Do futebol ao combate à droga

Helgi Valur Daniélsson. Antigo jogador de futebol que jogou no Belenenses e que atualmente trabalha no Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, em Lisboa.

Podia muito bem ter sido a vista do Estádio do Restelo uma das razões para se ter fixado em Portugal. O islandês Helgi Valur Daniélsson, hoje com 35 anos, chegou ao nosso país em julho de 2013 para vir representar o Belenenses, na altura longe de imaginar que iria acabar por ficar por cá a viver. Jogou uma temporada no Belenenses (31 jogos, 25 a titular e um golo marcado), mas logo no início da época 2014--15, por motivos familiares, rescindiu o contrato e transferiu-se para uma equipa dinamarquesa, onde colocou termo à carreira. Acabou por regressar. Hoje, o antigo médio defensivo, que nasceu na Suécia, mas tem nacionalidade islandesa, trabalha no Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, em Lisboa, e vive com a mulher e as três filhas no Estoril.

"Porque fiquei por cá? Bem, gosto do vosso país. Vim para jogar no Belenenses, entretanto inscrevi as minhas três filhas na escola e fizeram amizades. A minha mulher, que no início sentiu algumas saudades de casa, arranjou emprego como professora. Faltava eu. Deixei de jogar mas entretanto também arranjei emprego. Tudo se conjugou e cá estamos", contou ao DN o antigo internacional pela Islândia, fã confesso do Liverpool e do antigo internacional Steven Gerrard, que apesar de entender português prefere ainda expressar-se em inglês.

Daniélsson jogou cinco anos em Inglaterra, no modesto Peterborough United, entre 2008 e 2013. Mas decidiu interromper a carreira de futebolista profissional durante três anos para se dedicar aos estudos. Licenciou-se em Química (a área em que sempre quis trabalhar quando terminasse a carreira de futebolista), mas o bichinho do futebol fê-lo voltar a jogar ao mais alto nível.

Assinou pelo Oster, da Suécia, depois pelo Elfsborg, Hansa Rostock, da Alemanha e AIK da Suécia. Seguiu-se o Belenenses. "Foi uma época complicada no Restelo, em que lutámos pela permanência, mas muito enriquecedora. Foi também durante esse ano que eu e a minha família nos habituámos à cultura e à realidade portuguesas, muito diferentes do que estávamos habituados."

A química sempre o fascinou. E por isso agora que o futebol já pertence ao passado está a tirar um mestrado na área das drogas, conjugando os estudos com o seu trabalho no Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. "Estou a tirar um mestrado e a especializar-me em drogas ilegais, em substâncias novas que vão aparecendo no mercado. Deram-me a oportunidade de trabalhar no Observatório e estou muito satisfeito com a experiência. Neste momento estou a preparar a tese e espero conseguir conciliar as duas coisas. Não será fácil, mas quero fazer as duas coisas, até porque se complementam", indicou.

No Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, situado no Cais do Sodré, a missão de Daniélsson é "monitorizar novas drogas que entram no mercado, drogas sintéticas". "Estamos em permanente contacto com todos os países da União Europeia e trocamos informações sobre novas substâncias. A nossa missão é prevenir", conta.

Daniélsson foi várias vezes internacional pela Islândia, país que nos últimos anos, graças a uma grande aposta feita no futebol, evoluiu bastante, com o ponto alto desse trabalho a surgir no Europeu de França, onde a equipa treinada pelo sueco Lars Lagerback só caiu nos quartos-de-final, diante da anfitriã França, depois de ter passado a fase de grupos no primeiro lugar (à frente de Portugal, com quem empatou) e de ter eliminado a Inglaterra nos oitavos-de-final. Emoções que Daniélsson viveu em... Portugal. "Assisti ao jogo contra a vossa seleção em casa, na companhia de vários amigos. Obviamente torci pela Islândia, a seleção que representei. Mas na final estava por Portugal. Foi fantástico! Fizemos uma festa enorme quando Portugal venceu a França e se sagrou campeão da Europa. Grande feito."

Os elogios a Portugal são muitos. O bom tempo, a gastronomia... mas há um aspeto que o antigo jogador faz questão de destacar. "Posso falar de tanta coisa... é um ótimo país para se viver. Mas gosto sobretudo das pessoas. Sabe, fizemos cá grandes amigos, sentimo--nos em casa. Além disso é um bom país para vermos os filhos crescer. As minhas filhas adoram estar cá. As pessoas são amáveis e prestáveis", atirou.

Quando o assunto é a gastronomia, Daniélsson não hesita. "Adoro o vosso peixe, especialmente lulas, polvo e camarões. O peixe é fresco e muito barato comparativamente à Islândia, onde vivi antes." O mar é outras das paixões de Daniélsson, que quando deixou de jogar futebol começou a praticar surf: "Comecei a fazer no ano passado e vou continuar. Moro no Estoril e estou perto de grandes spots onde é possível praticar, com boas ondas, o que é fantástico."

Mas será que a estada em Portugal será para sempre? Ou está nos planos do antigo jogador regressar a Inglaterra (a terra da mulher) ou ao Norte da Europa? "Bem, é difícil responder neste momento. A nossa ideia é ficar em Portugal por agora. Mas vai depender de muita coisa, sobretudo de mantermos ou não o emprego", perspetivou.

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