"Foi horrível fecho da fronteira na covid: quando regressei a Évora comi numa tasca um bacalhau à braz e umas farófias que me reconfortaram com a vida"

Brunch com Antonio Sáez Delgado, responsável pela Cátedra de Estudos Ibéricos na Universidade de Évora.

Há 25 anos, quando recebeu o inesperado convite para ser Leitor de Espanhol na Universidade de Évora, Antonio Sáez Delgado estava longe de imaginar quanto a sua vida ficaria ligada a Portugal, e às relações entre os dois países vizinhos, ele que é hoje Responsável pela Cátedra de Estudos Ibéricos e também diretor do Departamento de Linguística e Literaturas. Mas, confessa enquanto come uma carne de porco à alentejana, Portugal entrou na sua vida muito cedo, ao ponto de quando era miúdo "ser sinónimo de férias: Nazaré, Figueira da Foz, alguns fins de semana em Lisboa. E o meu pai, que tinha uma pequena empresa de carpintaria metálica, fazia muitos trabalhos na zona da raia extremenho-alentejana, em Portalegre, Castelo de Vide, etc. Ir com a família a esses destinos foi a minha descoberta de um Portugal que era para mim um país chamado "O Estrangeiro". Aprendi o Portugal que podia aprender uma criança espanhola do interior: o fascínio pelo Atlântico, a curiosidade por umas pessoas que falavam sempre em voz baixa, e o deslumbramento da gastronomia portuguesa".

A conversa é em português, na esplanada de um snack - pastelaria eborense escolhido ao acaso depois de descobrirmos que o Café Alentejo, numa rua que sai da praça do Giraldo, afinal estava fechado neste dia combinado para o nosso Brunch que acabou por ser um almoço. Depois de termos despachado um belo pão alentejano barrado com manteiga, a carne de alguidar até está saborosa, mas as amêijoas, essas, e quem o afirma é um setubalense, não estavam à altura da tal gastronomia que Antonio tanto aprecia.

A descoberta da literatura portuguesa, e sobretudo de Pessoa, aconteceu durante a adolescência deste extremenho nascido em Cáceres em fevereiro de 1970, quando do lado de cá da fronteira Salazar já não governava (tinha sido substituído por Marcello Caetano depois da queda da cadeira e estava a meses da morte), mas o generalíssimo Franco, com 77 anos, era ainda quem mandava em Espanha. Porém, o jovem que na década de 1980 já era leitor compulsivo, vivia numa entretanto democratizada Espanha (quase em paralelo com Portugal), onde até um escritor com assumida militância comunista podia ter sucesso, mesmo que se imagine Franco a revirar-se no túmulo. "Cheguei a Fernando Pessoa através de José Saramago, com O ano da morte de Ricardo Reis, que comprei numa livraria de Cáceres, recém-publicado em Espanha, atraído pela fotografia de Pessoa na capa da edição da Seix Barral. Logo depois, comprei uma antologia de Pessoa na feira do livro da mesma cidade, feita e traduzida por José Luis García Martín. Fiquei fascinado pelos poemas de Álvaro de Campos, que foram uma espécie de pancada interior. Pouco tempo depois, já na universidade, comecei a procurar e ler obras de Pessoa", conta Antonio.

Um avô poeta que lia Dom Quixote aos netos

A paixão precoce pela poesia, diz Antonio, provavelmente vem de um avô, comerciante de profissão, mas que era também poeta: "Publicou vários livros que poderíamos incluir no âmbito da literatura regionalista extremenha das primeiras décadas do século XX. Nos domingos à tarde, ele reunia os netos e fazia leituras em voz alta de vários livros. Dois deles não faltavam nunca, cada semana: Dom Quixote e a Divina Comédia. Ele lia para nós passagens desses dois livros a cada domingo. Depois, aproveitava a presença de público e lia uns sonetos dele. Todos os netos aguardávamos o instante em que a minha tia Teresa chegava com o leite creme, mas a verdade é que essas leituras provavelmente acabaram por funcionar: quer eu, quer o meu único irmão, somos professores de literatura".

