A idade é vista como um obstáculo para continuar a trabalhar e a viver a vida. Como é que entende que a nossa sociedade construiu esta ideia? Esta é uma questão interessante e mesmo uma questão fundamental. É preciso assinalar que ao longo da História houve sempre alguma forma de tensão entre os mais jovens e os mais idosos, no sentido de saber quem é que deveria ter o poder e decidir aquilo que se passa nas sociedades, particularmente nas sociedades ocidentais. Nasceu cedo um certo desprezo pelos idosos embora grandes pensadores como Séneca ou Platão, por exemplo, tenham sido grandes defensores dos mais idosos. Também em vários momentos históricos foi reconhecido o seu papel..Nos nossos dias há uma conjugação de vários aspetos. A esperança média de vida aumentou mas o número de nascimentos reduziu-se muito. Isto conduziu a que exista uma camada vasta de pessoas de idade que são postas de lado e a juventude tornou-se uma virtude. Muitas vezes pessoas que atinjam uma certa idade mas que tenham uma qualidade excecional e uma experiência de vida muito grande são afastados para abrir lugar a estes newcomers que trazem consigo a vantagem da idade..Custa-me muito perceber porque é que se pensa que a idade diz alguma coisa sobre a competência ou a capacidade das pessoas. Esta capacidade deveria ser aferida e conforme o estado em que estivessem ou disponibilidade que tivessem continuar ou não a trabalhar. Há pessoas que gostam de chegar à reforma, ter uns anos tranquilos e porventura ter uma vida mais agradável. Mas para muitas outras pessoas é um peso deixar de ter responsabilidade profissional, ser olhado de lado, ser objeto de preconceitos..Sente nesta fase da vida que as pessoas à sua volta comecem a pedir ou a sugerir que deixe de trabalhar? No que diz respeito à minha jubilação da faculdade, ela resulta de uma norma legal imperativa. Ou seja, a partir dos 70 anos não se pode dar aulas numa universidade ou ocupar qualquer cargo público. Por exemplo, se o Presidente da República deixasse de ser Presidente não poderia voltar a dar aulas na Faculdade de Direito. Talvez pudesse dar aulas de mestrado mas não poderia dar aulas de licenciatura..Não só na função pública, mas também nas empresas, há uma tendência para que à medida que as pessoas envelhecem sejam objeto de pré-reformas ou negociações de saída, tirando-as do mercado de trabalho e da competição com os mais jovens..O mesmo se sucede nas profissões liberais como os advogados, médicos ou arquitetos, em que começa a haver alguma dúvida sobre se os mais velhos já não serão idosos demais para fazer bem aquele que é o seu trabalho. Durante anos na advocacia se procuraram advogados mais antigos e experientes. Agora a tendência é para advogados mais novos..Esta questão dos 70 anos é algo de que só me apercebi quando tinha 63 anos, justamente quando um colega tinha chegado aos 70 anos e estava maldisposto com toda a situação. Nunca tinha pensado que isto fosse acontecer e à medida que me fui aproximando dos 70 apercebi-me que é real, e que é preciso ter isso em conta no nosso planeamento..A realidade é que as pessoas mais velhas têm mais conhecimento. Porque é que se escolhe não aproveitar esse conhecimento nas empresas, universidades, etc.? Exato, e por isso me faz impressão. Se quisermos ter um exemplo extremo disto podemos olhar para o Papa Francisco com a sua veneranda idade, que é uma pessoa com uma limpidez de pensamento absolutamente extraordinária que faz com que não são só os católicos, mas diria todos os homens de boa vontade deste mundo, olhem para ele como uma referência única..É evidente que há uma acumulação de saber, de experiência, de lidar com situações semelhantes que deviam ser respeitadas e que só pode beneficiar a sociedade. Há equilíbrio, há espaço para todos..Faz-me impressão esta tendência para dividir as sociedades em grupos. Durante muito tempo era nítida a existência de dois fatores de divisão como o racismo e depois também o sexismo. De repente percebeu-se que, não tão nitidamente, havia um terceiro grupo da população que também estava a ser prejudicado, os idosos. De certa forma assim apareceu o conceito de idadismo [discriminação em função da idade]..Acaba este livro por ser uma revolta contra o idadismo? É um alerta contra o idadismo. Agora há muitas manifestações e greves mas poucas revoltas em relação a questões de fundo e estruturantes como esta. Há todas as razões para defendermos esta que é uma situação injusta e prejudicial para toda a gente. O individualismo que caracteriza as sociedades modernas torna tudo isto difícil..Em Portugal já existem pelo menos duas associações de combate ao idadismo, e mesmo a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que fazem um acompanhamento ativo dos reformados..Poderia ser uma opção para as empresas apostar na contratação de pessoas mais velhas?.Do que conheço do mundo empresarial, começa a haver uma melhor compreensão disso. Há alguns anos, os quadros superiores ainda em idades muito novas eram "colocados na prateleira" com pré-reformas ou rescisões por mútuo acordo. Isto tende a reduzir-se e a manter-se pessoas mais tempos nos cargos porque se percebe que há muito a receber da sua experiência..sara.a.santos@dn.pt