Famílias que adormecem embaladas pela luz de um farol

Ainda há 25 faroleiros que residem com as suas famílias em faróis nacionais. No cabo da Roca há dois destes casos

Nem parece verão, mas no Cabo da Roca é assim. O dia começou cheio de sol e já se pôs uma neblina fria, que não tardará a ser nevoeiro. "Chegamos a ter aqui as quatro estações do ano num só dia", diz o chefe dos faroleiros no Cabo da Roca, Carlos Pacheco, ou só Pacheco, como mostra a identificação na farda. Julho é o último mês do chefe Pacheco neste farol, e ele já está a fazer as malas para se ir embora. Vai para Vila Real de Santo António, o seu próximo posto. "Vida de faroleiro é assim. Como o caracol, com a casa às costas".

Tem sido essa a sua vida. Aos 58 anos, quase 33 de serviço nos faróis, já empacotou e desempacotou roupas, louças e mobílias muitas vezes. Esta é mais uma. A casa do faroleiro onde viveu com a mulher, Constança, nos últimos quatro anos, ficará impecável, para quem vier depois. O seu substituto pode não querer instalar-se ali com a família, ao contrário do que Pacheco tem feito toda a sua vida profissional, mas os faroleiros têm direito a residência nos faróis onde estão colocados. De tantos em tantos dias, fazem turnos de 24 horas, têm forçosamente de lá estar. Cada um, no entanto, decide o que mais lhe convém: viver, ou não, com a família no farol.

Fernando Migueis, um dos três faroleiros da atual guarnição do Cabo da Roca não tem ali a família. "Estou colocado na minha área de residência, temos a vida organizada na nossa casa, não fazia sentido virmos todos para aqui", explica. Mas se calha ter um dos serviços de 24 horas num fim de semana, a mulher e os filhos até podem lá passar - e muitas vezes passam - uma noite ou duas, e fazem-lhe companhia. A casa tem espaço e está mobilada. "A mobília é minha, tenho-a juntado ao longo dos anos, vai sempre comigo, de farol em farol".

Na sala tem uma mesa, cadeiras e sofás, a cozinha está apetrechada para o dia-a-dia, o quarto também. Ou melhor, os vários quartos. "Aqui ficam os miúdos, quando vêm", diz Fernando, abrindo uma porta - há brinquedos lá dentro. Sobre os móveis, e no chão, estão espalhados pequenos faróis em cerâmica, de vários tamanhos e cores. E, na parede, uma roda de leme em madeira, quadros com cordames e outros motivos marinhos. "São recordações, prendas de despedida dos camaradas, algumas feitas por eles". Na parede, um quadro com uma fotografia sua, mais jovem (tem agora 41 anos), fardado a preceito, espreitando o mar do cimo de um penhasco. "Foi aqui, no Cabo da Roca, na minha primeira comissão", conta com um sorriso.

A vista é soberba. A janela da cozinha dá para a arriba e, lá em baixo, o mar imenso. Da sala vê-se a serra, com a capela da Peninha no topo, já quase engolida pelo nevoeiro. Podia-se ficar aqui horas, só a olhar. "É um sítio único", concorda Fernando Migueis. "Tem mar e serra, isto faz-me acordar bem disposto". Aquelas são, no entanto, "instalações muito acima da média", explica. "Houve obras aqui recentemente, isto foi tudo recuperado, noutros faróis as casas são piores".

"A luz é uma companhia"
São pontos de luz na escuridão da noite ao longo da costa continental (30), na Madeira (7) e nos Açores (16), e cada um tem a sua assinatura única, na combinação das durações e ritmo das sequências de luz. "No continente, há um farol a cada 20 milhas de costa, cada um com uma luz particular, não há nenhuma igual a outra", explica Pacheco. Para um navegador que tenha ficado sem outras referências, avistar na noite uma destas luzes é quase como renascer, é deixar de estar perdido. Em noites límpidas, a luz deste farol no Cabo da Roca alcança 26 milhas, 48 quilómetros.
Mesmo com toda a modernização que tornou automáticos os faróis em Portugal - acendem-se sozinhos quando a luz diminui abaixo de um determinado limiar, apagam-se automaticamente, no processo contrário -, "a maioria dos faróis de costa tem uma guarnição", explica Pacheco. Quase metade dos que compõem essas guarnições vivem lá com as mulheres e os filhos. Segundo a Autoridade Marítima Nacional, há a nível nacional "25 faroleiros a residir com as suas famílias nos faróis, o que corresponde a cerca de 40% do número total de faroleiros".

