"Gravidez tardia não é igual a cesariana"

Ginecologista obstetra, Carlos Veríssimo é o diretor do Serviço de Ginecologia-Obstetrícia do Hospital Beatriz Ângelo e coordenador do Centro de Diagnóstico Pré-Natal do Hospital da Luz, entre outras unidades onde exerce. Defende que uma grávida depois dos 40 anos acompanhada tem um percurso normal. E, de uma vez por todas, combate quem diz que é sinónimo de cesariana.

Há mais mulheres a terem o primeiro filho após os 40 anos, porquê?

Tem a ver com o entrar mais tarde no mercado de trabalho. E, por outro lado, há maior acesso às técnicas de fertilização, há uma gravidez medicamente assistida mais tarde. Um dia destes não tinha grávidas com menos de 40 anos no meu consultório, chamei-lhe o "dia quarentão" e mais de 50 % era a primeira vez.

São gravidezes de risco?

Na nossa escala, a partir dos 40 anos é considerada gravidez de risco, mas é uma designação clínica, teórica, porque pode ter uma gravidez normal. A grávida está mais sujeita a ter doenças de hipertensão, diabetes, patologias ligadas à obesidade e à tiroide, o que conseguimos controlar perfeitamente.

Deve ter cuidados extras?

Teoricamente, uma grávida normal não precisa de andar num obstetra, em Inglaterra, uma grávida normal não vê o obstetra. Em Portugal, é considerada uma gravidez de risco e deve ter um obstetra.

Quais poderão ser as maiores complicações para o bebé?

As três complicações mais prováveis na mãe, se não forem controladas, refletem-se no bebé, desde logo as complicações de um parto prematuro, a criança pode herdar os diabetes e por ai fora.

Quais são os mitos a combater?

O principal tem a ver com as cesarianas. Ter filhos acima dos 40 não é igual a cesariana. Faço parte de um hospital, o Beatriz Ângelo, que tem a menor taxa de cesarianas do País. Combatamos esse mito porque uma cesariana tem riscos, tanto para a mãe como para o feto. Não só condiciona o parto seguinte, como os bebés podem ter infeções, além das complicações cirúrgicas. As taxas de cesarianas definem a qualidade de um serviço de saúde.

Os privados têm uma taxa de cesarianas elevadas.

Mas muitas vezes por vontade das mães. A taxa de cesarianas no Beatriz Ângelo é 19,8% [33% no país] e no Hospital da Luz, onde também exerço, estará acima dos 60%.

Quais é o conselho a potenciais grávidas com mais de 40 anos?

Fazer uma consulta pré-gravidez. O ácido fólico deve começar a ser feito dois a três meses antes da gravidez, para prevenir as doenças do sistema nervoso do bebé e que são aquelas que vêm com a idade. E, quando engravidar, marcar logo uma consulta. Nas primeiras consultas, definem-se os riscos de anomalias cromossômicas e trissonomia 21, que é significativamente maior acima dos 40 anos, numa relação de 1 para 30. Depois seguir a gravidez como as outras.

Hoje correm-se menos riscos?

Sem dúvida, pelos meios de diagnósticos, pelos protocolos, que cumprem com algum rigor e definem o que fazer perante determinada patologia. Hoje é possível ver se a grávida vai ter hipertensão.

São mães mais ansiosas?

Se já têm filhos, existe um grau de descontração, agora se é a primeira vez são das grávidas mais ansiosas que tenho. Têm acesso na net a uma informação que as assusta. As primeiras consultas são mais de psicologia do que de obstetrícia, para desmistificar muitas coisas.

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