O Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) emitiu esta quinta-feira, 15 de janeiro, um esclarecimento oficial confirmando que o primeiro caso de infeção pelo fungo Candida auris em Portugal foi identificado em 2022. A nota surge após notícias recentes que apontavam 2023 como o ano de entrada deste microrganismo no país, retificando a cronologia da sua detecção em território nacional.De acordo com o Laboratório Nacional de Referência (LNR) de Infeções Parasitárias e Fúngicas, a evidência científica deste primeiro caso está documentada num artigo publicado em agosto de 2023 no Journal of Fungi. O INSA sublinha ainda, em comunicado enviado às redações, que este não foi um episódio isolado: entre 2022 e 2025, foram confirmados casos anuais em amostras provenientes de diversos hospitais públicos, com incidência nas Regiões de Saúde do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo.Segundo o INSA, as estirpes identificadas têm sido alvo de uma caracterização detalhada através de métodos avançados, como a análise genómica por next generation sequencing (NGS) e a determinação do perfil de suscetibilidade a antifúngicos. Embora a C. auris não seja ainda de declaração obrigatória no SINAVE - Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (a rede oficial que permite identificar e monitorizar doenças transmissíveis e outros riscos para a saúde pública), o INSA reporta sistematicamente os dados ao Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistência a Antimicrobianos (PPCIRA) e ao Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC).Ameaça global e silenciosaIdentificada pela primeira vez no Japão, em 2009, a Candida auris tornou-se rapidamente uma prioridade de saúde pública global. Trata-se de um fungo oportunista que se dissemina com facilidade em ambientes hospitalares, sendo particularmente perigoso para pacientes em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI).A gravidade deste patógeno é refletida nos números: tem uma taxa bruta de mortalidade hospitalar entre os 30 e os 72%, afetando mesmo pacientes sob tratamento. O aumento de procedimentos invasivos, o uso prolongado de antibióticos de largo espetro e a permanência prolongada em UCI são os principais catalisadores de infeção.Dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) revelam que, entre 2013 e 2021, a União Europeia registou 1812 casos em 15 países diferentes. Um dos surtos mais graves ocorreu no norte de Itália entre 2019 e 2021, com 277 casos confirmados, muitos dos quais em pacientes que sofriam simultaneamente de infeções graves por covid-19.O INSA, através da sua Rede Nacional de Vigilância Laboratorial -- que conta com 15 laboratórios do SNS --, mantém o foco na caracterização destes isolados para travar a propagação e compreender a epidemiologia das infeções fúngicas invasivas em Portugal.