Governo propõe corredor para comboios de 1500 metros entre Sines e a fronteira 

Plano nacional, apresentado ontem, prevê a criação de novos corredores nacionais e internacionais para o transporte de mercadorias em comboio, duplicando a capacidade atual. Projeto piloto ligará Sines a Espanha.

O Plano Ferroviário Nacional (PFN) propõe a construção de novos corredores e novos acessos nacionais e internacionais para o transporte de mercadorias por comboio, um deles caso inédito no país. Trata-se de um corredor entre Sines e a fronteira com Espanha para comboios com 1,5 quilómetros de comprimento.

O documento apresentado ontem nas instalações do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, menciona a construção de um " corredor piloto para comboios de maior comprimento (1500 metros) entre Sines e a fronteira [espanhola]".

O plano não especifica detalhes sobre este corredor - há que ter em conta que este não será um empreendimento para o curto prazo. O PFN nem tem prazo fixado, embora assuma o horizonte temporal indicativo de 2050. Não obstante, ainda que se trate de um "corredor piloto", a concretizar-se fará certamente a diferença no fluxo das trocas comerciais via transporte ferroviário. Com este corredor piloto, Sines assumiria um papel ainda mais estratégico no mapa ferroviário do transporte de mercadorias, considerando que quanto maior for o comprimento de um comboio de mercadorias mais competitivo esse tipo de transporte se torna.

O PFN lembra que está a ser construída a nova linha Évora-Elvas, que irá encurtar o trajeto dos portos de Sines, Setúbal e Lisboa para Badajoz (via fronteira do Caia), bem como a nova linha Sines-Grândola, que "elimina constrangimentos ao peso dos comboios e cria redundância. Estão em curso obras noutras infraestruturas que permitirão acomodar na ferrovia nacional composições com 750 metros, como forma de otimizar acessos a portos e corredores internacionais.

O PFN define também o objetivo de duplicar a capacidade do transporte de mercadorias por ferrovia através das fronteiras, tendo em conta que o mesmo vai beneficiar dos planos para a alta velocidade, que em alguns casos permitirá a circulação de mais composições de mercadorias.

Por exemplo, relativamente, ao aumento de capacidade e uniformização da rede principal , o plano estabelece "a libertação de capacidade com a segregação de tráfegos no corredor Norte-Sul com linha de alta velocidade Porto-Lisboa", além de tornar "apta"uma rede principal para comboios de 750 metros. A eletrificação da totalidade da rede para o transporte de mercadorias via comboio é outra ideia a concretizar.

O PFN prevê ainda dois novos corredores internacionais. Um no Algarve e outro em Trás-os-Montes. O objetivo nesta área passará por "manter no horizonte a possibilidade de ligação a Espanha e à Europa em bitola europeia, mas preservando sempre a continuidade das redes". Assim a velha questão da bitola é remetida para mais tarde. "A estudar num plano para a bitola", lê-se no documento .

O instrumento que faltava

Apesar das novidades que o PFN traz ao transporte de mercadorias, o grande objetivo incide sobre a mobilidade dos portugueses, pois prevê a linha de alta velocidade a servir as dez maiores cidades do país, competindo com o avião e o automóvel, bem como várias ligações a Espanha.

As cidades em causa são Lisboa, Leiria, Coimbra, Aveiro, Porto, Braga e Guimarães, mas também Viseu, Guarda e Faro. "No final de tudo isto, nós ficaríamos com o serviço de alta velocidade a servir dez maiores cidades do país", afirmou o coordenador do grupo de trabalho responsável pelo Plano Ferroviário Nacional (PFN), Frederico Francisco.

O PFN também propõe uma uma terceira ponte sobre o rio Tejo, entre Chelas, em Lisboa, e o Barreiro, no distrito de Setúbal. "Aquilo que o PFN nos permite, é, mais uma vez, colocarmos no centro do debate nacional a importância da ferrovia", afirmou o ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, na apresentação do documento estratégico.
"É o instrumento que faltava ao país", disse, lembrando que este era um "compromisso eleitoral e do programa de governo do PS".

Já o primeiro-ministro, António Costa, que também esteve presente na apresentação do PFN, apelou a que ocorra, agora, um debate nacional aberto e profundo sobre o que pretende ser o novo mapa orientador da ferrovia nacional para as próximas três décadas.

A proposta de PFN será agora colocada em discussão pública, regressando depois ao Conselho de Ministros, de onde sairá para discussão na Assembleia da República, possivelmente no próximo ano. Só depois será votada e transformada em lei.

José Varela Rodrigues é jornalista do Dinheiro Vivo

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