"É uma honra, um privilégio, sermos escolhidos para padrinhos"

Os afilhados já não pedem o folar aos padrinhos, mas estes continuam a ser importantes e há sempre umas amêndoas ou um ovo

Sobrinhos especiais. É assim que Pilar Amado vê os seus seis afilhados, apenas um não pertence à família. Seis já é um número pouco usual nos dias de hoje, mas no século passado havia quem ultrapassasse a dezena, sobretudo as pessoas mais abastadas. A pensar no "folar" e no futuro: podia ser que arranjasse um bom emprego ao afilhado, daí o dito: "tem bons padrinhos". Há menos batizados, mas mais sentimento e espiritualidade, acredita o padre Feytor Pinto. Mas também há quem tenha afilhados sem serem batizados. E se hoje, em Dia de Páscoa, o afilhado já não pede o folar, há sempre um ovo ou umas amêndoas.

Pilar é madrinha de sobrinhos, de primos e de amigos, relações que se cruzam e que fazem com que todos juntos sejam uma grande família. Um exemplo foi o momento de reunir todos para a foto do DN. Em horas, apareceram três afilhados, que levaram os irmãos, a que se uniram os quatro filhos da madrinha, mais outros primos. "Foi uma galhofa" nos jardins em frente ao Centro Cultural de Belém.

"Somos uma família muito grande e funcionamos como um clã. Os primos direitos são como irmãos, somos muito próximos", geográfica e afetivamente, explica Pilar. Vinte primos e que se encontram todos no Natal.

O leque de afilhados de Pilar vai dos 4 aos 28 anos, este o Manuel que acaba de ser pai. É madrinha dos filhos mais velhos dos irmãos, de um primo direito, dos filhos de dois primos e um de amigos, entre eles apenas uma rapariga. E, se lhe pedissem para ser novamente madrinha não hesitaria em dizer "sim". "Acho que vai acalmar, mas se me pedirem... É uma honra, um privilégio, sermos escolhidos para padrinhos, uma confiança fora do comum. Os padrinhos que escolhi para os meus filhos são pessoas muito importantes na minha vida e, se alguém me escolher, será por essa razão. Não poderia recusar."

"Nem o batismo se pode recusar a uma criança", sublinha o padre Feytor Pinto, pároco da Igreja do Campo Grande há 20 anos. E frisa o papel fundamental dos padrinhos, que recebem "uma missão" no dia do batismo. "Os pais ao batizarem os filhos e escolherem os padrinhos estão a dizer que os querem educar cristãmente. A segunda função do padrinho é de ajudar na educação da criança. Antigamente, escolhia-se um senhor rico para dar muitos presentes no Natal ou uma pessoa importante que pudesse arranjar um emprego quando o afilhado crescesse. Não é assim, o batismo não é um acontecimento social, é um dos sete sacramentos e que introduz a pessoa oficialmente na comunidade cristã, é um ritual de iniciação".

Na Igreja católica exige-se que os padrinhos sejam batizados, casados pela igreja e que tenham 16 ou mais anos. E se monsenhor Feytor Pinto aceita quem tenha menos de 16 - o Direito canónico admite-o por "justa causa" -, não facilita em relação às outras duas obrigações. "O problema é quando o batismo deixa de ser um acontecimento de natureza cristã para ser uma festa. Há pessoas que não casam pela igreja e querem batizar os filhos. Nós batizamos, a criança tem o direito de ser batizada, mas podemos recusar o padrinho e dizer aos pais que têm de arranjar outro." O que acontece de vez em quando na paróquia do Campo Grande, onde fazem uma média de 200 batizados por ano, mas raramente os pais procuram outra paróquia. Até porque, se há uns anos havia padres que "fechavam os olhos", Feytor Pinto garante que isso não acontece atualmente.

Pilar Amado tinha 13 anos quando foi madrinha pela primeira vez. "Fiz o curso de preparação - acho bem que se faça - tive alguma noção da realidade mas penso que o que pesou mais para os pais me escolherem foi o fator humano, a proximidade. Gosto muito de crianças e, desde sempre, acompanhei os meus primos, ajudava os pais, penso que é isso que tem pesado quando me escolhem, E um padrinho não é um substituto dos pais, se lhes acontecer algum problema grave, há outros familiares que têm esse papel. Um padrinho é mais um complemento."

Católica praticante, com uma participação "básica" na vida religiosa, tem presente que deve fomentar a prática religiosa dos afilhados mas acha que não é o fundamental. "Tento estar com eles no Natal, nos momentos importantes, a Primeira Comunhão, o Crisma, as festas da escola. Em relação à prática religiosa, os mais velhos já é difícil, em relação aos mais novos é mais fácil, mas os pais também têm uma vivência católica, o que facilita". Quanto ao folar, presenteia-as com algo mais especial do que aos outros sobrinhos no Natal e anos. Na Páscoa, ficam-se pelos ovos. "Somos uma família de Lisboa."

João Batista iniciou batizados

O batismo entre os católicos é por aspersão (derramamento de água sobre a cabeça), ao contrário do que fazia João Batista que, segundo o Novo Testamento, emergia na água (mergulhava e trazia à tona) os judeus adultos para se purificarem, se redimirem dos seus pecados, como penitência, é um rito de passagem. Foi ele quem batizou Jesus e, explica o padre Feytor Pinto, é nesse momento que "desce o Espírito Santo, que santifica". "Desde o século primeiro que há batismo, já os padrinhos é algo relativamente recente. Surgem quando começam a batizar as crianças porque são eles que representam as crianças". O batismo é uma prática de todos os cristãos mas assume diferentes representações e ritos consoante cada Igreja.

Os protestantes e evangélicos só batizam a pessoa em idade adulta, o que fazem por imersão e há algumas destas igrejas têm o batistério. Ou vão a uma piscina, ao mar ou ao rio. "Batizamos só os adultos ou as pessoas que estão em condições de o fazer, não batizamos ninguém antes da adolescência", explica António Calaim, presidente da Aliança Evangélica Portuguesa. Não têm mandamentos, como os católicos, mas ordenanças e o batismo é uma dessas ordenanças. Não têm padrinhos mas testemunhas e que são as pessoas que assistem à cerimónia. "O que fazemos é uma apresentação da criança e depois os pais fazem uma festa. Oramos pela criança e evocamos a presença de Deus e, normalmente, os pais gostam de trazer famílias, os amigos, a que chamamos testemunhas."

Aquela confissão representa numericamente a segunda religião em Portugal, concluem os censos. Significa 2,8 % na investigação do Centro de Estudos de Religiões e Culturas da Universidade Católica, realizada em 2011. Em terceiro lugar, estão os ortodoxos, que também batizam as crianças e por tripla imersão. A criança é mergulhada na água e retirada três vezes.

Os católicos ortodoxos, tal como os católicos do rito latino também têm padrinhos e não há um número mínimo nem máximo. "O padrinho tem de ser ortodoxo e batizado. É o responsável pela educação espiritual da criança, logo não tinha lógica não ser batizado", sublinha o bispo Paulo, responsável pela igreja ortodoxa de Portimão. Nesta cidade, onde há uma percentagem elevada de imigrantes dos países de Leste, fazem uma média de cem batizados por ano, proporção que se tem mantido.

Os ortodoxos, ao contrário dos latinos, fazem os três principais sacramentos -batizado, comunhão e crisma - no mesmo dia. "A partir do momento em que acriança é batizada passa a pertencer a Cristo e tem direito a tudo o que têm os outros cristãos.

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