Hoje é dia de texto preliminar do acordo de Paris. Ou não

China e países em desenvolvimento querem ricos a assumir responsabilidades. Financiamento é o problema

E ontem, ao quarto dia da cimeira do clima, em Paris, com os delegados a ultimarem um texto preliminar de acordo, tal como prevê o calendário dos trabalhos, a China e um grupo de países em desenvolvimento voltaram ao tema da responsabilidade histórica dos países desenvolvidos nas alterações climáticas. Uma chamada de atenção que pode ser lida à luz da questão do financiamento aos países em desenvolvimento, para se adaptarem às alterações climáticas, um dos temas que se adivinhavam mais difíceis nesta conferência.

O regresso da velha acusação da responsabilidade histórica, que não deixa, aliás, de ser real, é nesta altura uma forma de pressão, para que os montantes em cima da mesa para esse fundo possa vir a ganhar letra de lei no acordo de Paris - são cem mil milhões de dólares ao ano, a partir de 2020, pagos pelos países desenvolvidos, com a possibilidade de alguns países em desenvolvimento contribuírem também.

"Os factos de base não se alteraram", afirmou Su Wei, o chefe da delegação chinesa nas negociações, citado no diário britânico The Guardian. "O problema foi causado pelos países em desenvolvimento. Eles precisam de enfrentar as suas responsabilidades e tomar a dianteira na redução das emissões de gases com efeito de estufa", sublinhou o delegado chinês.

Já Nozipho Mxakato-Diseko, representante da África do Sul, foi mais explícito, ao afirmar que "um pequeno grupo de países ricos", que se recusou a nomear, estaria a tentar fugir ao fecho de um acordo sobre o financiamento. Ou seja, para já, as divisões revelam-se em todo o seu esplendor.

Um texto preliminar

Para hoje, no entanto, e de acordo com a agenda estipulada, os negociadores têm a incumbência de apresentar o texto preliminar do acordo, que deve ser tão próximo quanto possível do documento final, e que os ministros do ambiente dos 196 países terão de aprovar na próxima semana.

Isso significa eliminar todos os parêntesis em cada um dos parágrafos do texto, para ele ficar apenas com uma formulação para os vários temas: do acordo propriamente dito aos seus termos, objetivos e financiamento. As 50 páginas de ontem terão ser reduzidas a apenas oito - o documento chegou a Paris com 54 páginas.

O facto de nestes quatro dias terem sido cortadas apenas quatro páginas ao documento original, e de ainda restarem 50 na véspera da entrega da versão preliminar para os políticos, estava a ser encarado em Paris como um mau sinal para o cumprimento do calendário. Muitos mostravam-se céticos quanto à possibilidade de esta primeira data decisiva das negociações poder não ser exequível. Mas hoje é esse dia e, portanto, hoje se verá.

Entretanto, cientistas como James Hansen, que dirigiu o centro espacial Goddard da NASA, nos Estados Unidos, e foi um dos primeiros heróis da luta contra as alterações climáticas no seu país - em 1998 foi ao senado americano falar pela primeira vez sobre os fundamentos científicos do problema - continuam a alertar para a insuficiência das propostas de redução das emissões de gases com efeito de estufa que estão em cima da mesa, nesta conferência.

As propostas ainda não chegam para manter a subida da temperatura do planeta num máximo de dois graus Célsius até 2100, em relação à era pré-industrial, mas os peritos começam a dizer que os dois graus já são um grande risco.

James Hansen, que também está em Paris para participar na cimeira, é um deles. Um aumento de "dois graus é definitivamente perigoso", afirmou ele. "Estamos à beira de atingir um aumento de um grau e mesmo que reduzamos as emissões em 6% ao ano vamos chegar a mais um grau", disse o cientista.

No meio desta azáfama de reuniões, de negociações e de alertas, ontem foi também dia de ataque informático por parte dos Anonymous, que entraram no site da Convenção das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas e divulgaram informações confidenciais de 1415 delegados de vários países. Entre eles, dos Estados Unidos, Suíça, França, ou Reino Unido. A ação, reivindicaram os Anonymous, pretendeu ser um protesto contra a detenção de manifestantes, no domingo, na marcha do clima, em Paris.

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