Indignados com o governo gritaram "demissão" na rua

Vigília para protestar contra a forma como o governo lidou com os incêndios juntou cerca de três mil pessoas em Belém, ao fim da tarde. Há manifestações convocadas para sábado

Cartazes improvisados, com palavras duras e diretas - "Assassinos", "Governo do 3º mundo, "Atentados terroristas em Portugal: 100 mortos" ou simplesmente "Luto", eram algumas delas -, velas acesas de mão em mão, um rumor de conversas. Seriam umas oito da noite quando alguém começou a cantar o hino nacional, e isso bastou para que a pequena multidão no jardim fronteiro ao Palácio de Belém, em protesto contra a forma como o governo lidou com os incêndios, fosse atrás, a um só voz.

O momento foi emotivo e funcionou como um click para injetar dinâmica à improvisada vigília. A partir daí, e durante cerca de uma hora, as palavras de ordem sucederam-se, com "demissão", "vergonha", ou "acorda Portugal" a serem das mais gritadas, mesmo quando a chuva começou a cair mais a sério.

A manifestação tinha sido convocada através do Facebook, para hoje, às 19.30, para o jardim fronteiro ao Palácio de Belém, por dois organizadores distintos. E apesar de tanto o movimento "Todos a Belém" como o "Protesto Civil e Apartidário" registarem em conjunto cerca de três mil intenções de participação, a comparência das pessoas era uma incógnita.

"Pensámos que íamos ser nós e pouco mais, mas estamos aqui claramente cerca de três mil pessoas, ou mais", observava, satisfeito, Nuno Pereira da Cruz que, juntamente com Jorge Rosa Santos criou o movimento "Protesto Civil e Apartidário". A ideia de ambos foi a de que "era preciso mostrar indignação pela forma como o governo lidou a tragédia dos incêndios como se ela, com os seus cem mortos, fosse uma inevitabilidade", dizia Nuno da Cruz.

Por isso, a adesão à vigília, "o facto de todas estas pessoas estarem aqui neste momento, significa que sabem sair da sua zona de conforto para agir e dizer o que pensam", congratulava-se.

"Todos a Belém", foi o primeiro movimento a surgir no Facebook, logo na segunda-feira de manhã. Com ele, Paulo Gorjão, professor universitário e simpatizante confesso do PSD, quis expressar a sua "revolta" e "solicitar ao Presidente da República que desbloqueie esta situação". Para Paulo Gorjão, e para todos os que gritaram repetidamente a palavra "demissão", a solução "tem de passar no imediato" por isso mesmo: "a demissão da ministra e do secretário de Estado da Administração Interna".

Nem todos, porém, estavam ali com esse objetivo. Desde logo os organizadores do "Protesto Civil e Apartidário", cujo espírito era o de "exigir ao Governo que ponha a prioridade no combate aos incêndios, com pessoas competentes". Como muitos outros.

Entre a multidão, empunhando as fotografias dos pais e dos avós, quatro das vítimas mortais do fogo de Pedrógão, os irmãos João e Carina Abreu eram a imagem da perda imensa causada pelos incêndios. Eles, entre todos, não podiam deixar de estar ali.

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