"A Segunda Circular é uma potencial avenida"

O catalão Joan Busquets vê uma nova centralidade nesta via e o português Gonçalo Byrne pergunta-se por que demorou tanto tempo.

As obras que transformariam a Segunda Circular numa via arborizada foram suspensas na semana passada devido a problemas com o concurso público, mas ideia continua válida para o arquiteto português Gonçalo Byrne. "Tenho uma crítica: porque que é que demorou tanto tempo?", afirma à margem da 14.ª conferência internacional do Docomomo, esta quarta-feira, em Lisboa, após o debate que juntou o português ao catalão, Joan Busquets, para falar sobre as áreas metropolitanas de Lisboa e Barcelona.

Foi precisamente arquiteto espanhol, professor na universidade de Harvard, que trouxe para o debate a Segunda Circular, a partir de um trabalho com os seus alunos sobre a cidade de Lisboa. Essa reflexão, com três anos, concluiu a existência de "uma nova centralidade" ao longo dessa estrada. "Lisboa é uma cidade de avenidas e a Segunda Circular é uma potencial avenida, que, com Manuel Salgado [vereador do Urbanismo da câmara municipal de Lisboa], podia ser um sítio mais cívico", disse para uma audiência de investigadores, e não só, membros do Docomomo, uma organização dedicada à documentação e conservação do legado do Movimento Moderno.

"A Segunda Circular atrai atividades económicas, estádios, escritórios, universidades, centro comerciais. Não estou a dizer se é bom ou mau. É o que é", detalha ao DN, após a conferência na Fundação Calouste Gulbenkian. "Seria uma zona de eixo, entre Monsanto e a Expo", diz o arquiteto referindo a necessidade de acrescentar qualidade de vida a estas zonas.

A crítica de que o plano, entretanto suspenso, tornaria a circulação de automóvel caótica é rebatida por Gonçalo Byrne. "Não vai haver uma grande redução do fluxo, entre uma coisa que é exageradamente uma autoestrada e uma apropriação urbana desta via", afirma, acrescentando: "Essa estratégia de uma cidade para a alta velocidade é pré-histórica".

"Apesar da crise, entramos num novo período, na era Manuel Salgado", diz Gonçalo Byrne, referindo a necessidade de "tornar o espaço público apropriável". É o que vê em programas que dão uma praça a cada bairro, obras que a seu ver também só pecaram por tardias.

Numa conferência em que se falou dos problemas atuais das duas cidades, sob moderação do atual vereador da habitação de Barcelona, Josep Maria Montaner, Gonçalo Byrne fez o diagnóstico, a partir do que aconteceu no Chiado após o programa de reabilitação de Álvaro Siza, depois do incêndio de 1988: "Um programa de usos variados - casas, comércio, escritórios -, com o restauro de fachadas e novas áreas públicas, uma estratégia que se estendeu a outros edifícios [entre eles um do próprio Byrne].

A separação entre ricos e pobres e o crescimento do turismo também foi ao debate. Gonçalo Byrne lembrou que "a habitação chega devagar, o turismo continuamente". E Joan Busquets lembrou os seus tempos na câmara de Barcelona, à frente do departamento de urbanismo e lhe perguntavam pela gentrificação. "Quem me dera ter de lidar com a gentrificação", disse. "É mais fácil lidar com o que existe do que com que não existe".

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.