidamente regulado e alguns nem deviam ter essa designação. Tem de haver mais atenção das autoridades. Não podem ser comparados com medicamentos. Para tratar um cancro eu preciso de um medicamento. Se depois quiser complementar com esses suplementos, isso é outra coisa. Preocupa-nos que haja da parte da defesa do consumidor alguma ausência relativamente a esta área. Esta área é uma tendência, mas tem de ser feita com regras.