Em Portugal, já havia padres com licença para perdoar o pecado do aborto

O Papa decidiu estender a todos os sacerdotes o poder de absolverem uma mulher que tenha praticado aborto

Joaquim Carreira das Neves, sacerdote português, acredita que para uma mulher crente "o aborto é um pecado de circunstância", que acontece por "desespero". "As pessoas sofrem horrores com medo de confessar que fizeram um aborto", diz ao DN. Enquanto franciscano, o teólogo tem uma licença especial que lhe permite absolver o aborto a uma mulher que procure o perdão. "Em alguns casos, só conseguem fazê-lo ao fim de 30 ou 40 anos." Ontem, na carta apostólica Misericordia et Misera, o Papa Francisco autorizou todos os padres a absolver as mulheres que tenham abortado e que procurem o perdão, mantendo a autorização que tinha dado para o Ano Jubilar da Misericórdia, que terminou no domingo. Os sacerdotes portugueses ouvidos pelo DN mostraram-se satisfeitos com a decisão do Papa.

Todos os sacerdotes passam agora a poder absolver as pessoas que praticaram o aborto e que se arrependeram, sem necessidade de passar pelo bispo ou pelo Papa. Em Portugal, há sacerdotes com licenças especiais que lhes permitem perdoar o pecado do aborto. "As reservas que existiam eram fruto de tradições. Nós, franciscanos, já tínhamos uma licença especial para absolver. E havia outras pessoas para quem estava desbloqueado", adianta o padre e teólogo Carreira das Neves.

Nesta carta apostólica, prossegue o sacerdote, Francisco "acaba com as barreiras que existiam". Há muitos anos que o padre Feytor Pinto também tem "licença especial" para absolver penitentes nestes casos. "O Papa acha importante que todos os sacerdotes possam absolver. É uma expressão muito bonita e uma extensão do Ano Jubilar da Misericórdia", explica ao DN.

A Igreja recebe quem errou

Dois dias antes da publicação da carta apostólica, o Papa Francisco condenou o aborto como "um crime horrendo", como resposta aos cardeais conservadores que o acusaram de lançar a confusão em relação a importantes questões morais sobre a família. "O aborto é uma pena de morte para não nascidos. É uma espécie de condenação de inocentes à morte. E nós somos contra a pena de morte. É por isso que o Papa diz que é um crime horrendo." Enquanto eticista, o padre Feytor Pinto admite que o "choca que os direitos humanos sejam contrariados". A própria Constituição portuguesa, prossegue, diz que "a vida humana é inviolável". No entanto, sublinha, "quando a pessoa reconhece que errou, a Igreja está de coração aberto para a receber". Até porque, argumenta, "muitas vezes a mulher é vítima, não teve apoio de ninguém. É indiscutível o seu perdão".

De acordo com a doutrina católica, a prática do aborto é um pecado de tal forma grave que implica a excomunhão, pelo que só pode ser perdoado pelo Papa, pelo bispo ou pelos sacerdotes a quem for dada essa autorização. O padre Anselmo Borges também já dava a absolvição a mulheres que tivessem abortado e se mostrassem arrependidas. "Sempre o fiz, porque o evangelho está acima do direito canónico", justifica, acrescentando que já era expectável esta atitude por parte de Francisco. "O evangelho é misericórdia. A Igreja tem de o seguir."

Na carta apostólica, o Papa alarga esta prática a todos os padres. "Concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto", escreve o Papa. Por decisão do pontífice, no Jubileu, de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016, todos os padres estavam autorizados a fazê-lo. "Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário."

"Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente; mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai", lê-se no documento. Francisco quer que cada sacerdote se faça "guia, apoio e conforto no acompanhamento dos penitentes neste caminho de especial reconciliação".

Para Anselmo Borges, o mais surpreendente foi o Papa ter estendido esta faculdade aos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X, fundada por D. Marcel Lefèbvre, pois existe um certo distanciamento entre estes e Roma. Outra decisão a destacar é, para o padre e professor universitário, a instituição do Dia Mundial dos Pobres no 33.º domingo do tempo comum. "Não podemos esquecer-nos dos pobres: trata-se dum convite hoje mais atual do que nunca, que se impõe pela sua evidência evangélica", sustenta, citado pela agência Ecclesia.

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