"Fiquei especialista a tratar dores de cabeça de super-heróis e barbies"

Estudantes do Porto foram até Coruche para fazer rastreios e combater o desequilíbrio social nas zonas mais periféricas

Entre cafés e snacks, futuros médicos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) mediram a pressão arterial e a glicemia a dezenas de pessoas em consultórios improvisados na cafetaria Helena e no café Desigual, na freguesia da Branca, no concelho de Coruche. Um cenário pouco habitual para os habitantes daquela zona, que puderam contar também com aconselhamento para a adoção de estilos de vida saudáveis. "Fomos bater às portas das pessoas, mas estávamos a ter dificuldades porque era a hora da sesta. Nos cafés, a adesão aos rastreios foi muito boa. E como é um contexto que as pessoas conhecem bem, estavam muito recetivas", contou ao DN Paulo Ferreira, de 19 anos, aluno do 2.º ano da FMUP.

Situada a cerca de 30 quilómetros do centro de Coruche, a Branca é uma das freguesias mais isoladas do concelho. A população, diz Paulo Ferreira, é maioritariamente idosa. "Mas as pessoas estão alertadas. Os rastreios batiam certo com aquilo que diziam. Algumas tinham valores elevados, mas estavam medicadas." Debaixo de um calor tórrido e acompanhados por responsáveis da Cáritas, os futuros médicos percorreram as ruas para rastrear idosos e fazer aconselhamento. "E as pessoas falavam sobre as técnicas que já usam." Uma experiência nova para muitos dos estudantes, que nunca tinham tido contacto com este tipo de práticas.

Paulo integra o grupo de cerca de 50 voluntários da FMUP que está em Coruche, no distrito de Santarém, no âmbito da iniciativa Medicina Vai, um projeto que pelo sexto ano consecutivo visa fomentar a saúde nas zonas periféricas do país e combater o desequilíbrio social e a falta de oportunidades. Promovida pela associação de estudantes da facul- dade, a iniciativa - que termina hoje - destina-se a toda a população, mas dá uma atenção especial a idosos e habitantes das zonas mais isoladas.

Epidemia de bonecos

Durante a manhã de quarta-feira, os estudantes tiveram uma missão difícil: tratar uma epidemia de bonecos doentes no Hospital dos Pequeninos, instalado numa antiga escola primária em Coruche. "Fiquei especialista a tratar dores de cabeça de super-heróis e barbies", conta Paulo Ferreira. Equipado a preceito - bata, luvas, touca e estetoscópio -, o estudante perdeu a conta aos bonecos que tratou. O objetivo, explica, era desfazer alguns mitos e medos relacionados com o meio hospitalar. "As crianças adoraram. Senti que perdiam o medo do médico, porque eram elas próprias que nos ajudavam a tratar os bonecos."

Na primeira conversa com os estudantes, o presidente da Câmara Municipal de Coruche, Francisco Silvestre de Oliveira, destacava a importância da iniciativa para as crianças daquele concelho, onde só existem duas creches municipais. "Muitas não vão às creches, porque estão em casa com avós ou tios. São meninos com hábitos um pouco diferentes daqueles a que provavelmente os estudantes estão habituados", frisou.

Três anos à espera

Após três tentativas, Catarina Ferreira, de 22 anos, aluna do 5.º ano, conseguiu, finalmente, ser voluntária do projeto Medicina Vai. "Desde o 2.º ano que andava a tentar, mas são sempre muitos candidatos". Há vários anos que faz voluntariado, o que considera de extrema importância para "o contacto com realidades diferentes". "Toda a nossa formação é no Porto, que é uma zona urbana. Esta é uma forma de nos trazer para o meio rural, lidar com pessoas que têm modos de vida diferentes."

Durante anos, Catarina teve a certeza de que queria exercer no na cidade do Porto, mas as experiências fora da cidade estão a fazê-la mudar de ideias. "O meu futuro pode passar por uma área mais periférica. São locais que têm mais para oferecer e uma qualidade de vida diferente."

O lado humanitário da medicina

Divididos em quatro equipas, os estudantes passaram por todas as atividades, à exceção da visita ao lar de pessoas com deficiência, que recebeu apenas um grupo. "O objetivo é promover a saúde junto da população desta zona e dotá-la de um maior conhecimento na área da saúde", explica Mariana Oliveira, do departamento de voluntariado, saúde pública e ação comunitária da associação de estudantes. Por outro lado, prossegue, "é dar aos estudantes o contacto com a zona, com diferentes realidades, e proporcionar a sensação de estarem a aprender com as pessoas da comunidade". No fundo, sublinha, "é chamar a atenção para o lado humanitário da medicina, para a necessidade de sermos humanos com o próximo".

Antes de selecionar o local para a iniciativa, a organização envia e-mails para concelhos que considera "mais periféricos, necessitados e adequados". Coruche, por exemplo, tem uma população envelhecida e fica a mais de 50 quilómetros de qualquer um dos hospitais mais próximos (Santarém, Vila Franca e Setúbal).

Pedro Teixeira, 18 anos, aluno do 2.º ano de Medicina, decidiu inscrever-se para se "aproximar da dimensão humana". "Este tipo de atividades é importante para nos relacionarmos com novas pessoas e realidades diferentes. Não estudamos para exercer no Porto. Temos de saber adaptar-nos a qualquer região", sublinha. Uma opinião partilhada por Bruno Barbosa Ribeiro, aluno do 4.º ano, que teve em Coruche o primeiro contacto com a prática clínica: "Isto é a materialização pessoal de quatro anos de trabalho muito teórico, que é um mal necessário. Já sentia muita necessidade de passar à prática."

Um dia de formação

Além dos rastreios e do Hospital dos Pequeninos, os estudantes de Medicina realizaram outras atividades como visitas a lares e centros de dia, formações em suporte básico de vida, sensibilizações noturnas em saúde reprodutiva e doenças sexualmente transmissíveis e promoção do envelhecimento ativo. Como para muitos era o primeiro contacto com estas atividades, o dia de terça-feira foi dedicado à formação. Antes de rastrear a população coruchense, Francisco Pego, 19 anos, mediu os níveis de glicemia do colega Bruno. "Depois de um ano a estudar proteínas, isto é bastante interessante. Há sempre o receio de chegarmos à parte clínica e não nos sentirmos à vontade, pelo que isto é importante."

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