Confissões religiosas ansiosas por abrir portas, mas o digital veio para ficar

Menos contacto pessoal, mais meios digitais, mais pedidos de ajuda por parte dos fiéis. Este é um retrato do último ano para várias confissões religiosas em Portugal, que tiveram de se reinventar com a covid-19. Esperança é a palavra de ordem.

As portas dos templos das várias comunidades religiosas em Portugal estão, na grande maioria, fechadas há quase um ano, por força da covid-19: seja devido às medidas impostas pelo governo ou por decisão das próprias comunidades, seguindo as orientações das autoridades de saúde. Uma nova realidade que levou à adoção de meios digitais para conseguir chegar aos fiéis.

"No primeiro confinamento, de março a final de maio, as igrejas podiam estar abertas, mas não tivemos celebrações. Nesse período houve um incentivo muito grande, com toda a criatividade, e qualidade também, das transmissões por via digital", diz o padre Manuel Barbosa. "Não é a mesma coisa, porque a celebração da eucaristia, naturalmente, é presencial", prossegue o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa. Depois de maio, a Igreja Católica voltou às missas presenciais, embora nunca deixando o digital, mas com o novo confinamento as portas voltaram a fechar-se. "É dessa forma que vamos vivendo", desabafa o sacerdote, antes da anunciada reabertura das missas, esta segunda-feira.

As Testemunhas de Jeová, conhecidas pelos congressos que reúnem milhares de pessoas, deixaram de ter reuniões presenciais a 13 de março de 2020 e passaram a fazê-las por videoconferência. Este tem sido também o meio adotado por evangélicos e presbiterianos. Na comunidade muçulmana, o uso das redes sociais já não era uma novidade, mas esta nova realidade encontrou alguma resistência. "Não foi fácil, porque, por exemplo, na oração que nós fazemos em congregação juntamos ombro com ombro. Uma das primeiras coisas foi que essa junção não era possível. Foi violento. Não haver a oração de sexta-feira, o dia sagrado para os muçulmanos, nas mesquitas foi ainda muito mais violento espiritualmente para a minha congregação, mas tivemos de ser assim, fomos firmes, no início tivemos algumas críticas por parte dos muçulmanos, mas fomos firmes", explica David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa.

Com o problema da ligação aos fiéis resolvido com a ajuda das novas tecnologias, este último ano trouxe o desafio de como se conseguir manter os crentes em tempos de pandemia. E aqui as opiniões divergem. "É muito difícil. Porque mesmo que nós consigamos estar numa plataforma com várias pessoas, há qualquer coisa de descontinuidade em tudo isso. E a experiência que nós temos é que há muitas pessoas que hoje, mesmo não sendo infoexcluídas, não se sentem bem a ter um culto naquela situação. E não vão", diz Paulo Silva, presidente da Igreja Presbiteriana de Portugal e vice-presidente do Conselho Português de Igrejas Cristãs.

A estratégia das Testemunhas de Jeová passa pelo contacto. "Nós estamos estruturados localmente em congregações e nas congregações há uma preocupação de contactar semanalmente, por telefone, às vezes por videochamada, os fiéis. E, dessa forma, através desse contacto, procuramos saber do seu bem-estar, não apenas espiritual", explica José Alberto Catarino, porta-voz para Lisboa e Vale do Tejo das Testemunhas de Jeová em Portugal.

Já David Munir ressalva que têm tido pessoas "que começaram a interessar-se ainda mais pelo Islão e, muitas vezes acompanhando as nossas conversas, há situações em que a própria pessoa faz uma pesquisa, está em casa sem fazer nada, praticamente, e vai aprendendo algo que achou que era um conhecimento que não tinha".

Na mesma linha, António Calaim, o líder da Aliança Evangélica Portuguesa, garante que têm "tido pessoas novas, mas também pessoas que acabam por ficar um pouco desesperadas com a situação e, mesmo com os apoios, se fecham em si próprias. Não são tantos, mas existem alguns".

