Foto da entrega da proposta no Parlamento.
Foto da entrega da proposta no Parlamento.Foto: DR

“Grande expectativa” na aprovação do projeto que torna racismo crime

É mais um passo de um caminho que começou há mais de dois anos. “O mais importante para nós é o debate sobre a forma como as vítimas são tratadas”, diz uma porta-voz do grupo Anizabela Amaral.
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Foi numa tarde quente da primavera de 2024 que um grupo se reuniu em Lisboa, com pessoas participando remotamente de várias partes do país, em torno de uma ideia: tornar as práticas discriminatórias um crime em Portugal, com pena de prisão. O resultado dessa ideia, vista à época por ativistas como um sonho, está mais próximo da realidade: o Parlamento realiza esta sexta-feira, 12 de junho, a primeira votação da proposta que altera o Código Penal para punir efetivamente essas práticas.

“Estamos com uma grande expectativa”, começa por dizer ao DN a porta-voz do grupo Anizabela Amaral. A ativista é uma das várias pessoas voluntárias que participam no projeto desde o início, participando da elaboração do texto, da recolha das 20 mil assinaturas necessárias e das diversas audiências no Parlamento. Esse foi parte do caminho percorrido até agora para que a proposta fosse apreciada na Assembleia da República (AR).

Atualmente, só é considerado crime quando a prática ocorre “publicamente”, explica Anizabela Amaral. “Quando esses atos discriminatórios são praticados fora dos meios de comunicação, quando acontecem cara a cara - seja no supermercado, na fila do pão ou em um autocarro -, nessas situações do quotidiano, da discriminação quotidiana, eles não são criminalizados pelo Código Penal. É nesse ponto que Portugal ainda precisa avançar”, argumenta.

“Estamos constantemente recebendo informações contrárias ao que acontece na realidade. As pessoas vão às esquadras, apresentam queixas, e o que o Código Penal prevê é o crime de injúria simples, que não é agravado pela motivação discriminatória”, detalha. As queixas por discriminação, racismo e xenofobia registradas junto à Guarda Nacional Republicana (GNR) e à Polícia de Segurança Pública (PSP) aumentaram desde 2021. As duas forças de segurança receberam quase mil denúncias em quatro anos.

Num relatório oficial, a Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI, na sigla em inglês) apelou às autoridades nacionais para que coloquem em prática programas de formação destinados a “agentes das polícias e outros profissionais da justiça criminal”. No documento, também foi recomendado que as autoridades nacionais melhorem a relação entre as polícias e os “grupos vulneráveis, como migrantes e comunidades ciganas”.

Esses grupos são, de acordo com os autores do relatório, assim como “as pessoas negras e LGBTI”, alvos preferenciais dos discursos de ódio, muitos deles envolvendo grupos neonazistas. A ECRI também destaca o fato de que grande parte desse discurso está sendo disseminada online.

Ciente do cenário político que hoje domina o Parlamento, a ativista destaca que a realização do debate público já é importante. “Hoje, vamos ver pelo menos todos os deputados e deputadas que nos representam na Assembleia da República debatendo esse tema. Para nós, o mais importante é deixar algumas sementes.”

O grupo está a olhar para o futuro. “Estamos regando essas sementes e temos esperança de que, no futuro, elas possam florescer, dar frutos e fazer com que as vítimas de discriminação sejam protegidas de outra forma. O modelo atual apenas facilita e gera impunidade para os agressores.”

Esta Iniciativa Legislativa Cidadã partiu de um grupo formado por vários coletivos sociais, que, juntos, denominam-se Grupo de Ação Conjunta (GAC). Para a votação, dez representantes estarão no Parlamento para a assistir ao debate. No total, mais de 35.000 assinaturas foram recolhidas pelo ativistas.

amanda.lima@dn.pt

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