Funerais sociais aumentam e cada vez são mais de idosos

Em 2016 fizeram-se 426 funerais sociais pagos pela Santa Casa, muitos de idosos que viviam sós. Na Medicina Legal de Lisboa há 36 corpos por reclamar, alguns não identificados

Há um "número muito elevado de idosos a morrerem sós e abandonados, sobretudo em Lisboa", confirmou ao DN o presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), Francisco Côrte Real, adiantando que uma parte considerável dos 36 corpos que se encontram por reclamar na Delegação Sul do INML serão de pessoas com mais de 65 anos, alguns deles não identificados e que vão a enterrar apenas com um número de processo atribuído. O Instituto guarda sempre uma amostra de material genético para o caso de um dia aparecer alguém da família.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa está a pagar cada vez mais funerais sociais aos que morrem sozinhos. Em 2016 foram 426, mais 12 do que no anterior. E na última década a instituição tem realizado uma média de 380 funerais sociais por ano. O custo da cerimónia é de 332 euros, segundo dados avançados ao DN pela Santa Casa.

"Nos corpos por reclamar também aparecem muitos indigentes, estrangeiros e toxicodependentes. É uma realidade triste e que mostra muito da sociedade de hoje, sobretudo em Lisboa", Francisco Côrte Real.

Para que não partam completamente sozinhos, um grupo de 14 voluntários da Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa acompanha os funerais destas pessoas. "Desde maio de 2004 até ao final do ano passado já acompanhámos 1466 funerais de pessoas cujo corpo ninguém reclamou. É uma média de 113 funerais por ano", referiu Mário Pinto Coelho, vice-provedor da Irmandade.

"Cada vez são mais os idosos que aparecem muito nesta situação", acrescentou. Há muitas histórias tristes mas uma que nunca se apagará da memória de Mário Pinto Coelho: "Há dois anos, fomos ao funeral de um idoso que tinha morrido sozinho num quarto alugado, em Lisboa. O senhorio depois contou-nos que conseguiu entrar em contacto com a filha do homem para lhe dar a triste notícia e perguntar o que fazer aos pertences do pai. "Não quero saber de nada disso", respondeu a mulher antes de desligar".

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa assegura o funeral de todos aqueles que morrem na capital e cujo corpo não é reclamado no prazo de 30 dias. Só ao fim de um mês é que o INML pode solicitar um funeral social à Santa Casa.

Dos 36 corpos que se encontram na Delegação Sul do INML, há 23 que ainda estão no decurso do prazo de 30 dias, tendo os mais antigos atingido esse prazo no decurso deste fim de semana pelo que se está a dar início ao processo junto da Conservatória, respondeu o Instituto.

Em 8 dos casos, tendo decorrido 30 dias, foi pedido à Conservatório o registo de óbito para que a Santa Casa da Misericórdia possa proceder ao funeral económico. "Em 5 dos casos, tendo decorrido 30 dias, as famílias solicitaram que mantivéssemos os corpos mais tempo na Delegação pois pretendem realizar o funeral". O Instituto Nacional de Medicina Legal sublinha que não há prazo máximo de permanência dos corpos no caso de solicitação das famílias ou de trasladação para outros países, apenas há o prazo mínimo de 30 dias para se proceder à inumação (colocação do cadáver em sepultura ou jazigo) por funeral económico.

Os corpos chegam a ficar nos frigoríficos de Medicina Legal mais de um ano ou dois. "No caso dos estrangeiros , depois do contacto com a embaixada, se as famílias manifestarem vontade de levar o corpo, nós vamos aguentando. O mesmo com os nacionais", explicou Francisco Côrte Real.

O Ministério da Justiça reconheceu na sexta-feira, à Lusa, que há uma insuficiência na capacidade de armazenamento em câmaras firgoríficas. Em princípio, na primeira semana de julho, a Delegação Sul do INML poderá contar com outra câmara frigorífica que ainda está em construção.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG