Ao todo, e nas 45 entidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS) a classe médica já realizou 2.417.499 horas extra e 2.072.621 de horas em prestação de serviço (à tarefa), o que representa, em termos de despesa, um gasto de 100.007.485 euros, no primeiro caso, e de 92.530.816, no segundo. Mesmo assim, menos 4% do registado no mesmo período em 2024 e 2025 em horas extras e menos 12% em relação às horas em prestação de serviço, segundo dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) disponibilizados ao DN.Aliás, e de acordo com estes, esta diminuição de 4% e de 12% verifica-se não só no valor de horas extraordinárias realizadas pelos médicos como também por outros trabalhadores do SNS (ver quadro em baixo). Uma redução que, sublinha a ACSS na sua análise, teve “efeitos nos valores da despesa: menos 7% nos custos das horas extra e 7,6% na despesa com a prestação de serviço”. No entanto, salvaguarda, “são dados provisórios”. . O DN pediu ao presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) que explicasse se este volume de horas, mesmo sendo menos do que nos dois anos anteriores, é o aceitável ou se este ainda poderia ser mais reduzido e, por agora, Xavier Barreto, não tem dúvidas: “Nas atuais circunstâncias são as horas inevitáveis, necessárias para fazer face à carência de pessoal médico no SNS. Se tivéssemos a oportunidade de contratar médicos em número suficiente – ou seja, alguns milhares de médicos de várias especialidades – provavelmente conseguiríamos reduzir este número”. Mas, a verdade, é que “não existindo sequer estes milhares de médicos para contratar e não conseguindo reter médicos no SNS vamos ter de continuar a fazer milhões de horas extra ou em prestação de serviço”. O administrador destaca ainda que, “as horas extra são as que mais custam ao SNS, porque o salário dos médicos também é mais elevado, mas, no fundo, são as horas que fazem com que os profissionais se sintam mais cansados e exaustos e que promovem, muitas vezes, uma relação de trabalho ‘pobre’ entre profissional e entidade. No caso dos prestadores de serviço, acontece mesmo porque há profissionais que “só fazem algumas horas e que não estão propriamente integrados nas equipas”. Contudo, desenganem-se os que acham que o volume de horas e de despesa vai continuar a descer até ao final do ano. O presidente da APAH deixa mesmo um alerta: “O volume de horas e de despesa pode ter diminuído nos primeiros meses do ano, mas, em termos de despesa, o valor até ao final do ano vai agravar. No final de junho foi aprovada a Portaria que prevê o pagamento do valor/hora aos médicos por pacote, podendo as Unidades Locais de Saúde (ULS) pagar até ao limite de quase mais 80%, e isto vai refletir-se num valor de despesa mais elevado para as unidades e terá também reflexos nas contas da ACSS”. Por outro lado, explica, “esta portaria estabelece que para aumentar as horas extra, as ULS têm de reduzir as horas e o valor em prestação de serviços em cerca de 120%. Ora, nesta altura, ainda não sabemos bem o que vai resultar daqui, se as ULS vão conseguir mesmo escalar profissionais em horas extras suficientes para substituir as horas por prestação de serviço e o custo que tudo isto vai exigir, mas quase que podemos garantir que o valor da despesa vai agravar”. O cenário ideal, diz ainda o administrador hospitalar, e tendo em conta a carência de profissionais, “era que todos os médicos, em regime de prestação de serviço, optassem por fazer um contrato individual de trabalho com a sua ULS. Isto era o melhor que poderia acontecer ao SNS. Reduziria a necessidade de horas extras e aumentava o número de pessoas nas equipas e mais envolvidas no trabalho que se faz”. Se tal não acontecer, já que tem havido contestação por parte dos médicos que trabalham em prestação de serviço (tarefeiros), Xavier Barreto assume que o cenário de milhões de horas extras terá de se manter, porque estas são fundamentais para a resposta que o SNS tem de dar aos utentes. E defende: “É preciso criar condições que permitam às ULS recrutar mais profissionais e racionalizar mais os recursos em rede – o que já começou nas urgências de Ginecologia-Obstetrícia a sul do Tejo e a norte de Lisboa, com a concentração de maternidades.” O presidente da APAH diz mesmo que esta seria “a maneira mais rápida de mudar o cenário atual, reduzindo até o custo com profissionais”. 15 ULS já gastaram de oito a dois milhões em horas extras Das 45 entidades do SNS (39 Unidades Locais de Saúde, três IPO (Instituto Português de Oncologia), Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências e o Instituto Português do Sangue e da Transplantação), há duas unidades que se destacam pelas horas extra e pelos gastos, que são, respetivamente as ULS de Coimbra e São José, em Lisboa, cujos gastos passam os oito milhões de euros (ver tabela em baixo). . Ao DN, a ULS São José explica que o volume de horas extras e de prestação de serviço com o facto de ser “a segunda maior ULS do país em volume de recursos humanos, o que naturalmente se reflete na dimensão da atividade assistencial e, consequentemente, no volume de horas extraordinárias realizadas”, assinalando, no entanto, que nos dados da ACSS “o número de horas referido (214 mil) engloba horas extraordinárias, mas também horas de prevenção e de chamada. Assim, o total reportado inclui as horas extraordinárias realizadas no Serviço de Urgência, as horas de prevenção de apoio ao Serviço de Urgência, ao internamento, ao apoio domiciliário e às consultas das USF, assim como as horas de chamada para apoio ao internamento”. Se considerarmos apenas “o número de horas extraordinárias, refere esta ULS, “foram realizadas 150.671 horas nos primeiros cinco meses de 2026, mais 2.030 do que em igual período do ano passado (148.641)”, referentes “exclusivamente às horas extraordinárias em Serviço de Urgência”.Mas o grupo das que mais gastam em horas extraordinárias envolve não só os grandes hospitais do país, mas também do interior. Mais uma vez, o presidente da APAH, sustenta que tal reflete a realidade das “unidades que têm uma carência estrutural de recursos humanos face ao número de portas que têm abertas para dar resposta clínica aos utentes, porque haverá outras unidades de fim de linha que não têm tantas horas extras porque têm um quadro de recursos humanos mais adequado à sua atividade”. Numa leitura feita pelo DN, há 15 ULS que se destacam pelos gastos em horas extraordinárias, que vão desde os oito aos dois milhões de euros, que são, respetivamente (ver tabela ao lado), retirando as ULS de Coimbra e São José, as ULS do Algarve e Santa Maria, em Lisboa, com mais de cinco milhões de despesa, a ULS de Santo António no Porto, com mais de quatro milhões, e as ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, Lisboa Ocidental, Amadora-Sintra, São João, no Porto, e Tâmega e Sousa, com mais de três milhões de gastos. Seguem-se depois as ULS da Arrábida, em Setúbal, de Braga, Viseu-Dão e Lafões, do Nordeste e Entre Douro e Vouga com mais de dois milhões gastos.Por outro lado, temos as ULS que já gastaram mais de 1,9 milhões de euros, como a de Almada-Seixal, Médio Tejo, Loures-Odivelas e Matosinhos. Havendo apenas sete entidades do SNS que ainda gastam menos de um milhão com o trabalho extraordinário, nomeadamente o Instituto do Sangue, o Instituto para os Comportamentos Aditivos e Dependências, o INEM e as ULS de Barcelos/Esposende, Baixo Mondego, Estuário do Tejo e Alentejo Central..Médicos do SNS fizeram 2,4 milhões de horas extras até maio. Prestadores de serviço também e despesa disparou.Serviço Nacional de Saúde pagou 249 milhões de euros a médicos tarefeiros