Galegos bloqueiam entrada de "leite negro" português

Leite português é inspecionado na fronteira galega. Associação Nacional dos Industriais de Laticínios fala em "perseguição"

Esta segunda-feira, um camião português de transporte de leite que se deslocava para a Galiza foi bloqueado por um grupo de agricultores em Monforte de Lemos, na região galega de Lugo. Grande parte da carga do camião foi esvaziada para a estrada, naquilo que se tratou de um protesto contra o chamado "leite negro" - leite importado de Portugal que alguns produtores e agricultores galegos dizem ser vendido por um preço inferior ao custo de produção.

De acordo com a agência noticiosa espanhola Efe, o bloqueio da entrada do camião na Galiza segue-se a denúncias feitas por sindicalistas espanhóis que afirmam que os camiões portugueses chegam frequentemente sem parte da documentação necessária para garantir a qualidade do leite que transportam, afirmando mesmo que se trata de uma tentativa de fazer a mercadoria passar por produto da Galiza.

O bloqueio do camião em Lugo esta segunda-feira está a ser averiguado pelo Ministério da Agricultura. De acordo com fonte do gabinete do ministro Luís Capoulas Santos, estão a ser averiguadas as circunstâncias em que a situação ocorreu. "Do resultado dessa diligência decorrerá, eventualmente, uma comunicação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros no sentido de contactar as autoridades espanholas, caso se constante que houve qualquer procedimento incorreto da parte delas", disse ao DN a mesma fonte.

Em questão está o chamado "leite negro" - termo usado para falar de leite que chega à Galiza com um preço inferior ao seu custo de produção (prática também chamada dumping). O jornal La Voz de Galicia indica que só em janeiro já foram inspecionados 145 camiões cisterna que entraram na Galiza vindos de Portugal, por iniciativa do governo regional. É mais um mês numa campanha que já começou em maio do ano passado, com 109 inspeções realizadas entre maio e dezembro, das quais resultaram 70 denúncias policiais por falta de documentação.

Ao jornal Público, o diretor-geral da Associação Nacional dos Industriais de Laticínios (Anil) fala em "perseguição" dos produtores portugueses na Galiza, visto que o governo regional, a Junta Autónoma Galega, tem "usado todos os meios ao seu dispor para condicionar grosseiramente a livre circulação de mercadorias". Paulo Leite acusou os galegos de "protecionismo" e argumentou mesmo que os camiões cisterna de leite espanhol que circulam em Portugal não são alvo de inspeções fronteiriças, conforme as leis de livre circulação de mercadorias da União Europeia, quando mais de metade das importações portuguesas de produtos lácteos têm origem em Espanha.

No Parlamento, o deputado do PCP João Ramos dirigiu mesmo uma pergunta formal ao Ministério da Agricultura. Citado pelo Público, João Ramos escreve que, enquanto Portugal não limita a entrada de leite estrangeiro no país, "outros países vão usando um conjunto de mecanismos e estratégias para protegerem as suas produções". O PCP defende que a entrada de leite estrangeiro em Portugal deveria ser controlada para salvaguardar os interesses dos produtores nacionais, mas esse tipo de limitação iria contra as leis europeias.

O La Voz de Galicia destaca que o controlo feito pela Junta Autónoma Galega se justifica pelo "contexto em que sobra leite", em que o governo regional entende que deve verificar que a matéria-prima vinda de fora chega conforme as leis. A Galiza importa metade do total do leite líquido que chega a Espanha, e grande parte dele chega em camiões cisterna vindos de Portugal, de acordo com dados do mesmo jornal galego.

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