Há 42 burlas por dia no país. Os idosos são os alvos mais vulneráveis

Nos últimos anos polícias têm registado aumento deste crime. PJ deteve uma mulher que tirou 121 mil euros a casal amigo

Foi um crime de oportunidade, daqueles que se fazem uma vez na vida, e a maior desilusão para um casal de idosos, residente em Sines, que perdeu as poupanças de uma vida por confiar na palavra de uma mulher que conheciam desde criança. O caso aconteceu em 2015 mas a alegada burlona só foi detida esta semana pela Polícia Judiciária de Setúbal, que a localizou no Algarve, para onde fugiu. A PJ apurou que a mulher, de 40 anos, já gastou a totalidade dos 121 mil euros que o casal lhe entregou. Entretanto, o idoso morreu pouco tempo depois da fuga da suspeita.

Este é um exemplo de um crime que tem aumentado nos últimos anos. O Relatório Anual de Segurança Interna referente ao ano passado indica que houve 15 606 burlas reportadas às forças de segurança, o que dá uma média de 42 por dia, metade praticadas por meio informático e nas comunicações, e a outra metade correspondendo aos clássicos esquemas ou "contos do vigário".

A GNR tem alertado para o facto de os burlões terem como alvos principais os idosos e as crianças. Em 2016, na sua área territorial, e num universo de 11 mil crimes, a Guarda registou 674 burlas a idosos. As mais frequentes foram: o conto do vigário, o benzer do ouro, a entrega de encomendas, a troca de notas (alegando que determinadas notas deixam de ter validade), o suspeito que se faz passar por colaborador da Segurança Social, da EDP, entre outras empresas, e o suspeito que pretende vender algo como um excelente negócio, adiantou ao DN fonte desta força de segurança.

O processo de sedução na burla

O processo de sedução de um burlão tem várias nuances. Primeiro, é preciso convencer a vítima. No caso da mulher agora detida pela Polícia Judiciária, os alvos, ambos na casa dos 80 anos e analfabetos, foram convencidos a retirar as poupanças do banco, porque o dinheiro ali não estava seguro, e a deixarem os investimentos a seu cargo, com a promessa de que colocaria as poupanças em aplicações financeiras que teriam um retorno com juros elevados. Chegou mesmo a simulou um contrato de empréstimo a particular, em que era ela a titular.

Os 121 mil euros que o casal amealhou, fruto do trabalho na pesca, começou a ser gasto pela alegada burlona em obras na sua casa e outras despesas. Para continuar a manter a confiança do casal, de vez em quando devolvia-lhes algum dinheiro, a pretexto de ser retorno de juros, com declarações assinadas pelas partes para parecer mais credível. A filha dos idosos começou a perceber que algo se passava e foi questionar a mulher. Com receio, a burlona fugiu de Sines. Entretanto, pouco depois da fuga, o idoso, que tinha mais de 80 anos, morreu, o que levou a sua viúva e a filha a apresentarem uma queixa-crime contra a suspeita.

Desde a prática da burla que a alegada burlona era procurada pela PJ, que a encontrou na zona de Portimão (Algarve), a trabalhar numa unidade hoteleira. Estaria a ganhar pouco mais de 650 euros mensais e garantiu aos inspetores que já tinha gasto os 121 mil euros do casal de idosos.

Segundo fonte da Judiciária, a idosa e a filha ficaram sem nada. A suspeita terá praticado o chamado "crime de oportunidade" pois não tinha antecedentes.

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