Alguns dias depois de assinalar o seu 25.º aniversário, celebrado a 1 de junho, e ainda com ao som das comemorações do Dia Mundial do Ambiente desta sexta‑feira, 5 de junho, a Eco‑Oil volta a colocar-se no centro do debate sobre a economia verde em Portugal. Em entrevista ao Diário de Notícias, o diretor‑geral Nuno Matos, há 18 anos na casa, revisita o percurso desta empresa inspirada num modelo industrial decalcado de uma congénere em Hamburgo, o terceiro maior porto da Europa. Uma empresa que, embora discreta no nome, se tornou decisiva no impacto: de simples unidade de descontaminação dos navios da Lisnave, evoluiu para referência internacional na valorização de resíduos marítimos.Agora, volvido um quarto de século, a Eco‑Oil integra a Marine Care Association (antiga Euroshore) a rede internacional responsável por garantir que os navios cumprem escrupulosamente as normas ambientais da Convenção Marpol (Marine Pollution), assegurando a receção e o tratamento seguro dos seus resíduos - e encontra‑se no top‑5 dos maiores operadores europeus na gestão de efluentes marítimos.A exclusividade real - e o seu pioneirismo mundial - reside, contudo, na sofisticação científica da economia circular que desenvolveu em Setúbal. A unidade foi a primeira no mundo a converter lamas e resíduos de hidrocarbonetos pesados num combustível industrial totalmente reciclado e certificado segundo a exigente norma ISCC PLUS. Batizado comercialmente como EcoGreen Power, este combustível serve hoje a indústria pesada nacional, e no estrangeiro, como alternativa direta e competitiva ao fuelóleo fóssil tradicional, garantindo reduções de emissões de gases com efeito de estufa na ordem dos 99%.Este ano, a Eco‑Oil marca ainda outro passo decisivo: a internacionalização. A empresa prepara‑se para avançar, já no outono, com a sua primeira unidade fora de Portugal, no porto de Freeport, nas Bahamas, levando para a rota do Mar das Caraíbas o modelo de engenharia que desenvolveu na Mitrena.Uma infraestrutura que nasceu do mar e para o marA história da Eco‑Oil começa muito antes de qualquer ambição de economia circular. Começa com uma urgência industrial. “O facto de estarmos aqui neste local tem um ‘pai’, e esse pai é o senhor Manuel de Mello”, recorda Nuno Matos. No virar do milénio, a transferência dos estaleiros da Lisnave de Lisboa para a pequena península da Mitrena exigia uma infraestrutura ambiental que simplesmente não existia em Setúbal. Era preciso garantir que os navios‑tanque chegavam ao estaleiro em segurança, livres de atmosferas explosivas. “As águas contaminadas da lavagem dos tanques têm de ser descarregadas num local específico”, explica.Sem operadores disponíveis para prestar o serviço, Manuel de Mello decidiu criá‑lo. Convidou a Quimitécnica Ambiente, então recém‑nascida no universo CUF, para instalar na Mitrena uma unidade capaz de tratar águas contaminadas segundo as exigências da Convenção Marpol. Assim nasceu a Eco‑Oil, num terreno desafetado do domínio público marítimo, concebida de raiz para servir o estaleiro.. O modelo tecnológico, porém, não foi inventado em Portugal. Foi importado. “Os engenheiros da CUF foram estudar o que havia no mundo e encontraram o modelo em Hamburgo”, conta Nuno Matos. A referência era dupla: o estaleiro Blohm+Voss e a unidade Ackermann, que tratava resíduos oleosos no coração de um dos maiores polos industriais da Europa. A escala impressionou-o. “Perguntei quantas refinarias tinham em Hamburgo. Tinham três. Nós em Portugal tínhamos duas, agora só temos uma.”A tecnologia alemã foi replicada na Mitrena com rigor. “Não houve poupança no projeto; é um projeto alemão direcionado para as águas contaminadas”, frisa o responsável.O ponto de viragem: da coincineração ao produto industrialDois anos depois, a história societária da empresa alterava-se, abrindo as portas também a uma inovação de produto. Em 2006, um management buy-out por três administradores retirou a empresa do universo CUF, tornando-a independente. E, dois anos mais tarde, Nuno Matos assumia a liderança, com uma visão muito clara sobre o destino a dar ao material oleoso retirado da água dos navios.A nova direção rapidamente se deu conta de que as águas traziam mais do que água: traziam hidrocarbonetos com valor. “Percebeu‑se que esses hidrocarbonetos podiam ser concentrados e tinham valor de mercado”, relata o diretor-geral.Durante anos, esse material era apenas coincinerado. A ambição, porém, era outra: provar que aquele óleo