A festa para celebrar o aniversário do filho de Maria Ferreira foi por água abaixo, e quem dera houvesse mesmo água. Na parede da sala do apartamento que alugaram para passar férias na Costa da Caparica estão os balões, em formato de letras, a dizer 'parabéns', vê-se pela janela, enquanto esta emigrante, recém chegada do Canadá, onde vive há 52 anos anos, espreita a rua a pensar se a situação vai continuar assim. "Hoje o meu filho faz 56 anos. Nós éramos para convidar a família para vir aqui, mas já temos medo, resolvemos almoçar fora. Estamos muito aborrecidos com esta falta de água", diz ao DN.As férias da família começaram em simultâneo com a declaração do estado de alerta no país pela onda de calor e com uma crise de abastecimento de água no concelho de Almada, que tem sido sentida de forma intensa na zona costeira. "Chegámos na sexta-feira, todos a precisar de tomar banho e sem possibilidade. Havia um bocadinho de água, depois estávamos três, quatro horas sem. Depois vinha outra vez, faltava outra vez", conta Maria Ferreira, que ainda arriscou e reuniu alguns familiares, no sábado, para matar as saudades. "Tivemos aqui a casa cheia. Era pratos, era copos, era tudo e nem uma pinga na torneira"..No mesmo dia em que a família Ferreira chegou à Costa da Caparica, os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS) enviaram um e-mail aos residentes, ao qual o DN teve acesso, a informar sobre os constrangimentos no abastecimento. "Vivemos, atualmente, um período de grande exigência: as temperaturas elevadas e o aumento significativo da população sazonal no nosso Concelho fizeram disparar o consumo de água", justifica a mensagem, na qual os SMAS também informam que estão a "implementar uma gestão solidária e rotativa da rede" para "garantir que este bem essencial chegue a todos".Para além da rotatividade programada, no domingo, 5 de julho, uma rotura de grandes dimensões numa conduta adutora trouxe mais transtornos, interrompendo o abastecimento não apenas na Costa da Caparica, mas também no Monte de Caparica, Lazarim, Palhais, Alto do Índio e Vale Flores.Uma situação que, além do aborrecimento, já traz impactos financeiros reais. Andreia Nunes trabalha com limpeza de apartamentos arrendados por temporada na Costa da Caparica, recebe o pagamento por hora, e conta que um dos clientes teve que ressarcir os últimos hóspedes. "O proprietário teve que fechar a agenda dessa semana porque o pessoal ficou lá dois dias e foram 24 horas sem água, ele teve que devolver o dinheiro. E a gente está sem trabalhar, não tem água já faz cinco dias", diz ao DN..Na lota da Docapesca, o cenário é de muita preocupação. Sem água, ou mesmo quando há com pouca pressão, a máquina que produz gelo para o armazenamento dos peixes não funciona. A solução tem sido comprar pronto, mas poderá não ser suficiente. "Estamos a comprar gelo diretamente a Sesimbra, mas estamos também limitados no gelo que eles nos podem fornecer. Com isto mais uns dias a continuar assim, vamos ter que parar. O peixe é um produto perecível e tem que levar muito gelo, nós estamos aqui hoje com trinta e poucos graus ao meio-dia e o peixe só é vendido às seis da tarde, então este período todo tem que o peixe ser muito bem gelado", explica ao DN o pescador Lídio Galinho.Nesta lota passam em média mil caixas de peixe por dia, que resultam em cerca de 10 toneladas de produto. "Muitas famílias dependem disto, direta e indiretamente, é muita gente", destaca Lídio Galinho. "Às vezes quando vem a água à uma da manhã, vimos aqui e tentamos acondicionar o máximo de gelo possível, mas o gelo derrete, o que é que acontece? Quando chega a hora da venda, metade do gelo que acondicionámos fica outra vez em água", lamenta o pescador.Trabalhar de madrugada para tentar aproveitar a água que chega é também a estratégia de Paulo Santos, dono de um restaurante, que já esperou até por volta das 02:00h da madrugada. "Fico aqui para aproveitar, à espera depois do fecho para lavar os pratos, limpar tudo", conta ao DN. "Depois de um inverno difícil, quando podemos trabalhar acontece isto? É triste e vergonhoso. Estamos a 20 minutos de Lisboa, a capital, como é que pode?", questiona-se.Para o empresário, a falta de avisos atempados sobre a situação é prejudicial. "Não há informação específica a dizer 'olha, vai faltar amanhã outra vez'. Nem nos dão a possibilidade de encher uns baldes", reclama.A reportagem do DN confirmou a imprevisibilidade do abastecimento. Na Junta de Freguesia da Costa da Caparica, a água, que estava a faltar por volta do meio-dia desta terça-feira, 7 de julho, voltou às 12:24h, soubemos através de uma mensagem enviada pela presidente, Vanessa Krause. Pouco mais de uma hora depois, às 13:50h, a presidente informa noutra mensagem que "entretanto já não há outra vez"..Antes, em entrevista ao DN, Vanessa Krause dava a conhecer as medidas adotadas pela junta para responder à situação, entre elas recorrer aos bombeiros para tentar minimizar os impactos da falta de água junto à população. “Decidimos tomar esta decisão, hoje ponderada, porque a verdade é que quem deveria tomar esta iniciativa é a Proteção Civil e a Câmara Municipal, mas como não estão a tomar nós decidimos agir”, disse a presidente. O quartel local dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas disponibilizou um veículo-tanque tático florestal com cerca de nove mil litros de água armazenada para uso da população local. Para garantir água potável, a junta de freguesia também avançou com a compra de um bidon em inox de 1000 litros que vai circular pela zona a fazer a distribuição.A autarca queixou-se da falta de informação concreta sobre o problema. "Já liguei para os SMAS para saber o que se passa e ainda não recebi nenhuma justificação. Estou a aguardar um telefonema para saber o que se passa, se há uma rotura, se simplesmente não existe água novamente disponível para chegar à Costa da Caparica, porque aquilo que os SMAS nos dizem é que, como a Costa é o fim da rede, muitas vezes, por não existir água suficiente para todo o concelho, quando chega a uma zona da rede, não chega depois também à costa da Caparica", explicou Vanessa Krause.Em nota divulgada esta terça, os SMAS informam que “poderão verificar-se, de forma pontual e temporária, oscilações de pressão ou interrupções no abastecimento de água, na Costa da Caparica” e prometem “garantir a reposição das condições normais de abastecimento com a maior brevidade possível”.Na segunda-feira, 6 de julho, o vice-presidente da Câmara Municipal de Almada anunciou a criação de um gabinete de crise e a ativação de um plano de contingência nos SMAS para lidar com a situação. Já o PSD anunciou uma moção de censura à liderança socialista da Câmara Municipal, responsabilizando a sua gestão pela falta de planeamento e falhas no abastecimento de água no concelho..Bombeiros da Costa da Caparica disponibilizam água à população devido às falhas no abastecimento.Rutura na rede de água de Almada deixa Costa da Caparica e outras Freguesias sem abastecimento