Contos de fada são mais antigos do que se pensa: vêm da Idade do Bronze

Estudo durou dois anos e os autores analisaram 275 tipos de contos em 50 populações indo-europeias

A origem de alguns contos de fadas é mais antiga do que se pensa e remonta até à Idade do Bronze, há cerca de 6000 anos, segundo um estudo internacional coassinado pela investigadora portuguesa Sara Graça da Silva.

Publicada hoje, na revista Royal Society Open Science, a investigação de Sara Graça da Silva e do antropólogo Jamie Tehrani determinou que, recorrendo a métodos da biologia, algumas histórias de transmissão oral "têm heranças ancestrais comuns", que remontam a um período de 2500 a 6000 anos.

"A origem dos contos tradicionais tem sido um dos temas mais discutidos e é um dos maiores mistérios da área. Alguns defendem que tem uma origem literária recente, do século XVI", explicou à agência Lusa Sara Graça da Silva, investigadora do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT), da Universidade Nova de Lisboa.

O que a investigadora portuguesa e o antropólogo Jamie Tehrani, do Reino Unido, fizeram, foi recorrer a métodos filogéneticos - utilizados em Biologia para comparar espécies - para traçar uma árvore linguística no que toca às histórias que são transmitidas pela oralidade.

Para este estudo, que durou dois anos, os autores analisaram 275 tipos de contos em 50 populações indo-europeias, o que permitiu ver como é que a distribuição era feita e se a transmissão podia ser prevista pela proximidade geográfica e linguística.

Os autores identificaram 76 casos, entre os quais as histórias "A bela e o monstro" e "The smith and the devil", que têm essa herança ancestral comum, muito anterior ao que tem sido discutido.

Segundo Sara Graça da Silva, os resultados desta investigação vão ao encontro da tese dos irmãos Grimm, que defendiam que as raízes dos contos é muito antiga.

Para a investigadora portuguesa, este estudo é um contributo numa perspetiva evolutiva para essa discussão sobre a antiguidade dos contos populares, de fadas ou ditos tradicionais, que passam de geração em geração, são contados e recontados há centenas de anos.

"O nosso alcance vai além dos debates sobre a origem, pode interessar até do ponto de vista da linguística, da genética. Os contos são muito desconsiderados, mas é incrível [o contributo] para o estudo do comportamento humano, sobre a tomada de decisões, sobre a moral. Muitos dos temas são universais, sobre a punição, a recompensa, a morte, a moral e a imoralidade", disse.

Formada em Humanidades, Sara Graça da Silva é investigadora do IELT desde 2013.

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.