Faculdade de Ciências. João planeou o massacre para durar cinco minutos

Jovem suspeito foi indiciado por crime de terrorismo, posse de armas proibidas e por ter um plano para executar um assassinato em massa contra colegas da Faculdade. Está diagnosticado com síndrome de Asperger desde criança.

"Psychotic Nerd" era o nickname que João C., 18 anos, estudante de engenharia informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, usava na darkweb. O seu plano para executar um assassinato em massa contra colegas universitários estimava que o ataque durasse apenas cinco minutos. Foi travado in extremis pela Polícia Judiciária (PJ) na véspera do ataque e está em prisão preventiva.

João participava e intervinha regularmente em grupos daquele lado oculto da internet que assumiam fascínio por tiroteios em massa contra alvos indiscriminados ("massive shooting") e tiroteios em escolas ("school shooting").

Foi aí que terá revelado a um dos membros que pretendia fazer um atentado numa universidade de Lisboa, adiantando que já tinha armas para o fazer. Confessou ainda que era estudante dessa universidade e terá, segundo informações que a PJ ainda não confirmou, justificado a sua intenção por se sentir injustamente acusado de plágio.

Foi um dos elementos desse grupo que terá alertado, a quatro de fevereiro, o FBI (Federal Bureau of Intelligence), que no mesmo dia contactou prontamente a PJ, através de canais diretos de cooperação que ambas as polícias têm consolidados há vários anos e que funcionam em permanência.

A informação era telegráfica e consistia, além do conteúdo da conversa, num endereço IP (Internet Protocol), uma espécie de bilhete de identidade do computador, e no nickname de João, "Psychotic Nerd".

"Nessa noite ninguém dormiu na brigada forense até conseguirem detetar onde tinha sido utilizado aquele IP (é possível fazê-lo através de um rastreio aos routers onde estão ligados), identificar o utilizador e ter a morada certa", contou ao DN um fonte da PJ que deu apoio.

Trata-se de uma equipa de elite da Unidade Nacional de Combate ao Ciber-Crime (UNC3T) da Judiciária, constituída pelos melhores cyber-polícias da unidade. Em menos de 24 horas tinha rastreado o sinal do IP de João e conseguido uma morada física.

Operação discreta e cirúrgica

A partir daí, entraram em campo os operacionais da Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo (UNCT), que coordenou esta investigação, com vigilâncias junto à sua residência durante as 24 horas do dia.

Sem saber o que iam encontrar, o momento da detenção chegou na quinta-feira de manhã e mal sabiam os inspetores que tinha sido na hora "H", uma vez que o atentado estava agendado para o dia seguinte, sexta-feira., de acordo com o que constataram depois durante as buscas.

Segundo apurou o DN, a ação dos inspetores da UNCT, uma pequena brigada de três elementos, foi muito discreta e cirúrgica. Encontraram João C. sentado a utilizar o computador. O suspeito não disfarçou a surpresa e não ofereceu qualquer resistência quando foi levado.

Foram apreendidas no seu quarto várias armas brancas proibidas, entre as quais uma faca de grandes dimensões, tipo catana, e uma besta com flechas de aço prontas a serem disparadas. Da parede os inspetores retiraram uma folha com toda a rotina do que pretendia fazer a partir da véspera do ataque e no próprio dia.

O plano era dirigido especificamente contra alunos que frequentavam o Bloco 3 da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no curso de engenharia informática. Terá pensado assassinar alguns com as armas brancas, enquanto outros seriam atacados com fogo.

Definiu 11 de fevereiro como o dia do atentado. Nessa sexta-feira (ontem) pretendia acordar às 08h00, passar umas horas no computador, almoçar cedo e apanhar o autocarro perto do meio-dia para a faculdade.

Ali chegado, escreveu no seu plano, pretendia refugiar-se na casa de banho do Bloco 3, preparar-se e de seguida, pouco depois das 13h00, começar o ataque, o qual teria a duração de apenas 5 minutos.

Caso "vai fazer história"

O síndrome de Asperger pode explicar o detalhe com que registou a sua rotina, com horas marcadas para sair de casa, para comer, descansar, estar no computador. Segundo apurou o DN junto a fontes próximas da família, João C. está diagnosticado com síndrome de Asperger - um tipo de autismo, cujos portadores podem ser extremamente inteligentes, mas têm interesses limitados, dificuldades na interação social e comportamentos repetitivos ou rotineiros - desde criança, tendo inclusivamente já sido submetido a vários tratamentos. Fonte que acompanhou a investigação disse ao DN que a própria PJ confirmou esse facto.

As motivações que levaram este jovem natural do concelho de Batalha, que estava sozinho em Lisboa a frequentar o primeiro ano da licenciatura, a envolver-se a este nível em grupos de apologia da violência e a preparar um plano para atacar estudantes da sua faculdade, ainda estão por determinar.

Cátia Moreira de Carvalho, investigadora da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, especializada em terrorismo e radicalização, lembra que "a relação entre problemas de saúde mental e terrorismo é residual, no entanto, os perfis com problemas mentais surgem 14 vezes mais em atos isolados do que em grupo".

Esta doutoranda, que contesta a utilização do termo "terrorismo" neste caso "uma vez que não há motivações ideológicas", salienta que, caso se confirme que estava em causa uma acusação que João considerava injusta, "para estas pessoas, com síndrome de Asperger, isso é sentido como uma humilhação profunda e pode servir de gatilho para este tipo de comportamento".

João C. foi ontem presente ao juiz de instrução criminal e não quis prestar declarações. Ficou em prisão preventiva indiciado pelos crimes de terrorismo e detenção de arma proibida. O seu advogado, Jorge Pracana, contestou e vai recorrer: "Terrorismo? Acho que este processo vai fazer história no país. É o primeiro e espero que seja o último com este tipo de acusação. Estamos todos a inovar e a analisar isto. Será terrorismo mesmo? Não sei".

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