Do sino da paparoca às cantigas do peixe frito. As crianças da colónia ainda sabem brincar

A mais antiga colónia de férias do país faz 90 anos e continua a trabalhar para que as crianças desfavorecidas possam ter uns dias de brincadeira. Ontem foi o primeiro dia para 30 meninos e meninas

"Tenho fome e quero comer/Se o almoço foi peixe frito/Olho para o lado e vomito." A versão da cantilena foi alterada, o que os primeiros colonos da atual época balnear d"O Século deviam dizer no final era "Com fome estou, com fome fico". A liberdade criativa arrancou alguns sorrisos dos monitores e as crianças até tiveram sorte porque o almoço era massa. Estes são os primeiros 30 colonos que a Fundação O Século terá este ano, no Estoril. Até 8 de setembro vão receber 600 crianças entre os 6 e os 12 anos, o dobro dos últimos anos, para celebrar nove décadas de existência.

Longe estão os tempos em que milhares de crianças chegavam ao Estoril, num comboio especial, muitas para verem pela primeira vez o mar. Hoje, os mais novos estão confortáveis na praia e são mais expansivos. É o primeiro dia e parece que já se conhecem há semanas. O público também mudou: há 90 anos era um espaço exclusivo para crianças desfavorecidas, agora a colónia já é aberta a outras crianças, menos no mês de agosto quando é a colónia fechada.

Até ao fim das colónias, a cada quinze dias vão mudar as caras de quem está de férias e mesmo de quem toma conta deles. "Os coordenadores dos monitores são pessoas ligadas à Fundação, mas depois os monitores são normalmente jovens, estudantes que têm interesse por estas áreas", explica Mafalda Morgado, administradora da área social d"O Século.

Cabe aos monitores acompanhar os jovens ao longo do dia. De manhã vão à praia e depois do almoço até às 18.30 fazem atividades que escolhem entre quatro opções. "A principal função deles aqui é brincar", sublinha Pedro Batista, coordenador geral da Colónia de Férias. Podem escolher se querem brincar sob o tema Aventura e Natureza, Desporto e Ação, Arte e Cultura ou Jogos e Brincadeira.

No seu tempo, Alberto Henrique Santos não brincava desta forma organizada e a colónia era bem mais do que um local de brincadeira. "Era uma escola para a vida, um ambiente diferente, organizado, com comida a horas e lidávamos com crianças de todo o país", recorda o ex-colono, agora com 75 anos. Alberto frequentou O Século durante cinco anos, todos na década de 50 do século passado, com os seus dois irmãos. Fernando, mais velho três anos, e Ivone, mais nova dois anos.

Filhos de um trabalhador da Carris e uma vendedora de hortaliça à porta de casa no Príncipe Real, em Lisboa, os três irmãos encontravam no Estoril uma estrutura que não tinham em casa. "Não tínhamos saneamento, nem eletricidade e sempre que havia estas iniciativas a minha mãe aproveitava para nos inscrever", recorda. Aqueles 15 dias eram um oásis na vida de Alberto e dos seus irmãos, não só pelo ambiente, mas também pelo convívio, garante. "A hora da despedida era sempre muito difícil. Acabava tudo a chorar. Hoje ainda é assim." Alberto recebia cartas da mãe durante a estada e conseguiu registar essas férias numa das visitas que os pais lhe fizeram. Se ontem, era difícil segurar o grupo fora de água, em 1952, quando Alberto frequentava a praia de São Pedro do Estoril era "o banheiro que, muitas vezes, obrigava a mergulhar, para usufruirmos dos benefícios dos banhos de água salgada". Nessa época, os colonos do Século preferiam jogar na areia, por exemplo, ao prego.

Dentro dos muros da colónia jogavam à bola - os meninos de Lisboa contra os meninos de fora - "havia os namoricos, iam lá palhaços". E depois tocava o sino para a hora das refeições. "O cozinheiro tocava o sino e era uma alegria. De facto não estávamos habituados a tanto luxo, a ter tudo limpinho, descanso e alimentação."

