Não há nenhuma desculpa para o abandono de animais. É o que vinca ao DN a provedora dos Animais, Laurentina Pedroso, que alerta para esta problemática, intensificada nesta altura, com as férias de verão. Ao mesmo tempo, explica que apesar do aumento na altura das férias de verão, o abandono de animais é um problema “o ano todo”.Segundo Laurentina Pedroso, em média, os centros de recolha de animais recebem por ano 40 mil “animais errantes”, ou seja, encontrados na rua. De facto, de acordo com os últimos dados registados destes centros de recolha e plasmados no relatório do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas de 2024 - o último atualizado, foram recolhidos 42.718 cães e gatos. É um valor que não varia muito face aos quatro anos antes, tendo havido um pico de 45.162 animais recolhidos em 2023. Porém, destacou a provedora, estas estatísticas não contam a história toda do abandono de animais em Portugal. Isso porque, apesar da maioria destes animais serem abandonados, o número também conta com os que já viviam nas ruas e não contabiliza os que estavam perdidos e que são recolhidos pelas associações. Ainda assim, as férias, normalmente associadas a maior abandono, não podem ser desculpa para deixar os animais domésticos. “Quem vai de férias e vai desfrutar e vai descansar [...] se abandona o animal por este motivo, é [uma pessoa] desprovida total de empatia”, considerou Laurentina Pedroso, veterinária e professora que ocupa o cargo desde janeiro de 2021. Para a responsável, esta falta de empatia reflete-se também quando deixa de haver condições para manter os animais, quer por “dificuldades económicas”, nascimento de filhos ou mudança de país. “As pessoas que são empáticas, que realmente conseguem sentir o que o outro sente, procuram ajuda, não abandonam”.. Vinca que abandono não é só uma questão de pensar no sentimento dos animais, é mesmo “um problema de saúde pública”, afirmou. “Os animais nas ruas, obviamente, podem criar problemas de segurança, podem causar acidentes, podem procriar e originar matilhas”, explicou Laurentina Pedroso, lembrando que há “doenças que se transmitem dos animais aos seres humanos”.Do ponto de vista do Estado, a Provedora do Animal defendeu e recomendou a criação de “uma rede eficaz de apoio” às “famílias carenciadas” para as ajudar “porque também têm direito a ter animais”. Esta rede integrada, explicou, deve passar por um apoio aos animais que vivem nestas famílias com dificuldades económicas, oferecendo, por exemplo, ajuda nas Faculdades de Medicina Veterinária com o tratamento aos animais “em situações de emergência”.Porém, Laurentina Pedroso conta que “uma das principais políticas” que tem recomendado ao Governo é a criação de “um voucher de esterilização”, que seria de “acesso universal” e sob tutela da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária. “A esterilização animal é importantíssima porque evita as ninhadas indesejáveis. E isto é, ao fim e ao cabo, o maior potencial para o abandono”, explicou a provedora, lembrando que já há “vouchers semelhantes” para incentivar determinados comportamentos..GNR regista mais de 470 crimes de maus-tratos e abandono de animais este ano.A profissional cita exemplos. “As pessoas podem ter um voucher quando compram carros elétricos, há um voucher para a formação digital”, exemplificou. No papel do apoio às famílias, a presença das associações para os animais e do trabalho que fazem no cuidado e na recolha é também importante e já “ajudam muito”. “Hoje, não há desculpa para abandonar um animal”, insistiu a provedora, acrescentando que tudo o que é dito é, na verdade “nós não nos conseguirmos colocar nos sapatos daquele que abandonamos”. Ensinar desde cedoA empatia e a educação para a empatia é, para Laurentina Pedroso, a melhor forma de combater o abandono de animais. Para a responsável, o Estado deve também apoiar quem quer ter um animal e tem dificuldades económicas, já que é “um direito delas”.Uma das iniciativas da provedora é o ebook Tito, um novo livro para começar a educar as gerações mais novas para esta questão e que já está disponível como e-book em forma de aplicação. Um lançamento formal está planeado para setembro, quando as escolas voltarem a funcionar em pleno. O livro, explicou a responsável, “conta a história de um animal que é abandonado, depois de ser feliz e ter-se vestido no seio de uma família, sofre um abandono, vive nas ruas, é recolhido pelo centro de recolha oficial e volta depois a ser adotado e a ter uma vida feliz”.“Quem reconhece o animal como um ser senciente, um ser sensível, capaz de sentir dor, medo, alegria, dificilmente abandona o animal”, contou Laurentina Pedroso, veterinária e professora que ocupa o cargo desde janeiro de 2021. Para a responsável, a “falta de empatia” é mesmo o principal fator para as pessoas abandonarem os animais. “O ser humano que reconhece que, ao abandonar, vai sujeitar um ser vivo, ser que sofre, que vai sentir o calor, o frio, a fome, a sede, a solidão, [...] não abandona o animal”, continuou a provedora, reconhecendo que não se nasce com este sentimento já instalado.“A empatia na educação adquire-se quando uma criança observa os comportamentos dos pais, dos professores. Quando [a criança] vê os adultos tratarem pessoas e animais com respeito”, contou. E é neste trabalho que o livro pretende intervir, contou a provedora, explicando que o Tito, quer ser uma “ferramenta” que ajude “a que a criança desenvolva esta capacidade de empatia”.“A criança ao ler a história e ao evoluir nos vários temas que vai criando, a criança adquire essa capacidade de perspectiva que é imaginar o que é que seria estar no lugar daquele animal. O que é que a criança sentiria ao estar no lugar daquele animal? Sentir-se-ia sozinha, sentir-se-ia abandonada por aqueles que mais ama”, disse. Dentro desta empatia, disse ainda a provedora, é preciso ensinar o que chamou de “detenção responsável” a miúdos e também a graúdos, já que ter um animal é “um compromisso para 10, 20 anos”. “Estamos preparados para esse compromisso? Muitas vezes, as crianças quase que querem ter um animal como um substituto de um brinquedo. O livro também pretende ensinar que o animal não é um brinquedo e exige responsabilidade”, acrescentou..Houve 1018 casos de maus tratos em 2024. PAN assinala a lei que reconhece o “sofrimento animal”.214 animais foram abandonados em Portugal este ano mas crimes de abandono e maus tratos estão a diminuir.“O meu cão não cabe nas nossas férias”