podia ser um produto industrial. “Foi feito um trabalho conjunto de convencimento das autoridades ambientais e da Direção‑Geral de Energia”, recorda. Em 2012, a autorização chegou. A Eco‑Oil podia finalmente vender o seu combustível reciclado.. Esse momento mudou tudo. “Cada tonelada de EcoGreen Power é menos uma tonelada de combustível fóssil queimada”, afiança. A partir daí, a empresa orientou-se para a economia circular, apoiada pela academia. “A academia, na Eco‑Oil, tem tido uma importância determinante”, sublinha Nuno Matos, referindo as colaborações com a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Coimbra.O novo patamar de progresso deu-se em 2017, com um investimento profundo na refinaria, que se traduziu na modernização de toda a infraestrutura. “Permitiu dar o salto de qualidade, mas um salto para a diferenciação não por preço, mas por valor.” O reconhecimento internacional não tardou: primeiro o selo Gold da EcoVadis, depois o Platinum, que mantém até hoje. “Temos uma enorme preocupação nas questões do ambiente, da governação e das pessoas.”A Eco‑Oil opera hoje a uma escala de gigantes. Licenciada para receber 373 mil toneladas por ano de águas contaminadas com hidrocarbonetos - a maior capacidade do país -, a unidade da Mitrena tem capacidade para picos de trabalho que impressionam. Em apenas 24 horas, já chegou descarregar 12.000m³, o equivalente a 12 milhões de litros de resíduos oleosos, ou seja, o mesmo que 12 piscinas olímpicas..É um volume que só se explica pela combinação de três fatores: alta taxa de receção, alta capacidade de bombagem e alta velocidade de descarga. Na prática, isto significa que a Eco‑Oil consegue receber dois navios de grande porte em simultâneo - ou um único navio com tanques de dimensão colossal - sem criar filas, atrasos ou funis operacionais.Esta força industrial, contudo, não se traduz automaticamente em escala comercial. Como admite Nuno Matos, “os resíduos que vêm da lavagem dos tanques dos navios que vão à Lisnave representam cerca de 20% do óleo que nós vendemos. Os outros 80% resultam de importações que fazemos de várias partes da Europa”. É um paradoxo: a capacidade, a engenharia e a velocidade existem, mas a Eco-Oil depende de um mercado externo porque, comenta com ironia o seu diretor-geral, “os navios não param a meio da rota para beber um café”. O tráfego marítimo português - com exceção de Sines - não gera o volume nas escalas que esta infraestrutura poderia absorver.O salto financeiro empurrado pelo tabuleiro geopolíticoA partir de 2022, o contexto geopolítico acelerou o negócio. “Esse salto de faturação resulta de fatores exógenos”, admite. A guerra na Ucrânia fez disparar o preço do gás e muitas indústrias migraram para alternativas. “O nosso combustível foi uma excelente alternativa.” Este ano, a empresa previa faturar 11 a 12 milhões, mas deverá voltar aos 14 milhões, revela Nuno Matos, em primeira mão ao DN. “Estamos a beneficiar do aumento de tarifas no mercado de energia”Apesar disso, o diretor-geral prefere estabilidade. “A instabilidade não nos favorece. A Eco‑Oil prefere ter uma atividade estabilizada.”A Eco‑Oil trabalha hoje com uma lógica de circularidade quase total. De todos os resíduos que entram na Mitrena — quer provenham da lavagem dos navios, quer dos concentrados oleosos que a Eco-Oil recebe do exterior —, depois de separados, refinados e estabilizados, 99% são valorizados internamente. A água é tratada e devolvida ao Sado totalmente limpa. As frações oleosas seguem para o mercado sob a forma de EcoGreen Power - um combustível sustentável premium. .A Eco‑Oil opera hoje a uma escala de gigantes. Licenciada para receber 373 mil toneladas por ano de águas contaminadas com hidrocarbonetos, em apenas 24 horas já chegou descarregar 12.000m³ — o equivalente a 12 milhões de litros de resíduos oleosos, ou seja, o mesmo que 12 piscinas olímpicas.. O único resíduo que ainda escapa a este ciclo é cerca de 1% de lamas pesadas — um material denso, energético e difícil de tratar, que continua a ser enviado para os aterros CIRVER. É precisamente aqui que entra o projeto mais ambicioso da empresa, desenvolvido com as universidades, e que o DN revela em primeira mão. “Esta tese que estivemos a discutir na segunda‑feira [1 de junho, na Universidade de Coimbra — Nuno Mato integrou o júri de avaliação] é justamente sobre como valorizar e dar utilidade a este 1% de lamas residuais, eliminando a necessidade de envio para aterro”, adianta o diretor‑geral.A