Lisboa consolidou-se este fim de semana como o epicentro da inovação na medicina uro-oncológica mundial. Durante a primeira edição do URONEXT, fórum de debate científico de alto nível organizado em parceria pela CUF e pela Clínica Universidad de Navarra, especialistas de referência de países como o Canadá, EUA e Espanha, além de portugueses, assistiram a um momento inédito: a transmissão em direto de uma Nefrectomia Parcial Robótica que utilizou a técnica RSD (Renal Sutureless Device). O procedimento, conduzido pelo cirurgião de origem espanhola David Subirá, coordenador de Urologia do Hospital CUF Tejo e mentor da técnica, demonstrou como é possível tratar o cancro do rim sem recorrer aos tradicionais pontos internos, elevando o padrão de precisão cirúrgica em Portugal e não só.Após a intervenção, o balanço do especialista foi “muito positivo”. “A cirurgia correu como planeado e conseguimos mostrar a técnica em direto a especialistas de vários países, o que é sempre exigente, mas muito útil para trocar experiências”, afirmou o médico ao DN. O especialista sublinhou que os colegas “mostraram grande interesse nesta abordagem, sobretudo porque reduz a agressão ao rim, sem comprometer a segurança oncológica”.Durante a emissão por vídeo, o foco internacional recaiu sobre a capacidade de manter a integridade do tecido renal, um dos maiores desafios da cirurgia oncológica moderna.O molde que substitui o fioDurante décadas, o padrão para remover um tumor do rim envolvia a realização de suturas profundas para controlar a hemorragia. No entanto, o processo de “coser” o órgão é intrinsecamente traumático. David Subirá explica que “depois de retirar o tumor, fica um espaço no rim que tradicionalmente é fechado com pontos para controlar o sangramento e permitir cicatrização. Na prática, isto comprime o tecido saudável”. Esta compressão pode levar à isquemia (falta de sangue) e à morte de células funcionais que seriam vitais para o doente.. A nova técnica elimina este trauma mecânico e funcional. “A técnica RSD utiliza um molde hemostático que se ajusta exatamente ao espaço deixado pelo tumor. Ele exerce uma pressão controlada que ajuda a parar o sangramento e permite que o rim cicatrize sem precisar de suturas profundas”, descreve o cirurgião.O dispositivo é composto por materiais biocompatíveis e absorvíveis, o que significa que o corpo o integra e elimina naturalmente após cumprir a sua função. Para o doente, “isto significa que conseguimos preservar melhor o rim, tornando a recuperação mais rápida e minimizando o risco de lesão do tecido saudável”.O triângulo tecnológico: IA, 3D e robóticaO desenvolvimento desta inovação não foi um evento isolado, mas o culminar de anos de observação clínica. “A ideia surgiu da experiência diária no bloco operatório. Constatámos que as suturas podem danificar o rim e procurámos uma forma de reduzir esse impacto”, descreve o urologista. O seu papel foi “desenvolver o conceito e trabalhar com engenheiros biomédicos para criar um dispositivo que fosse seguro e aplicável em cirurgia robótica”, unindo a visão médica à precisão da Engenharia de Materiais..“Depois de retirar o tumor, fica um espaço que tradicionalmente é fechado com pontos. A técnica RSD utiliza um molde hemostático que se ajusta ao espaço deixado pelo tumor”, explica o médico. “Ele exerce uma pressão controlada que ajuda a parar o sangramento..Hoje, a precisão da intervenção é garantida por um complexo fluxo de trabalho digital que começa muito antes do primeiro corte. “Usamos imagens de TAC para criar modelos 3D detalhados do rim e do tumor. Isto permite perceber exatamente a anatomia de cada doente e planear a cirurgia com precisão”, explica Subirá.Neste processo, a velocidade é fundamental: “A Inteligência Artificial ajuda a processar essas imagens rapidamente, tornando a criação dos modelos mais eficiente. Na prática, significa que cada molde é personalizado e a cirurgia pode ser feita com maior confiança e segurança”. No bloco operatório, o cirurgião utiliza o sistema robótico para manipular estes moldes com uma delicadeza que as mãos humanas, por si só, não conseguiriam replicar, beneficiando de uma visão tridimensional ampliada e imersiva.Salvar o rim para proteger o coraçãoO impacto da técnica RSD extravasa os limites da oncologia e entra no domínio da medicina preventiva sistémica. “O objetivo principal é sempre remover o tumor com segurança. Mas preservar o rim é igualmente importante”, esclarece o médico. Afinal, o rim funciona como o filtro central do corpo humano e a sua falência tem repercussões em cascata em todo o organismo.. Existe uma ligação direta, e muitas vezes subestimada, entre a função renal e a longevidade cardiovascular: “Quanto mais tecido renal conseguimos manter, menor o risco de doença renal crónica e, consequentemente, menor o risco de problemas cardiovasculares no futuro. Assim, a técnica não só ajuda na recuperação imediata, mas também na saúde a longo prazo do doente”. Ao evitar que o doente desenvolva insuficiência renal, a técnica RSD protege indiretamente o coração e a circulação, reduzindo a morbilidade a longo prazo e melhorando a qualidade de vida pós-cancro.Da CUF para o SNS: a democratização da inovaçãoEsta inovação tem potencial para ser disseminada para além do setor privado. “Desde 2024, já realizámos cerca de 40 cirurgias com a técnica RSD no Hospital CUF Tejo e a técnica também já foi aplicada com sucesso num hospital público”, revela David Subirá ao DN. Valores demonstrativos de uma curva de aprendizagem já consolidada.O médico afirma que tem estado ativamente envolvido na formação de outros profissionais, acreditando que o conhecimento deve ser partilhado para benefício global: “Recentemente, estive no Hospital Garcia de Orta para uma sessão de treino e supervisão em cirurgia robótica, na qual os colegas me pediram para lhes demonstrar a técnica.” O interesse é recíproco e crescente entre as equipas hospitalares do Estado. “O interesse por parte de colegas do Serviço Nacional de Saúde é grande. O passo seguinte é desenvolver colaborações multicêntricas para estudar a técnica em mais doentes e contextos, garantindo que possa beneficiar um número maior de pessoas com cancro do rim”, antecipa o urologista, sublinhando a importância da medicina baseada na evidência.A caminho de uma medicina “sem suturas”Questionado sobre a possibilidade de vir, um dia, a imprimir órgãos completos para eliminar as listas de espera de transplantes, o cirurgião mantém o rigor científico e a cautela necessária: “A bioimpressão de órgãos completos ainda é uma área de investigação e provavelmente precisará de mais tempo até ser aplicada na prática clínica. Criar um órgão totalmente funcional e que se integre no corpo humano é um desafio muito grande.”.David Subirá afirma que tem estado ativamente envolvido na formação de outros profissionais. Já realizou a intervenção com um hospital do Estado e o interesse do SNS é recíproco e crescente: “O interesse por parte de colegas do Serviço Nacional de Saúde é grande”, afirma..Contudo, o presente já é altamente tecnológico e abre portas a um novo paradigma cirúrgico. “Já estamos a usar a impressão 3D, biomateriais e planeamento digital para personalizar cirurgias. Isso permite reduzir a necessidade de suturas em muitas situações, embora o mais importante continue a ser adaptar a cirurgia ao doente e ao tumor”, diz David Subirá.A técnica RSD é, assim, o rosto de uma nova era na medicina portuguesa: um fase em que a tecnologia serve a personalização e a precisão de um molde 3D pode ditar a saúde e a qualidade de vida a longo prazo de uma pessoa.