Portugal tratou mais de 38 mil pessoas com hepatite C na última década, atingiu 97% de cura e reduziu drasticamente internamentos e cirrose, enquanto a hepatite B regista mais casos pelo segundo ano consecutivo e a hepatite A ultrapassa os 1100 infetados, exigindo reforço imediato da vigilância, vacinação e diagnóstico precoce. Os dados constam do Relatório de 2026 do Programa Nacional para as Hepatites Virais, divulgado precisamente esta terça-feira, Dia Mundial das Hepatites, pela Direção-Geral da Saúde, e não atenuam – antes pelo contrário – o otimismo de Rui Tato Marinho, um dos seus autores e diretor deste programa da DGS.“O quadro é positivo”, garante o professor e gastrenterologista ao DN, sublinhando os trunfos do Serviço Nacional de Saúde: “Estamos bem na vacinação de todas as crianças para salvaguardar a nova infeção por hepatite B, e no facto de o tratamento para a hepatite B e C ser gratuito, sem discriminação. Para os casos mais graves em que a cirrose começa a correr mal, temos um dos melhores programas de transplante hepático do mundo.”. O documento traça o retrato epidemiológico do país em 2025: o balanço global do combate às hepatites virais em Portugal apresenta um cenário de duas velocidades. Por um lado, o país contabiliza taxas de cura de 96,7% na hepatite C e coberturas vacinais superiores a 98% na hepatite B. Por outro, enfrenta um aumento acentuado de surtos de hepatite A, a subida de notificações - casos registados e comunicados - de hepatite B e um persistente gargalo no diagnóstico precoce, que faz com que mais de um terço dos doentes de hepatite C chegue ao tratamento já com lesões hepáticas graves.Como se justifica este quadro então? A hepatite A registou um crescimento expressivo em 2025, somando 1164 casos confirmados (uma taxa de 10,8 por 100 mil habitantes): um disparo de 265% face aos 319 casos contabilizados em 2024. A subida foi impulsionada por dois surtos distintos: um associado a condições de salubridade deficitárias e outro a redes de transmissão sexual. Como resposta, o SNS ministrou 106.299 vacinas contra a hepatite A.O diretor do Programa para as Hepatites Virais – “um programa prioritário”, como faz questão de salientar, logo à partida – justifica o fenómeno com a melhoria das condições sanitárias das últimas décadas, que deixou os adultos jovens sem imunidade natural adquirida na infância: “Antigamente, há 30 ou 40 anos, todos éramos infetados em miúdos (...) e ficávamos protegidos. Agora temos mais adultos não-protegidos.”Paralelamente, a hepatite B registou 354 casos confirmados em 2025, traduzindo uma subida de 31% face a 2024 e marcando o segundo ano consecutivo de aumento nas notificações.Apesar de Portugal manter uma taxa de vacinação infantil de excelência (>98%), Tato Marinho afasta o cenário de surto comunitário e aponta para o registo de infeções crónicas antigas e para o impacto dos fluxos migratórios: “Sabemos que os migrantes, alguns vêm com elevado risco da hepatite B. Têm países africanos, asiáticos e da Europa de Leste”, explica. Hepatite C: quase erradicação vs. atrasosA assinalar uma década desde a garantia de acesso universal gratuito aos Antivirais de Ação Direta, o tratamento da hepatite C acumula 38.344 autorizações e 33.952 episódios iniciados desde 2015. Nos centros de hemodiálise, o rastreio e tratamento sistemáticos reduziram a prevalência do vírus ativo de 160 casos, em 2017, para apenas 14 em 2025 - é a quase erradicação.Ainda assim, 35,8% dos novos doentes continuam a iniciar a medicação já em fase de fibrose avançada ou cirrose. Além disso, o tempo médio entre o pedido e o início efetivo da terapêutica agravou-se para 88,3 dias em 2025 (face a 71,5 dias em 2023). Tato Marinho defende a massificação da testagem “pelo menos uma vez na vida”, mesmo sem fatores de risco aparentes, e pede circuitos hospitalares mais céleres: “Tem de ser encurtado, medido e fazer como Espanha está a fazer: praticamente no próprio dia ou numa semana.”Confrontado com a possibilidade de estender a vacinação contra as hepatites às farmácias comunitárias, o especialista afasta cenários de risco e reforça que “tudo o que seja aumentar o acesso a estas vacinas, que são altamente eficazes, têm um objetivo”.Populações vulneráveis e a névoa na mortalidadeNas prisões, o relatório assinala 1522 tratamentos autorizados e uma taxa de cura de 97,7%, mas o aumento da população reclusa total (de 11 mil para cerca de 14 mil pessoas) exige o reforço da testagem sistemática à entrada.No capítulo da mortalidade, registaram-se 53 óbitos diretos por hepatites virais em 2024, valor em forte contraste com 1414 mortes por cancro do fígado e vias biliares e 873 por cirrose. Tato Marinho adverte que a codificação dos certificados de óbito tende a mascarar o papel dos vírus: “Se um doente tem hepatite C há 40 anos, desenvolve cirrose e depois cancro no fígado, no circuito médico muitas vezes entra só o cancro ou a cirrose. Tentar separar a causa primária é uma mistura complexa.”No meio prisional, onde a população reclusa subiu de “11 mil para 13 ou 14 mil pessoas”, Tato Marinho defende a urgência de “implementar em todas as cadeias o tal teste à entrada” para identificar e tratar precocemente as infeções. Já em relação aos consumidores de drogas, apontados como “as pessoas de maior risco”, o responsável destaca a importância das equipas de proximidade no terreno, sublinhando que o sistema tem de se “adaptar à pessoa que tem em frente”.Em 2025, o SNS realizou mais de 653 mil testes de hepatite C e 552 mil de rastreio de hepatite B, aos quais se somam 82 mil testes rápidos comunitários, reafirmando o diagnóstico precoce como a chave central para cumprir as metas da OMS até 2030.