O cozinheiro que tocava o sino era o pai de Teresa Silva. Filha dos caseiros da colónia, pôde aproveitar durante 27 anos (altura em que saiu para casar) as férias junto de crianças de todo o país. "Aproveitei mais até aos 14 anos, depois tinha os meus amigos da escola, fora da colónia e já não estava tanto com eles", explica.

Aos 68 anos, recorda os 40 anos que os pais dedicaram à colónia. O pai era o cozinheiro e a mãe a responsável pelo refeitório. Era ela que tocava o sino - que ainda hoje está nas instalações e cuja função só há pouco tempo foi desvendada por Teresa - ao sinal do marido de que a comida estava pronta. "A minha mãe tocava o sino para chamar as empregadas e os vigilantes que estavam na praia. Chamávamos-lhe o sino da paparoca", conta.

A sua vida cruza-se com a da colónia e ainda hoje mantém amizades dessa época, como a amiga da Lourinhã que "depois de colona ainda chegou a ser vigilante". Na sua memória ficaram os momentos de festa e brincadeira quando havia a troca de turno das crianças. "Entre cada grupo havia sempre três ou quatro dias de folga, para limpar e arrumar tudo e receber novas crianças, e nessa altura eu e os filhos dos outros funcionários fazíamos todas aquelas travessuras da idade. Eram as brincadeiras mais malucas de pintar a cara, de nos mascararmos". De quem chegava, Teresa lembra que "vinham de todo o lado e muitas nunca tinham visto a praia".

Feira Popular pagava férias

Desde 1927, quando foi criada, a colónia já passou por diversas fases. Chegou a receber 1200 crianças, encerrou entre 2010 e 2013, e regressou. Agora acolhe em média 300 crianças, entre o regime aberto e a colónia residencial. Este ano, para assinalar os 90 anos, há mais vagas (para 600 crianças) e mais dias de férias.

Nascida da vontade do jornalista e então diretor do jornal O Século , João Pereira da Rosa, a colónia instalou-se numa antiga fábrica de conservas, mesmo em frente à praia. Até 1943, os custos eram assumidos pelo jornal, quando começou a ser difícil fazer esse financiamento, o administrador decidiu criar uma atividade que pudesse suportar os custos. Assim, nasceu a Feira Popular. O seu fim voltou a deixar a colónia em risco.

Neste momento, a Câmara Municipal de Cascais ajuda a comparticipar as férias das crianças mais carenciadas. O custo das atividades está estipulado por escalões, de acordo com o abono de família, explica Mafalda Morgado. Os ateliês de verão, em que as crianças vão dormir a casa, custam no escalão mínimo 35 euros, por semana, no máximo custam 75 euros. O preço inclui a alimentação e as atividades. Com o financiamento da autarquia, as famílias mais carenciadas pagam apenas cinco euros, por semana, e as crianças podem fazer dois turnos (ou seja, um mês). As crianças da colónia fechada (que funciona apenas em agosto), pagam 100 euros, por sete dias, no escalão mais baixo e 190 euros, no escalão mais elevado. Este preço inclui a estada.

"Tentamos que eles brinquem e aproveitem os meses de verão", sublinha a administradora da área social. Com estes apoios e o financiamento feito pelas próprias famílias, a instituição consegue assim "manter a tradição". "Acreditamos que conseguimos fazer aquilo para que esta casa foi criada", aponta Mafalda Morgado.

A mudança nos regimes das colónias, também é justificado pelas "mudanças da sociedade", lembra a responsável. Neste momento, as crianças que vêm para as colónias fechadas são encaminhadas por instituições particulares de solidariedade e juntas de freguesia, embora as famílias também se possam inscrever individualmente para esta modalidade.

A marca que começou como colónia de férias também já se estendeu a outro tipo de apoio, como a cantina social. E até ao alojamento low cost.

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