A acompanhar a carne à alentejana bebemos um EA, um tinto da Fundação Eugénio de Almeida, com sede aqui em Évora. Nos últimos anos, esta monumental cidade alentejana tem estado muito presente na minha vida, pois foi na sua universidade que estudei para o doutoramento, mas curiosamente não conheci Antonio numa sala de aula, nem nalguma conferência no Colégio do Espírito Santo, mas sim durante uma tertúlia organizada pela embaixada de Espanha para assinalar os cem anos da aquisição do Palácio Palhavã (hoje residência oficial em Lisboa), pelo Estado espanhol. E não resisto a relembrar o momento em que um dos participantes, Martins da Cruz, que foi em embaixador em Madrid e ministro dos Negócios Estrangeiros, resumiu magistralmente através de duas frases a pedir uma cerveja num bar, uma em espanhol e a outra em português, as diferenças entre os dois povos. Rimo-nos ambos e já voltaremos ao tema.

Conta Antonio que, tendo já estudado um pouco de português quando fazia Literatura Hispânica, a oportunidade de trabalhar em Évora surgiu em 1995, era ele na altura bolseiro na Universidade da Extremadura: "Decorria em Cáceres um congresso sobre relações entre Portugal e Espanha, e eu apresentei uma comunicação, a minha primeira comunicação num congresso. À saída, umas professoras que se identificaram como sendo de Évora, perguntaram-me se eu, eventualmente, estaria interessado em ir para lá como Leitor. E eu disse que sim, logo, sem pensar duas vezes. Nesse mesmo dia chegou ao congresso o Reitor da Universidade de Évora, Jorge Araújo, que formalizou o convite. Depois vim a saber que tinham pedido, como é natural, informações sobre mim a alguns professores da Extremadura".

Entretanto, passaram os tais 25 anos e Antonio tem dois filhos de um primeiro casamento, o mais velho chamado também Antonio e o mais novo Manuel, ambos jovens adultos. Casado com Susana, espanhola também professora em Évora, mantêm casa em Badajoz e foi lá que a chegada da pandemia os surpreendeu, com o fecho da fronteira a ter um impacto tremendo. "Foi horrível. Não o posso explicar de outra forma. Para aqueles que fazemos do trânsito através da fronteira a nossa forma de vida, foi uma espécie de amputação. Eu senti como se tivessem construído um muro no meio da minha rua, a separar as pessoas que costumam conviver cada dia. De um dia para o outro, todos ficámos a saber, a recordar, que ainda existe essa fronteira que tantas vezes se costuma dizer que já não existe. Ainda me lembro do primeiro dia em que regressei a Évora, após algumas semanas: comi numa tasca um bacalhau à braz e umas farófias que me reconfortaram com a vida", conta, reafirmando o apego à gastronomia portuguesa. Conta que adora cozinhar, e que usa e abusa dos coentros, erva aromática que por um daqueles mistérios insolúveis não tem expressão do outro lado da Raia.

Aproveito para encher o copo de novo a Antonio e pergunto-lhe, não me ficando pelo pormenor dos coentros, sobre a questão da proximidade versus diferença cultural entre Portugal e Espanha. Claro que é questão que lhe têm posto muitas vezes e sobre a qual já pensou muito: "Nesse binómio "proximidade/diferença" foca-se o fascínio das relações entre os dois países. Eu diria que a principal fonte de informação, neste sentido, é o facto de termos na Península Ibérica dois Estados, um dos quais - Portugal - tem uma identidade nacional sólida e estável, muito forte até, enquanto que o outro - Espanha - tem uma identidade plural, múltipla. Daí derivam, na minha perspetiva, uma grande parte dos tópicos de natureza cultural que aproximam ou diferenciam os dois países. A heterogeneidade cultural do outro lado da fronteira é extraordinária, e transforma a Península num espaço dinâmico com um imenso potencial".

