Doença grave não acompanhou subida exponencial do número de infeções

Especialistas voltam a reunir esta quarta-feira para avaliar situação pandémica no país, que mudou bastante desde o último encontro no Infarmed, a 19 de novembro. Peritos registam uma menor gravidade das consequências da doença graças à vacinação e às características da variante Ómicron.

Os peritos voltam a encontrar-se esta quarta-feira no Infarmed, em Lisboa, para avaliar a situação pandémica. As análises são importantes para as medidas de combate à pandemia e que serão discutidas amanhã em Conselho de Ministros. Muita coisa mudou desde a última reunião, há um mês e meio. Na altura, a variante Ómicron era residual e hoje já representa 90% das infeções.

Aumentou exponencialmente o número de casos diários e de infeções ativas, mas a situação não tem a mesma evolução no que diz respeito aos óbitos e internamentos em unidades de cuidados intensivos - embora aqui também se note uma subida nos números, mas mais ligeira.

O investigador do Instituto de Medicina Molecular (IMM) , Miguel Castanho, identifica duas fases da situação pandémica desde 19 de novembro: uma até 6 de dezembro, em que havia uma evolução do Rt (índice de transmissibilidade) que replicava o que aconteceu no verão, e outra a partir dessa data. 6 de dezembro é "o ponto de divergência".

"Apesar de assistirmos a um agravamento de quase todos os parâmetros que têm a ver com o número de infeções, não se nota um correspondente aumento nos casos mais graves, nos internamentos em unidades de cuidados intensivos (UCI) e nas vítimas mortais. Só agora, com os números de incidência muito elevados, é que se nota um aumento das hospitalizações no geral", explica, acrescentando: "O que é mais óbvio nas últimas semanas é o desacoplamento do que é o número de novos casos e o impacto em doença mais grave".


Justificam essa alteração, a vacinação, "que tem um efeito muito benéfico na proteção contra os efeitos da doença grave", e a entrada em cena da Ómicron, "que causa uma doença que, em média, é menos grave". Miguel Castanho acrescenta um terceiro fator, a testagem massiva no Natal e Ano Novo.


O facto de os últimos 15 dias serem especiais em termos de confraternização das pessoas faz com que o investigador não acredite que o número de novos casos continue a subir muito. "Há uma mudança muito grande de contexto, o final das festas. O efeito de Natal está refletido nos números, pois a Ómicron tem um período de incubação menor (cinco dias). E o do Ano Novo ver-se-á nos próximos dias. Esta semana é mais de recato e contribuirá para algum arrefecimento da tendência de subida. Além disso, as pessoas têm menos necessidade de se testarem. Esta alteração tende a desacelerar da subida da incidência, mas, claro, é esperar para ver", justifica.


Considera as atuais medidas "equilibradas e proporcionais face à situação". Não devemos é cair na tentação de pensar que a pandemia acabou: "Temos que manter as pessoas alerta para a eventual necessidade de, se a situação o justificar, recorrer a medidas mais duras".


Ontem, Portugal tinha mais de 213 mil casos ativos, cinco vezes mais que no dia 19 de novembro (ver gráficos). A ordem de grandeza aumenta para dez vezes mais no que diz respeito aos novos infetados, crescendo exponencialmente a taxa de incidência. Se analisarmos a gravidade da doença, percebe-se que a percentagem dos aumentos é mais reduzida. Os internamentos duplicaram, o que já não acontece com os doentes em UCI, que aumentaram em 86%.


Recuando até 4 de janeiro de 2021, percebe-se que, agora, há mais casos diários e ativos de covid-19 (na altura eram 4369 e 80 008, respetivamente), mas as situações de doença severa não têm comparação - há um ano, a DGS dava conta de 78 mortes em 24 horas, 510 pessoas internadas em UCI, o dobro do considerado linha vermelha (255 camas), e 3171 em enfermaria (mais 1968 que ontem).


Luís Graça, do IMM e membro da Comissão Técnica da Vacinação, explica que o que melhorou substancialmente neste último ano foi a vacinação: "Temos uma variante que é muito mais transmissível do que a que existia há um ano, o que significa que a capacidade de transmissão é maior. Contudo, temos a grande maioria da população portuguesa vacinada e o que se sabe é que a vacinação protege contra as formas mais graves da doença. A grande maioria dos casos de infeção, acaba por não condicionar internamentos nos hospitais nem consequências graves".


Daí que a principal medida que o investigador defenda seja vacinar. "É muito importante que as pessoas façam uma dose de reforço. Há dados que permitem concluir que há uma proteção contra a infeção. Com o reforço há menos casos de infeção nessas pessoas".

ceuneves@dn.pt

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