De padrinho de casamento a mulher confusa

"Em tempos, ela e eu tínhamos namorado em festas em que tocavam os álbuns dos Grateful Dead e em que todos acabavam, em algum momento da noite, deitados de costas num campo de milho a ver as estrelas."

Fizemos uma pausa a seguir ao primeiro conjunto de músicas. A minha amiga Laura, a vocalista, e eu aproximámo-nos do bar. Eu pedi um cosmo. Ela, um Dark "n" Stormy. Eu era uma mulher há cerca de um ano ou dois. Tudo era ainda novo naquela altura.

Um sujeito com um aspeto esquisito aproximou-se de nós. Declarou que gostava do meu cabelo. Depois perguntou-me: "Diga-me uma coisa, o seu pai era um ladrão?"

"Um ladrão? Não, o que quer dizer com isso?"

Laura olhou para mim e sorriu.

"Bom, eu não sei, Jenny", disse ele. "Mas alguém deve ter roubado duas estrelas e posto nos seus olhos."

"Oh, você é muito simpático", respondi. "É muito amável da sua parte dizer uma coisa dessas."

"Oh, pelo amor de Deus", disse Laura, pousando a bebida. Ela agarrou-me a mão e puxou-me, com força, na direção da casa de banho das mulheres.

"Oh, você é muito simpático, é muito amável da sua parte?", imitou-me ela com incredulidade.

"Eu disse alguma coisa errada?"

"Jenny Boylan, o que se passa contigo? Não é assim que se responde a um tipo daqueles."

Eu estava confusa. Parecia uma coisa simpática para um estranho dizer. Apesar de eu ter crescido e ter feito parte da sociedade como homem, desde que me assumi como transexual aos 40 anos, a minha amiga Laura tinha assumido como sua a tarefa de me ajudar a integrar o mundo das mulheres no qual eu tinha aterrado.

"Não é?", perguntei. "Então, o que é que eu digo?"

Laura levantou as mãos num gesto sugestivo e explicou. Ela disse que eu deveria tê-lo mandado dar uma volta.

"A sério? Ele até parecia simpático."

"Oh, Jenny, o que é que eu hei de fazer contigo?"

Embora eu tivesse tido a certeza da minha identidade feminina desde os 4 ou 5 anos até finalmente a ter assumido, uma das ironias da minha experiência transexual era eu nunca ter tido a experiência de ser uma mulher no mundo real. Já tinha aceitado que havia algumas coisas que nunca iria conseguir fazer decentemente, como, por exemplo, uma trança. Mas pior do que isso era o facto de eu não saber como lidar com os homens, apesar de ter sido um deles (mais ou menos) durante quase quatro décadas.

Depois de todos esses anos, eu estava subitamente do outro lado e era eu a recetora dos olhares masculinos. Tinha desfrutado - de forma simplista e superficial - a validação que isso me dava, pelo menos a princípio. Mas, em breve, a validação transformou--se em irritação. Parecia que de repente eu tinha chegado a um mundo em que os homens eram incapazes de me deixar em paz.

Eu tinha sido uma feminista antes da transição, por isso as muitas maneiras pelas quais as mulheres se sentem vulneráveis e inseguras neste mundo não foram propriamente uma novidade chocante para mim. Mas é diferente quando se passa connosco.

Não foi imediato, mas com o tempo aprendi, como Laura havia sugerido, como dizer a certos homens que não estava interessada nas suas aproximações. Mas, se me acostumei a erguer as minhas defesas no que respeita à atenção indesejada de estranhos, houve uma coisa que demorou mais, algo que de certa maneira ainda não resolvi.

E isso era a maneira como tinham mudado as minhas amizades com os homens. Alguns tinham sido meus amigos desde a infância, outros eu conhecera na idade adulta. Mas, em quase todos os casos, gerir a diferença entre uma amizade entre homens, e entre um homem e uma mulher adultos acabou por ser mais complicado do que eu esperava.

O meu amigo Curly, por exemplo. Conhecia-o desde a faculdade. Alguns anos depois da minha transição, tínhamo-nos encontrado em Roma enquanto eu estava a fazer um artigo para uma revista de viagens. Visitámos o Vaticano, atirámos moedas para a Fonte de Trevi, e brincámos com os sujeitos vestidos de gladiador no Coliseu. À tarde, eu ajoelhei-me perante o túmulo do poeta John Keats e chorei.

Mais tarde, de volta ao hotel, Curly virou-se inesperadamente para mim e disse que tinha "um presente" para me dar. Eu ainda não tinha dormido com um homem naquela fase da minha vida, e, dada a minha longa história com Curly (eu tinha sido seu padrinho de casamento), não tinha percebido que isso poderia mudar.

No entanto, Curly tinha pensado no assunto. Lá, no nosso quarto de hotel em Roma, ficou claro que aquele "presente" era na verdade algo que eu poderia fazer por ele. A sua oferta fez-me lembrar, num contexto completamente novo, os versos do soneto de Keats: "Vê-a, aqui está. Eu estendo-a para ti."

