E a testemunha do homicídio é... um papagaio

Bud, um papagaio-cinzento, assistiu ao assassínio brutal do dono, dentro da sua própria casa, nos EUA. O seu "testemunho", tal como no álbum de BD do Tintim, pode ser crucial para descobrir o culpado

Parece brincadeira, mas não é. Nos EUA, um procurador considera a hipótese de pôr no banco das testemunhas Bud, o papagaio de Martin Durram, um homem de 45 anos morto a tiro, em maio de 2015, dentro de casa, em Sand Lake, no estado de Michigan. As autoridades americanas estão a estudar o padrão de discurso da ave para determinarem se o mesmo pode ser admitido como meio de prova em tribunal, noticiou este domingo o Whashington Post citando o site noticioso Detroit Free Press.

"Não dispares, porra!" é o grito tétrico que o papagaio Bud não para de repetir na voz do dono e que deixa os familiares de David Durram com os cabelos em pé. Além de ter uma especial capacidade para imitar vozes, Bud é pródigo em palavrões e consegue reproduzir com exatidão curtos diálogos, garante a família da vítima.

Razões mais do que suficientes para se dar ouvidos, creem os Durram, à troca de palavras que a ave palradora repete há 14 meses, ora numa voz de homem ora numa voz de mulher.

David Durram foi encontrado morto em casa, atingido por vários tiros. A mulher, Glenna Durram, agora com 48 anos, também aí se encontrava gravemente ferida. Inicialmente, Glenna foi considerada também vítima do ataque que matou o marido. Mas as suspeitas acabariam por recair sobre si e Glenna foi presa na passada quinta-feira, aguardando julgamento por homicídio qualificado.

A família Durram acredita que o papagaio testemunhou uma discussão do casal que terminou em tragédia. Em causa estariam as contas que estavam por pagar, a iminente execução da hipoteca da casa e as dívidas de jogo de Glenna, afirmam.

"Não dispares, porra!", é o grito tétrico que o papagaio Bud não para de repetir na voz do dono

Se o "testemunho" do papagaio for admitido no tribunal, Glenna Durram pode ficar em maus lençóis. Segundo contam, Bud grita, na voz de David: "Sai desta casa!". De seguida, imitando uma voz de mulher, que alguns afirmam ser a de Glenna, Bud responde, também aos gritos: "Para onde queres que vá?" Depois, assume de novo a voz de David para dizer aquelas que terão sido as suas últimas palavras e um pedido para que o seu assassino não dispare a arma.

É por tudo isto que Robert Springstead, o procurador do condado de Newaygo, Michigan, está a tentar determinar se Bud pode ser considerado uma testemunha fidedigna. Springstead admite que é pouco provável que haja um precedente na jurisprudência americana para uma situação dessas. "É uma novidade interessante e tem sido uma excelente oportunidade para eu ficar a conhecer os papagaios-cinzentos", afirmou bem-humorado.

(Para prestar juramento na audiência), no caso do papagaio, será que ele levanta a asa ou a pata?

Com mais humor ainda, Springstead disse na WWJ-TV, um canal afiliado da CBS, que era capaz de ser complicado submeter o papagaio Bud ao juramento durante a audiência. No momento em que, habitualmente, o juiz pede às testemunhas para levantarem a mão direita, "no caso do papagaio, será que ele levanta a asa ou a pata?", perguntava-se Springstead.

Embora este seja um caso da vida real, os seus contornos tocam o mundo da ficção e trazem à memória um das aventuras do célebre jornalista/detetive Tintim. Em "A Orelha Quebrada" é também um papagaio insultuoso, que acaba por denunciar o assassino de Balthazar gritando: "Rodrigo Tortilha, mataste-me!"

E ainda que possa não haver precedente nos EUA para uma situação destas, como afirma o procurador Springstead, um olhar pelo resto mundo poderá revelar casos que sirvam de guia. Em 2014, na Índia, foi graças à "denúncia" de um papagaio que foi preso e condenado, em Agra, o assassino de uma mulher apunhalada em casa para lhe roubarem as joias, noticiou então o Figaro.

O animal, que assistiu ao crime, ficava muito agitado de cada vez que ouvia ou via o sobrinho da vítima. Só que neste caso, havia outros indícios incriminadores. Após investigação descobriu-se que Ashutosh, como se chamava o homem, tinha as joias escondidas em casa e na mão a marca de uma dentada que condizia com a dentição do cão da vítima.

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