Nuno Miguel Nobre, colocado há cerca de dois anos no Cabo da Roca, é um deles. Vive ali com a mulher, Ana Mafalda, enfermeira em Alcoitão, e os filhos: o Tomás, de 10 anos, que anda na escola da Azoia, a localidade mais próxima, e a Renata, de três, que está na creche, em Janes. Depois de um período em que ainda mantiveram a anterior casa, no Linhó, a opção foi esta. "A certa altura, também já fazem parte da guarnição", sorri Nuno Nobre.

E a Ana Mafalda sente-se parte da guarnição? A resposta é imediata. "Sim. Quando o farol se acende ou se apaga, há um aviso sonoro na nossa casa, acabamos por nos sentir também um bocadinho responsáveis". Ana Mafalda nunca tinha tinha vivido num farol. "É diferente", diz. No Cabo da Roca há muitos dias de nevoeiro, um vento constante, e sair dali só de carro: para levar o Tomás à escola ou aos escoteiros, e a Renata à creche, para os ir buscar depois, para ir às compras. "Quando vamos ao hipermercado, tentamos trazer sempre mais coisas, porque aqui perto, na Azoia, só existem cafés, não há onde fazer compras", explica. Mas há um enorme ganho: agora a família passa mais tempo junta.
Quando Nuno Nobre esteve colocado em Peniche, no farol do Cabo Carvoeiro, que engloba o das Berlengas, entre 2010 e 2014, a vida deles era um vaivém, entre cá e lá. Agora não. E depois, à noite, "a luz do farol sabe bem", confessa Ana Mafalda. "Está lá, quando chego a casa, ou quando vou estender roupa, é uma companhia". Para Nuno Nobre, os quatro anos de Cabo Carvoeiro foram marcantes, sobretudo por causa dos períodos nas Berlengas. "É uma escola de vida", resume.
Se há farol que preenche a ideia de isolamento que o imaginário associa aos faroleiros, esse é o das Berlengas. Ali vivem apenas os dois faroleiros de turno, rendidos a cada semana por outros dois da guarnição. "Às vezes é preciso contar com mais três ou quatro dias, porque o mar está mau e o barco não pode ir", lembra Nuno Nobre. "A partilha ganha outro peso e damos valor a coisas em que nunca tínhamos pensado antes. Passar lá o Natal, o fim de ano ou a Páscoa sem família é duro".

Como em qualquer outra atividade, no farol também há rotinas. No do Cabo da Roca, tudo passa pela sala central e da oficina, onde estão as consolas e o computador. Sobre a secretária, o livro Mapa Diário dos Faróis contém o resumo de todos os acontecimentos. Pode ser uma quebra na energia, como a da noite anterior, que foi curta, mas fez disparar o gerador. Ou a de alguma tragédia fora dos muros do farol, como a queda de alguém das arribas. Muitas vezes é o faroleiro de serviço que alerta as autoridades. Tudo isso é assente no livro. "A vossa vinda cá hoje também vai para o livro", ri-se o chefe Pacheco. "Ser faroleiro é ser tudo". E vai enumerando: serralheiro, eletricista, carpinteiro, pintor. "Todos esses trabalhos, somos nós que fazemos". Às quartas-feiras à tarde também são guias. Abrem o farol ao público e acompanham os visitantes. E, claro, à hora certa, todos os dias, pontualmente, o faroleiro de serviço sobe à torre e retira as cortinas da grande janela circular, para que a potente luz, mil vezes ampliada pelas lentes e prismas, possa brilhar na noite.

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