Foguetões, hotéis espaciais e cápsulas pressurizadas impulsionam mercado multimilionário

A exploração espacial privada ainda é um nicho mas deverá atingir os três mil milhões de dólares até ao final da década.

A Linha de Kármán é a fronteira internacionalmente reconhecida entre a terra e o espaço e fica a 100 quilómetros de altitude. Tecnicamente, quem embarca num foguetão como o New Shepard da Blue Origin, como aconteceu esta quinta-feira com o empresário português Mário Ferreira, entra como turista e sai como astronauta. E há uma lista crescente de pessoas a quererem fazer parte desse clube, o que torna o turismo espacial num mercado com perspetivas bastante interessantes.

As previsões da firma de serviços financeiros UBS apontam para que este segmento, o das viagens espaciais, atinja os três mil milhões de dólares (2,92 mil milhões de euros) em 2030. Com pelo menos três empresas a concorrerem no mercado -- Blue Origin, SpaceX e Virgin Galactic -- as opções deverão tornar-se mais competitivas nas próximas décadas, ainda que o preço de um lugar no foguetão continue a ser (literalmente) astronómico.

Há também planos para construir um hotel espacial de luxo, capaz de acolher 280 hóspedes e 112 tripulantes e com data prevista de abertura para 2027. A construção ainda não começou, mas os planos da startup californiana Orbital Assembly Corporation são bastante ambiciosos. A empresa pretende construir um resort espacial de luxo, que incluirá restaurante, bar, ginásio, cinema e sala de concertos. Imaginem viajar até ao espaço para fazer as mesmas coisas que se podem fazer na Terra: é um luxo, por enquanto, para poucos.

Mas o facto de este mercado ser um nicho não lhe retira importância. As três grandes companhias espaciais privadas que têm estado a tentar ultrapassar-se mutuamente na última década já garantiram um lugar na História, mesmo com as diferenças entre elas. A Virgin Galactic voa mais baixo que as concorrentes, cerca de 80 quilómetros acima do mar (a linha que a agência espacial NASA e o exército norte-americano consideram ser o limite aeronáutico da atmosfera terrestre). A Blue Origin vai até aos 100 quilómetros com voos suborbitais de 11 minutos e Bezos já vendeu mais de 100 milhões de dólares em bilhetes. E a SpaceX, que está "numa liga própria", como lhe chamou a CNBC, realizou em 2021 a viagem Inspiration4 -- que durou nada menos que três dias em órbita.

Os foguetões da SpaceX vão mais além que os das concorrentes, 200 a 580 quilómetros de altitude, bem para lá do que é considerada a fronteira do espaço. Também se calcula que os voos sejam consideravelmente mais caros, podendo chegar aos 200 milhões de dólares se olharmos para o que a NASA paga por astronauta, 55 milhões.

As três empresas trabalham com a agência espacial norte-americana e esse é um componente fundamental para o modelo de negócio, que não poderia aguentar-se apenas com turistas e convidados a ver a curvatura da Terra do lado de fora.

Em outubro passado, a SpaceX ganhou um contrato de 2,9 mil milhões de dólares com a NASA para construir um módulo de aterragem lunar. Em fevereiro, ganhou outro contrato de 3,5 mil milhões com a agência para três missões tripuladas com o foguetão Falcon 9 e a cápsula Dragon. E em junho, a agência comprou à empresa de Elon Musk mais cinco missões com astronautas de e para a Estação Espacial Internacional.

São valores substanciais, acima dos contratos que a Blue Origin e a Virgin Galactic têm conseguido. A empresa de Jeff Bezos conseguiu uma adjudicação de 130 milhões de dólares no final de 2021 para construir estações espaciais privadas. Já a Virgin Galactic assinou um contrato com a NASA em dezembro de 2020 para desenvolver um programa de preparação de astronautas para viagens suborbitais privadas.

E nem só de foguetões vive este mercado nascente. Há empresas como a World View a organizar viagens em cápsulas pressurizadas com capacidade para 10 passageiros, puxadas por balões de hélio e que flutuam a 30 quilómetros de altitude. A viagem não atinge a linha invisível que divide a terra e o espaço, mas dura seis a doze horas e custa "apenas" 50 mil dólares. Diz quem já foi que, apesar de não ser uma viagem para lá da Linha de Kármán, permite aos passageiros ver a curvatura do planeta e experimentar o overview effect, ou efeito de visão geral - uma transformação psicológica que muda a perceção sobre a vida e o planeta quando se vê a Terra do lado de fora.

dnot@dn.pt

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