Força Aérea. Cortes de água, luz e comida escassa deixa militares indignados na base da Ota

A Força Aérea não explica o porquê dos cortes em serviços essenciais na base da Ota que têm acontecido nas últimas semanas e estão a deixar os novos recrutas com vontade de desistir. "Não é assim que se motiva os jovens a ingressar nas Forças Armadas", diz o PCP que já questionou o ministro da Defesa

As denúncias chegaram à bancada parlamentar do PCP e os factos descritos foram confirmadas ao DN pelas associações militares. No Centro de Formação Militar e Técnica da Força Aérea da Ota os alunos têm sofrido constantes e repetidos cortes de água por longas horas, alguns cortes de eletricidade e, como se não bastasse, a comida das refeições é escassa e de má qualidade.

Neste momento estão cerca de 300 formandos a receber instrução e está prevista a chegada de mais 400 aquelas instalações. Os alunos queixam que não há há condições sequer para os cuidados de higiene pessoal, como banhos ou fazer a barba.

Os comunistas já questionaram o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho sobre esta situação que consideram "grave" e que "já dura há tempo de mais", como assinalou ao DN o antigo deputado comunista para a área da defesa, Jorge Machado.

"Têm-se verificado nas instalações, desde há algum tempo, cortes recorrentes no fornecimento de água que impedem os os mais básicos atos de higiene pessoal dos alunos. Terá até chegado ao ponto de impossibilitar a prática desportiva nos períodos coincidentes com o corte de água", descreve o PCP na pergunta enviada a Cravinho. Segundo este partido também "já ocorreu corte de luz que impediu o decorrer de aulas".

Aos comunistas chegaram ainda "relatos de uma alimentação escassa em quantidade e qualidade, com doses reduzidas de comida, e apesar de os alunos se inscreverem previamente para as refeições, os últimos arriscam-se a não ter todos os componentes do prato, nomeadamente carne ou peixe, como já terá acontecido por diversas vezes".

Para o PCP "isto é tudo aquilo que não devia acontecer por múltiplas razões, incluindo a de afetar a motivação e a atratividade para fixar jovens nas fileiras" das Forças Armadas.

Jorge Machado sublinha que "num cenário de grandes dificuldades de recrutamento e retenção, quem chega aqui e apanha com este cenário surreal, não se sentirá certamente atraído pela carreira militar. Não é o melhor cartão de visita para quem queira ingressar nas Forças Armadas".

O DN questionou a Força Aérea Portuguesa (FAP) e insistiu várias vezes numa resposta, sem que ela tivesse sido dada. Foi também confrontado o gabinete do ministro da Defesa sobre a situação, inquirido sobre a motivação dos e que medidas pretendiam tomar, mas não houve igualmente reação.

Sinal de degradação "medieval"

O PCP desconhece também o que levou a que fossem tomadas aquelas medidas drásticas, mas de acordo com o que Machado conseguiu saber, "o estado de grande degradação das instalações provoca fugas de água sistemáticas e terá sido entendido que o melhor era cortar o fornecimento, que afeta até as casas de banho, com todas as consequências de insalubridade que isso implica".

A Associação de Sargentos e a Associação de Praças das Forças Armadas estão a par da situação. Lima Coelho, presidente da estrutura associativa que representa os sargentos diz que já fizeram "chegar uma participação ao Chefe de Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), na qual a situação foi exposta".

Este dirigente diz que "não se compreende o que está a acontecer" e que "carece de solução urgente". Lima Coelho tem tido conhecimento de outros problemas de degradação de instalações militares "mas com esta gravidade deste é a primeira vez".

"Cortar a água aos militares?! É um sinal extremo de degradação. É quase uma situação medieval". O impacto agrava-se ainda mais, explica, "porque não se tratam de pessoas que chegam ali de manhã e saem à tarde. Estes militares e civis que estão naquela unidade de instrução ficam durante períodos prolongados, dormem ali, estão em treinos e têm necessidades higiénicas reforçadas".

O presidente da Associação de Sargentos interroga-se sobre "o que estarão a fazer da Defesa?". "Não basta elogiar os militares nas cerimónias e depois sujeitar os jovens a estas condições, colidindo com os mais básicos direitos humanos de habitabilidade".

Paulo Amaral, presidente da Associação de Praças, diz que estes cortes de água e luz "é um caso completamente inaudito". "Como é que é possível uma coisa desta em pleno século XXI?! Sou quadro das Forças Armadas há mais de 20 anos e estas coisas envergonham-me". Segundo disse ao DN, a sua associação "está a preparar um documento para questionar o ministro da Defesa Nacional".

A prestação de "serviços públicos essenciais", como é o caso da água, luz, gás e telecomunicações, está protegida por lei. O seu corte (a lei tem apenas em conta a falta de pagamento) só pode ser efetuado com "pré-aviso adequado, salvo caso fortuito ou de força maior".

Só pode ser concretizado "após o utente ter sido advertido, por escrito, com a antecedência mínima de 20 dias relativamente à data em que ela venha a ter lugar".

Segundo a página oficial da FAP, o Centro de Formação da Ota é onde têm lugar "cursos de formação militar geral; formação técnica; promoção a sargento dos quadros permanentes; especialização, de qualificação ou de atualização; formação profissional de pessoal civil da Força Aérea; formação em áreas de reconhecido interesse para a Força Aérea.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG