Fogos são uma das atrações principais dos festejos de São João, no Porto.
Fogos são uma das atrações principais dos festejos de São João, no Porto.Maria João Gala/Global Imagens

Do São João ao mundo: pirotecnia quer reconhecimento da UNESCO

A pirotecnia faz parte do imaginário coletivo português há gerações. País vai formalizar uma candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
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Portugal vai candidatar a pirotecnia a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Para tal, contará com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto no processo de candidatura. A formalização do protocolo está marcada para esta quinta-feira (5 de fevereiro). Em entrevista ao DN, Lina Guedes, presidente da Associação Nacional de Empresas de Produtos Explosivos (ANEPE), explica que o objetivo é a valorização desta arte. “A minha ideia foi realmente tentar arranjar aqui um mecanismo para aprofundar mais o conhecimento sobre a nossa arte, sobre a nossa atividade artística e, de certa forma, salvaguardar mesmo a atividade”, conta a idealizadora da candidatura.

A ideia não é nova. Ao assumir a ANEPE, em 2021, começou a pensar na possibilidade. “Fiquei inspirada para avançar com uma candidatura deste género, motivada pela experiência que tenho no setor e pela convivência dentro da área da pirotecnia”, detalha. O processo de candidatura é exigente e, por isso, terá o apoio da universidade, num trabalho que envolve “investigação académica, memória coletiva, território e saberes transmitidos ao longo de décadas”. Isto porque acreditam que ainda faltam estudos académicos sobre a componente da pirotecnia enquanto património cultural vivo. “É uma prática que está altamente enraizada nas nossas comunidades e está associada a momentos festivos e a momentos identitários”, complementa.

De acordo com a presidente, trata-se de um ofício que passa de geração em geração. “Queremos garantir a preservação de uma memória coletiva, preservar aquilo que realmente interessa afirmar enquanto atividade que já é secular. Estamos a falar de uma atividade artística que mantém viva várias gerações. Temos empresas centenárias ligadas a esta atividade cultural e artística que já vão na sua sétima geração”, destaca.

Ainda segundo Lina Guedes, cerca de metade das empresas deste ramo são centenárias. O resultado deste trabalho é literalmente visível aos olhos, em especial no norte do país. Os fogos de artifício, o tipo de pirotecnia mais conhecido, são o principal destaque em festas como o São João, no Porto. Mas também fazem parte do imaginário coletivo de Portugal em outras festas populares, romarias, celebrações religiosas e momentos simbólicos.

O verão é a época mais movimentada, pois é quando ocorre a maior parte das festas, sobretudo nas aldeias. É também precisamente nesta altura que as atenções se voltam para o tema, mas com outra perspetiva: a de que a pirotecnia provoca incêndios florestais. Tanto que, entre as medidas determinadas pelo Governo nesse período, consta a proibição da utilização de fogo de artifício ou de outros artefactos pirotécnicos, “independentemente da sua forma de combustão”, bem como a suspensão das autorizações que tenham sido emitidas. “Queríamos compreender o que sustenta uma decisão destas, o que é que tecnicamente sustenta uma decisão destas. Ficámos impedidos de fazer espetáculos sob a máxima de que estava decretado perigo de incêndio. Mas posso dizer-lhe que mais de metade dos espetáculos que foram cancelados – ou quase todos –, na verdade, eram realizados em meio urbano. E não há floresta nas suas imediações, porque desde 2006 que a lei proíbe, e bem, que haja espetáculos pirotécnicos junto a áreas florestais durante o período de maior calor”, ressalta.

Lina Guedes afirma ainda que “nos últimos 20 anos não há qualquer registo de um incêndio florestal provocado por um espetáculo pirotécnico devidamente licenciado”. E lembra o elevado nível de regulação do setor. A presidente acredita que o título pode ajudar a dissipar mitos sobre a pirotecnia, além de valorizar a evolução desta arte. “Investimos tanto na especialização dos nossos recursos humanos, na compra e no investimento também em equipamentos tecnológicos, alcançando níveis de sofisticação entre os melhores do mundo para continuarmos a corresponder às exigências da atualidade, nomeadamente no que diz respeito à sustentabilidade.” Sobre a expectativa de que a proposta seja aceite, afirma que são elevadas. “Estão reunidas todas as condições para que esta atividade seja aprovada, até pela experiência da equipa da faculdade que dirige este processo”, explica. O processo de análise deverá durar cerca de dois anos. São várias etapas que incluem um processo rigoroso de investigação, sendo necessário cumprir várias regras. Entre elas, que o elemento seja uma tradição viva, que seja importante para a identidade da comunidade e que existam medidas para salvaguardar a tradição.

O que já é Património Cultural Imaterial da Humanidade 

- Fado (2011)

- Cante Alentejano (2014)

- Artesanato de figuras de barro de Estremoz (2017)

- Carnaval de Podence (2019)

- Festas Comunitárias de Campo Maior (2021)

- Arte equestre (2024)

amanda.lima@dn.pt

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