Ao académico que defendeu como tese de doutoramento Órficos y ultraístas. Portugal y España en el diálogo de las primeras vanguardias literárias (1915-1925), um estudo sobre as relações estabelecidas entre as literaturas espanhola e portuguesa no âmbito do Modernismo, peço que sugira alguns autores contemporâneos espanhóis, ao que responde com compreensível cautela: "Este tipo de questões são sempre complicadas, porque a pessoa sempre receia esquecer um ou outro nome significativo. Recomendo apenas três que já têm alguns livros traduzidos em Portugal: Luis Landero, um excelente romancista, na melhor tradição cervantina; Andrés Trapiello, um poeta, romancista e ensaísta, ainda pouco conhecido por cá; e Manuel Rivas, representante de uma interessante linha narrativa de autoficção".

Comento que li recentemente com enorme gosto um livro de Landero, um extremenho, seguindo uma sugestão de Ignacio Vázquez Moliní, outro dos participantes na referida tertúlia no Palácio Palhavã, espanhol que vive em Portugal e é autor do muito interessante A Embaixada Vermelha em Lisboa, cuja ação decorre na década de 1930, quando em Portugal o Estado Novo se impôs, mas em Espanha a República ainda tentava resistir aos nacionalistas liderados por Franco.

Com toda a naturalidade, vem o nome de António Ferro à conversa, jornalista do Diário de Notícias com uma carreira impressionante a nível internacional e que inclui entrevistas com Hitler e Mussolini e que foi mais tarde chefe da propaganda de Salazar. Diz Antonio que Ferro teve grandes amigos em Espanha, "primeiro foi Ramón Gómez de la Serna, com quem conviveu em Portugal; foi a ele que "imitou". Depois, nos anos 40, estabeleceu uma "parceria" de interesses políticos e culturais com Ernesto Giménez Caballero".

O iberismo como respeito (e amor) pelo outro

Pedimos dois cafés e Antonio fala-me agora, tirando Pessoa, de figuras na literatura portuguesa que o cativam: "Sou um leitor plural, com as virtudes e as manias que temos todos aqueles que fazemos da leitura o nosso desporto preferido. Sem dúvida Saramago, Cardoso Pires, Lobo Antunes, Lídia Jorge. Na poesia Ana Luísa Amaral, Daniel Faria, Manuel António Pina, sempre Eugénio de Andrade, ... Muitos... Sou também um leitor fiel dos escritores portugueses da "minha geração", pela curiosidade que sinto por tentar obter uma visão sincrónica do mundo: Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto..."

As referências a Ferro e agora de novo a Saramago, que foi diretor-adjunto do Diário de Notícias, fazem-me lembrar uma entrevista feita ao já Nobel, em 2007, sobre o iberismo e que deu muita polémica pois o título foi "Portugal acabará por integrar-se na Espanha". Antonio recorda-se dessa entrevista, feita por João Céu e Silva, muito comentada na imprensa espanhola, mas também além das fronteiras ibéricas, pois até o jornal do PC Chinês citou o Diário de Notícias.

Para o professor espanhol, a palavra iberismo não tem de ser tabu. E se pode haver múltiplas interpretações do conceito, para ele, sustentando-se nas suas leituras mas também na experiência de vida, "o Iberismo é fundamentalmente respeito (e amor) pelo Outro. Reconhecer profundamente que, apesar de existir apenas uma geografia quando a gente atravessa a fronteira, existem sempre várias culturas, várias formas de vida. É renunciar à tentação de querer mudar alguma dessas partes, admirar a diferença. Também acredito que o iberismo, em qualquer uma das suas manifestações, enquanto conhecimento da diversidade, precisa de se tornar visível. Faço minhas, a este respeito, umas palavras de John Berger: "a esperança é um ato de fé, mas deve suster-se com ações concretas". Neste aspeto, sou um bocado quixotesco: é necessário agir. A criação da Cátedra de Estudos Ibéricos na Universidade de Évora tem, do ponto de vista da investigação, este propósito."

leonidio.ferreira@dn.pt

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