Eco‑Oil está a testar um projeto-piloto capaz de recuperar a energia térmica dessas lamas, separar a parte mineral e transformá‑la num subproduto para betume, cerâmica ou cimento. Se resultar, elimina‑se o envio para aterro e fecha‑se o ciclo quase por completo. “É o fecho definitivo do ciclo de economia circular, dos 99% para os 99,9%”, resume Nuno Matos.Internacionalização à vistaA internacionalização é o passo seguinte. O projeto nas Bahamas, em parceria com a Queensway Navigation, enfrentou furacões e pandemias, mas avança finalmente este ano. “Estamos neste momento já a limpar o terreno para se começar a fazer as infraestruturas.”Esta ambição, porém, não nasceu agora. “Em 2010, identificámos esta oportunidade de negócio: uma ilha em frente a Miami onde havia um estaleiro, um terminal de contentores gigante, um terminal petrolífero também gigante, o quarto maior daquela área, mas não havia nenhuma unidade de tratamento de resíduos”, recorda Nuno Matos. “Percebemos que havia ali um potencial real de desenvolvimento de negócio. Mas sozinhos não conseguíamos.”A primeira pedra foi lançada em 2018, “depois de um processo longo de licenciamento”, mas o furacão Dorian destruiu grande parte da ilha e, logo depois, a pandemia voltou a suspender tudo. “O projeto volta a ficar no papel.” Agora, depois de sobreviver a furacões, vírus e adiamentos, a expansão está finalmente em marcha. “Depois destes sustos todos, os sócios decidiram novamente retomar o processo este ano”, confirma. A futura unidade de Grand Bahama será a primeira réplica internacional da engenharia afinada na Mitrena, instalada numa das rotas marítimas mais densas do planeta, na porta de entrada do Mar das Caraíbas.. No debate sobre o futuro dos transportes, Nuno Matos rejeita soluções one size fits all. “A eletrificação é solução para curta distância. O problema é o longo curso.” Neste momento, a Eco-Oil encontra-se a abrir caminho regulatório para testar o seu combustível reciclado diretamente no mar, reduzindo a pegada carbónica das frotas comerciais. A empresa está agora a tentar obter uma certificação que permitirá misturar o EcoGreen Power com combustível marítimo convencional e acredita que a meta não estará. “Será como o gasóleo B7. Um contributo realista.”"E por que é que estes processos terão de se basear sempre nesta lógica de mistura?", indaga retoricamente Nuno Matos. "Porque não existe capacidade de produção. A nossa fábrica ou outras que existam no mundo têm uma capacidade de entrega muitíssimo inferior às necessidades globais do mercado. Nós estamos limitados pela quantidade de resíduos que recebemos para reciclagem", explica.Seja como for, os planos futuros da Eco-Oil, sobretudo o investimento no projeto das lamas, depende da chegada a 2027, ano em que termina a concessão do terreno na Mitrena. “O porto tem todo o interesse em manter‑nos aqui, mas temos de aguardar pela resolução formal.”Se o complexo tiver de sair daquelas margens do Sado, não pode ser apanhado a meio de projetos de novos investimentos, confessa o diretor-geral..De todos os resíduos que entram na Mitrena, 99% são valorizados internamente — a água é tratada e devolvida ao Sado limpa. O 1% que ainda escapa são as lamas pesadas, mas a Eco-Oil já tem um projeto-piloto para as incorporar em cerâmicas e betumes, atingindo assim uma economia circular de 99,9%.. No final, o segredo da Eco‑Oil talvez esteja mesmo na sua estrutura ágil. Uma empresa pequena, leve, capaz de decidir depressa e ajustar processos sem a inércia das grandes organizações. “Somos 23 ou 24 pessoas”, diz Nuno Matos. Apenas duas por turno operam a fábrica durante a noite; tudo o resto é automatização, outsourcing especializado e uma disciplina operacional que não admite desvios.Essa cultura de rigor tem muito da história pessoal do próprio diretor‑geral. Vindo de uma família humilde do Alentejo, diz que “saiu da pobreza, mas a pobreza e o espírito de poupança e rigor não saíram” dele. E é difícil não ver esse traço na forma como gere a empresa: processos afinados ao milímetro, desperdício mínimo, decisões sustentadas e uma atenção dedicada ao detalhe técnico. “Eu costumo dizer que não casei com a Eco‑Oil, mas já cá estou há 18 anos”, comenta, com um sorriso que mistura orgulho e pertença.Talvez seja essa combinação: um pragmatismo que sustenta a empresa, capaz de encontrar utilidade para resíduos marítimos que antes não tinham destino — e que agora leva esse modelo para o outro lado do Atlântico.