Eu recusei. Mas mais tarde, enquanto estava ali deitada na cama a ouvi-lo ressonar, perguntei-me se, entre os privilégios masculinos a que eu havia renunciado com a transição, um certo tipo de intimidade sem romance com homens heterossexuais teria sido a primeira coisa a ir. De agora em diante, mesmo entre os homens de quem eu tinha sido (e de certa forma ainda era) mais próximo, pairava agora no ar o aroma não muito distante da sexualidade.

Noutra ocasião, houve uma complicação com o meu amigo Rick. Tínhamos sido amigos desde que partilháramos um escritório no Colby College, no Maine, no início dos anos 90, quando ambos lá trabalhávamos.

Um fim de semana em que a sua mulher estava fora da cidade, eu fui a casa dele em Camden para jantarmos e pormos a conversa em dia. Quando voltávamos de um bar local encontrámos um amigo dele, um homem que eu já conhecia, mas que não me reconheceu no meu estado atual. Poucos dias passados começou a circular o rumor de que, enquanto a sua mulher estava fora, Rick tinha sido visto a passear com uma mulher loira desconhecida.

"Eu disse-lhes: "Aquela não era uma mulher, era Boylan!"", disse Rick com uma risada.

Eu ri-me do absurdo da situação. Mas admito que fiquei também levemente magoada. "O que querias dizer com "aquela não era uma mulher?"", perguntei.

"Tu sabes o que eu queria dizer", respondeu ele, corando.

"Sei?"

Se as minhas amizades com homens heterossexuais se tornaram mais complicadas, com as minhas amigas tornaram-se mais íntimas. Quando voltei à minha cidade natal para uma reunião da escola secundária, descobri, para minha surpresa, que quem melhor me recebeu foram as mulheres que eu conhecera quando era um rapaz.

"É como se finalmente te conseguisse entender", disse Sally, a minha namorada do 11.º ano.

É justo dizer que não tinha sido esse o caso naquela época. Em 1974, eu não tinha querido dela os tipos específicos de favores que o meu amigo Curly, décadas mais tarde, iria querer de mim. Tudo o que eu sempre quis, então como agora, era estar apaixonada.

"É tão bom ter-te agora como amiga", disse Sally.

Em tempos, ela e eu tínhamos namorado em festas em que tocavam os álbuns dos Grateful Dead e em que todos acabavam, em algum momento da noite, deitados de costas num campo de milho a ver as estrelas. Tinha sido, como a banda certa vez afirmou, uma longa e estranha viagem.

A minha amiga Laura recuperou o seu Dark "n" Stormy, voltámos as duas para a pista de dança principal e conversámos com Erica, a baterista. Mais tarde, subimos juntas ao palco e tocámos o alinhamento final. Depois, arrumei os meus teclados e tirei os amplificadores dos tripés.

O marido de Laura, Tom, o baixista, desmontava as luzes com Jack, o guitarrista. Eu conhecia aqueles tipos há anos. Tínhamos sido homens juntos, até um certo ponto.

Agora, eles viam-me a lutar com o meu amplificador, um velho Peavey que pesava quase 40 kg.

"Espera aí, Jenny, deixa-nos ajudar a carregar isso", disse Tom, vindo em meu socorro.

"Eu consigo", respondi irritada, sentindo-me insultada, como se agora que eu era mulher eles me considerassem uma fraca, ou pior, alguém demasiado incompetente para levar o meu próprio amplificador para o carro.

Por outro lado, a maldita coisa era pesada, e o estrogénio tinha cobrado os seus efeitos na minha força de braços.

"Vá lá, Jenny, deixa-nos ajudar", disse Jack.

Pousei o Peavey. "OK..." Tinha de admitir que era pesado, e eles eram fortes.

"Tem aí bons amigos", disse o dono do bar, observando-os a carregarem o amplificador até ao meu carro. A verdade é que, se as minhas amizades com os homens eram diferentes agora, havia algumas coisas em que elas tinham mudado para melhor. Tom e Jack não tiveram realmente uma oportunidade, quando eu era homem, para demonstrarem o seu afeto por mim. Mas agora tinham.

"É verdade", respondi-lhe. "Eles sempre me apoiaram."

Jack e Tom voltaram a entrar.

"Obrigada", disse-lhes. Erica, Laura e eu cumprimentámo-los e, por um momento, reunimo-nos todos num grande abraço.

Ali estávamos nós, cinco amigos, homens e mulheres. Os anos haviam deixado as suas marcas em todos nós. Nenhum de nós era a mesma pessoa que tinha sido em tempos. Mas ainda éramos uma banda.

O último livro de Jennifer Finney Boylan, Long Black Veil: A Novel, será publicado neste mês.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG