Encontradas canções do Holocausto que se julgavam perdidas

Gravação em bobina de arame, feita num campo de refugiados judeus em França, em 1946, estava mal arquivada

Andaram perdidas durante 70 anos, mas a sua descoberta, por mera casualidade, numa velha bobina mal catalogada, e um rasgo de inventividade tecnológica de uma equipa da Universidade de Akron, nos Estados Unidos, resgataram do passado um conjunto de canções do Holocausto: as Canções de Hénonville.

Esta é a singular história das melodias que os prisioneiros judeus cantavam em iídiche e em alemão nos campos de concentração nazis, e que um psicólogo americano de origem russa, também ele judeu, chamado David Boder, captou em 1946, em velhas bobinas de arame.

Com o fim da II Guerra Mundial, e conhecidas as atrocidades do Holocausto, David Boder decidiu documentar o sofrimento das vítimas, dando voz aos sobreviventes, para tentar perceber também o impacto psicológico daquelas atrocidades sofridas.

Durante o verão de 1946, munido de um gravador de bobinas de arame, que à época era o último grito da tecnologia no seu género, Boder visitou vários campos de refugiados em França, Itália, Suíça e Alemanha, onde entrevistou 130 sobreviventes judeus. Gravou um total de 200 daquelas bobinas de arame, nas quais os entrevistados contavam as suas histórias pessoais e as suas experiências nos campos de concentração. Entre essas duas centenas de bobinas, uma continha as canções dos prisioneiros, que Boder gravou nesse verão no campo de Hénonville, em França.

Mais tarde, o psicólogo referiu em livro a bobina com as canções, mas pensava-se que ela estava perdida. No seu espólio, que foi arquivado em 1967 no Centro de História da Psicologia da Universidade de Akron (David Boder morreu em 1961), não constava nenhuma referência às canções de Hénonville.

Foi a recente decisão de digitalizar aquele arquivo sonoro que trouxe de novo à luz do dia as aquelas canções do Holocausto cantadas pelos sobreviventes nesse verão de 1946. A bobina estava arquivada, afinal, com uma etiqueta errada.

"Esta é descoberta mais importante feita nestas coleções, nestes 50 anos de história do nosso arquivo", afirma David Baker, que dirige o centro de História da Psicologia naquela universidade. "Os nazis obrigavam os prisioneiros a cantar algumas destas canções durante as caminhadas para os locais onde faziam trabalhos forçados. É notável que possamos dar de novo ao mundo este testemunho", sublinha. Fazê-lo implicou, de resto, um grande engenho tecnológico por parte dos técnicos e engenheiros que fizeram a sua digitalização, porque já não havia nenhum gravador capaz de ler a bobina. Foi preciso adquirir um gravador parecido, mas bastante mais moderno, e transformá-lo radicalmente para se poder aceder à gravação e depois passá-la para o formato digital com um software. Ora ouçam lá.

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