Idosos quase tantos como os ativos em 60 anos

Quando os bebés de hoje tiverem 65 ou mais anos haverá apenas 1,37 pessoas com idade para trabalhar e para descontar para a Segurança Social, quase três vezes menos do que atualmente.

A população portuguesa diminuirá para 7,5 milhões até 2080, num cenário moderado, diz o INE. Continuaremos a envelhecer, sobretudo o Norte. Jovens descem abaixo do milhão e idosos aproximam-se dos três

Significa que a sustentabilidade do sistema corre sérios riscos se não se tomarem medidas de fundo. Mesmo que nasçam mais algumas crianças por ano, os jovens serão em 2080 três vezes menos que os idosos, segundo projeções do Instituto Nacional de Estatística (INE), ontem apresentadas.

O índice de sustentabilidade (coeficiente entre o número de pessoas entre 15 e 64 anos e o número dos que têm 65 e mais anos) "poderá diminuir de forma acentuada, face ao decréscimo da população em idade ativa, a par do aumento da população idosa. A proporção passará de 315 para 137 pessoas em idade ativa por cada 100 idosos", revela o INE no estudo Projeções da População Residente, publicadas em cada três anos.

A população continuara a envelhecer até 2060, ano em que se prevê uma estabilização.

Os habitantes com menos de 15 anos serão 0,9 milhões dentro de 63 anos e os que têm mais de 64 representarão 2,8 milhões (ver gráfico). Isto no cenário moderado. Se formos para uma leitura mais pessimista, se o índice de fecundidade (filhos por mulher em idade fértil) se mantiver nos atuais 1,35 e continuarem a sair mais pessoas do país do que a entrar, em 2080 os jovens serão 537,3 mil; os ativos 2,8 milhões e os idosos 2,4 milhões. Nesta projeção, Portugal praticamente diminuirá de população, para os 5,8 milhões. Na melhor das hipóteses seremos 9,5 milhões e, numa perspetiva moderada 7,4 milhões.

Perante os números, Fernando Ribeiro Mendes, ex-secretário de Estado da Segurança Social, não afasta um cenário negro nas próximas décadas, mesmo de rotura. Isto porque entende que "as sociedades modernas não têm tido a capacidade de desenvolver políticas de longo prazo" para inverter a situação. Mas também acredita que "não há inevitabilidades" e o que é preciso é mudar o modelo de financiamento de segurança social.

A mudança é defendida pelos estudiosos há 20 anos, mas só agora os empresários e políticos começam a pensar mais seriamente na forma de o fazerem. Ainda assim, acrescenta o economista, não se "reconhece que este é um problema estrutural", o que é fundamental para a aplicação de medidas de fundo que permitam resolver o problema.

Isto porque cada vez há menos jovens, o que significa menos pessoas a trabalhar no futuro, e mais idosos, logo mais população a depender de uma reforma. O índice de envelhecimento (número de idosos por jovens) mais do que duplicará, passando de 147 para 317 idosos por cada 100 jovens). Uma tendência que se verificará em todo o país, mas haverá mudanças nas regiões mais e menos envelhecidas. O Norte passará a ser a região mais envelhecida (em 2015 era o Alentejo) e o Algarve, a mais jovem (em vez dos Açores).

Também os atuais negócios dependem mais das novas tecnologias do que da mão-de-obra e a sustentabilidade da segurança social ainda está muito dependente das contribuições decorrentes do trabalho. A solução passará pela aplicação de impostos indiretos, o que já se faz mas que não é suficiente, defende Fernando Mendes. "Temos de arranjar um modelo de financiamento mais híbrido, com uma parte que resulta do esforço individual da pessoa pelo seu trabalho, uma resultante das contribuições fiscais e outra da poupança, mas para haver isso acontecer tem que haver incentivos e uma consciencialização da população."

A esperança de vida continuará a aumentar, fixando-se a idade média nos homens em 87,38 anos e nas mulheres em 92,10 em qualquer um dos cenários. O que significa que os bebés do sexo masculino vão viver mais dez anos do que os idosos atualmente e os do sexo feminino mais nove.

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