A presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) alertou esta quarta-feira, 14 de janeiro, para o aumento dos comportamentos de jogo problemático, revelando que 1,3% da população portuguesa apresenta sinais de risco e 0,6% já evidencia dependência.Numa audição na Comissão de Economia e Coesão Territorial, Joana Teixeira lembrou que os quadros de dependência ocorrem sobretudo nos homens “entre os 25 e os 34 anos e entre os 45 e os 54 anos”.“Estes valores têm sido um bocadinho superiores aos registados em 2012”, sublinhou a responsável, na audição requerida pelo Livre, no contexto da discussão sobre a regulação da publicidade e do patrocínio ligados aos jogos e apostas.Joana Teixeira recordou o Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral de 2022, explicando que 56% dos portugueses já jogaram a dinheiro, uma percentagem acima da registada em 2016/2017, mas ainda abaixo dos 66% observados em 2012.“Do ponto de vista de população geral a jogar a dinheiro, temos valores um bocadinho menores, mas em termos de consumo problemático de jogo e de dependência de jogo, os dados indicam aqui uma evolução crescente e daí a relevância deste tema”, disse.De acordo com a presidente do ICAD, o Euromilhões continua a ser o jogo mais praticado, seguido da raspadinha, com maior incidência entre os 35 e os 64 anos e predominância masculina.A responsável destacou ainda os dados mais recentes relativos aos mais jovens, lembrando o estudo do Dia da Defesa Nacional de 2024, que indica que 16% dos adolescentes de 18 anos apostam ‘online’.“Também temos aqui outro dado que é bastante relevante que é o estudo ECATD de 2024 [Estudo sobre os Comportamentos de Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências - Portugal 2024], que é realizado nos jovens em contexto escolar, entre os 13 e os 18 anos, que mostra que 18% jogaram a dinheiro no último ano”, realçou.Os dados indicam ainda que os jogadores são maioritariamente rapazes e que as práticas mais comuns incluem lotarias, apostas desportivas e jogos de cartas e dados.Segundo Joana Teixeira, estes números revelam “um aumento da problemática de jogo, sobretudo nos mais jovens e no contexto ‘online’”. .Acesso fácil ao online impulsiona aumento do jogo entre menores dos 12 aos 16 anos. A responsável alertou ainda para o aumento do jogo entre menores dos 12 aos 16 anos, impulsionado pelo fácil acesso ao ‘online’, e garantiu que o ICAD está a preparar medidas para responder ao agravamento do fenómeno.“Temos esta análise em curso no ICAD. Temos previstas várias medidas que serão apresentadas em breve. Estamos em cima deste assunto, que é pertinente, e que tem de ser realmente analisado de uma forma cientificamente correta, e de uma forma que seja eficaz para poder ter um resultado também, em termos de saúde pública, que seja bom para a população”, salientou.Questionada sobre o impacto da publicidade, a presidente do ICAD confirmou que é “uma questão relevante”, lembrando que os estudos mostram uma relação direta entre a exposição publicitária e a participação no jogo.Embora sublinhe que o jogo é uma atividade lúdica e que nem todos os jogadores desenvolvem comportamentos patológicos, alertou que a publicidade aumenta o risco para quem já tem maior vulnerabilidade.“Nem toda a população está sujeita a vir a desenvolver um quadro patológico de utilização de jogo, mas, realmente, para quem tem esta propensão, a publicidade aumenta o risco de jogar”, vincou..Agravamento do vício do jogo exige “medidas eficazes”.A presidente ICAD alertou ainda que o agravamento dos comportamentos aditivos ligados ao jogo exige “medidas eficazes”, afirmando que essas estão a ser “devidamente estudadas”.Naa audição na Comissão de Economia e Coesão Territorial, Joana Teixeira referiu que as medidas para regular a publicidade ao jogo serão apresentadas “em breve”, defendendo limites aos horários e maior atenção ao impacto das redes sociais nos jovens.“As várias medidas estão, neste momento, a ser estudadas e irão ser apresentadas em breve e numa altura que seja também pertinente”, salientou, na audição requerida pelo Livre, no contexto da discussão sobre a regulação da publicidade e do patrocínio ligados aos jogos e apostas.Entre as soluções em análise, destacou que “mais do que a proibição”, poderá ser determinante “a redução dos horários em que a publicidade é feita, para não haver a possibilidade dos menores estarem a observar”.“Nas redes sociais e nos ‘influencers’ é mais complicado”, lembrou, indicando que estes conteúdos promovem “ganhos fáceis e um estilo de vida fácil de conseguir através do jogo”, o que os torna especialmente perigosos para pessoas vulneráveis.A presidente do ICAD insistiu que o tema exige coordenação interministerial.“Não é uma questão puramente técnica. Temos que envolver aqui outros setores de outros ministérios para termos uma ação mais concertada”, precisou.Sobre o risco de migração para o jogo ilegal, Joana Teixeira mostrou-se cautelosa: “Se nós não temos evidência científica que comprove que isso é realmente uma questão, eu não posso nem dizer que sim ou que não”.A responsável destacou ainda programas já em curso, como “Eu e os Outros”, “Não jogues com o teu futuro” e “What’s UP Tu Decides”, reforçando que o ICAD está “muito atento a esta problemática” e apresentará “mais medidas estruturadas em breve”.Anunciou ainda a criação do Fórum do Jogo, prevista para o primeiro semestre, e a inclusão, nas comunidades terapêuticas, de “um programa específico para o tratamento das perturbações de jogo”, até aqui centradas em álcool e drogas ilícitas.“Neste conselho interministerial, que irá ser convocado agora no primeiro semestre, também iremos debater as medidas que podem ser implementadas e iremos aqui também apresentar as que já temos”, adiantou.A presidente do ICAD avisou, no entanto, que, antes de serem postas em prática, as medidas têm de ser planeadas, para não “gastar recursos que são limitados”.“O Orçamento do Estado não estica e, portanto, nós temos que conseguir gerir da melhor forma, em benefício do serviço público, o nosso orçamento, de forma a implementar medidas com caráter que realmente sejam eficazes”, sublinhou.Em termos de tratamento, indicou que “o número de utentes em tratamento ambulatório na rede pública de comportamentos aditivos e dependências tem vindo a crescer”, passando de 358 pessoas em 2023 para 548 em 2024, “a maioria homens” e com maior prevalência entre os 25 e os 34 anos.Em relação ao paralelismo entre álcool e jogo, Joana Teixeira considerou que “as semelhanças são enormes”, mas apontou a “uma maior sensibilidade que existe para o caráter patológico que pode advir do jogo”, enquanto “o álcool está muito mais normalizado” na sociedade..Joana Teixeira, de 41 anos, assumiu funções em 1 de janeiro para um mandato de cinco anos, renovável por igual período, sucedendo a João Goulão, de 71 anos, que se aposentou..Parlamento rejeita proibição de venda de raspadinhas e lotarias nos hospitais.Raspadinha ou Euromilhões, onde é que os portugueses apostam mais?