Doentes oncológicas aprendem a "tratar" doença com maquilhagem

A maquilhagem deverá ajudar as utentes do Hospital de Braga a terem autoestima e esconderem os sinais da doença. "Não cura, mas ajuda", diz utente

As doentes oncológicas do Hospital de Braga aprenderam a "tratar" a doença com maquilhagem, uma "lufada de esperança" que "faz maravilhas" à autoestima e que funciona como "melhor tratamento" para o cancro do que muitas "drogas".

Eram cerca de 30, encolhidas nas cadeiras do anfiteatro do Hospital de Braga, quase em silêncio, apenas se ouviam cochichos. Umas estavam em pequenos grupos, a maior parte sozinhas, espalhadas pela sala. Todas de olhos atentos nas duas maquilhadoras profissionais, que exibiam cremes, pós que prometiam ser de perlim pim pim, batons, pincéis e cores, muitas cores.

O hospital de Braga aceitou o desafio de uma empresa de formação profissional, o Centro de Formação Die Apfel, e organizou mais uma sessão de automaquilhagem para as utentes com cancro. Não faz parte do guia de tratamento da doença, mas podia.

"Há diversas investigações que mostram que há uma correlação positiva entre a autoestima e a diminuição da sintomatologia depressiva e, sendo a depressão uma patologia que acomete bastante as doentes oncológicas, deve-se fazer tudo para diminuir a incidência desta patologia", explicou a coordenadora da escola profissional e também psicóloga clínica, Benedita Aguiar.

O objetivo, explicou, "não é curar o cancro" mas "criar melhores condições de autoestima, de autoeficácia, variáveis psicológicas importantes para enfrentar uma situação difícil".

As maquilhadoras não oferecem milagres, oferecem esperança, segundo testemunhou Ana Antunes, 34 anos, enfermeira, doente oncológica: "Cancro na mama, a esquerda", especificou.

"Uma das coisas que mais me custou neste processo, mais do que o processo em si, foi o dia-a-dia que implica este processo, nomeadamente o facto de todos os dias trazermos na cara a montra da nossa doença", explicou.

"A maquilhagem permite esconder as marcas da doença e trazer alguma normalidade a uma dia a dia que não é assim tão normal, faz com que não olhem para nós como doentes mas como pessoas", suspirou.

Ana foi a "cobaia". Sentou-se debaixo dos holofotes, tímida, fechou os olhos e quando se voltou a ver ao espelho, com uma "pintura muito simples para o dia-a-dia", prometeu a maquilhadora, o sorriso foi espontâneo: "Estou outra. Ou melhor, estou eu sem a doença", sussurrou.

O sorriso da enfermeira encorajou o grupo. Seguiram-se outras. São as sobrancelhas que caíram, as manchas vermelhas na pele, o acne que apareceu, a falta de brilho no rosto, a secura, procuram-se truques para enganar o espelho, o olhar dos outros e a própria alma.

"No nosso caso não é só maquilhagem. Interfere na autoestima, podermos estar num espaço publico sem que ninguém esteja a ver se estamos doentes. A doença está lá. As consequências estão lá. Acordamos e vemos isso na nossa cara. Se pudermos esconder, não cura, mas ajuda", referiu Ana.

Segundo Benedita Aguiar, "não é uma questão fútil, de mera imagem, é uma questão de saúde porque a saúde não é só bem-estar físico, isso estas mulheres nem sempre têm, mas é também bem-estar psicológico", e é neste ponto que os pozinhos de perlim pim pim ajudam.

"Temos cancro. Já basta nós sabermos isso. Mas a doença não tem que ser o nosso cartão-de-visita", desabafou Ana Antunes.

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