"A situação é muito difícil, não é? Penso que, no geral, a pandemia não leva a uma descrença, só se a pessoa já não acreditasse antes. Claro que a quantidade de presenças no retomar das celebrações não era a mesma, em quantidade de participantes, até porque há mais espaçamento nas igrejas. Mas, ao mesmo tempo, há uma proximidade muito grande nas paróquias", declara Manuel Barbosa.

Mais pedidos de ajuda

A relação entre as comunidades religiosas e os seus fiéis vai para lá da espiritualidade. E essa vertente mais terrena tem sido bastante evidente nestes tempos de pandemia, com o aumento dos pedidos de ajuda que as igrejas têm recebido, desde necessidades alimentares, de medicamentos ou problemas em pagar contas. "Sei que tem havido um aumento exponencial muito grande desse tipo de pedidos. Tem havido esse apoio por parte das dioceses, das paróquias, das instituições, principalmente a nível da alimentação, a nível das despesas das pessoas, às vezes até o pagamento dos medicamentos, até com outras despesas que têm a ver com a vida de cada dia", refere o padre Manuel Barbosa, chamando a atenção também para o trabalho que tem sido feito pela Cáritas.

"Antes nós tínhamos um número certo de pessoas que sabíamos serem dependentes, então sabíamos que tínhamos de subsidiar essas pessoas. Hoje há jovens que perderam o emprego, têm dificuldades em pagar a renda, água e luz. Está a ser difícil. Nós tentamos ajudar as pessoas, mas é impossível ajudar todas", desabafa o imã da Mesquita Central de Lisboa, ressalvando que "tentamos nunca dar dinheiro à pessoa, tentamos concretizar, na medida do possível, aquilo que a pessoa pede". David Munir refere ainda uma questão que acaba por ser transversal a todas as comunidades religiosas. "As mesquitas estão fechadas, os crentes não vêm, não há donativos, não temos entradas. Ou as entradas são muito limitadas. E temos que tentar dividir o bolo por todas as pessoas".

Com a vacinação em curso, já se sonha com o regresso à vida normal, com o fim do distanciamento social. Mas será que a relação entre religião e fiéis vai voltar a ser a mesma? "A experiência adquirida nesta fase vai fazer com que muitas coisas se continuem a passar de forma digital, não tenho muitas dúvidas quanto a isso. Sei que há igrejas que vão reabrir e vão ter os seus cultos ao domingo como habitualmente tinham, mas vão continuar a ter, por exemplo, a meio da semana, encontros de estudo bíblico feitos online com as famílias a assistirem do outro lado. Não tenho dúvidas de que isso vai acontecer e isso é uma mais-valia", vaticina o líder dos presbiterianos.

"Será uma continuidade do que já existia, mas será melhor. Mas penso que com todas as pessoas, não só as testemunhas de Jeová", diz o porta-voz desta confissão. "Penso que emocionalmente será bom para todas as pessoas, será muito bom esse reencontro. Mas é importante a prudência e o resguardo até lá", prossegue José Alberto Catarino.

"Eu acho que a relação entre as pessoas poderá melhorar muito mais, iremos valorizar mais o ser humano, mas a nossa convivência, isto é, este distanciamento físico, irá manter-se ainda durante mais algum tempo, porque as próprias pessoas... e o medo, é muito difícil de você retirar o medo", refere o imã da Mesquita Central de Lisboa. "Eu diria que o uso sistemático destes meios telemáticos, vamos continuar a usá-los muito mais do que fazíamos antes. Por outro lado, estamos todos ansiosos por voltarmos, acima de tudo, à interação física", defende o líder dos evangélicos em Portugal. "As previsões são sempre difíceis de fazer, mas acreditamos com toda a confiança que quando isto passar, e oxalá que seja o mais breve possível, iremos retomar naturalmente com a presença física nas celebrações", diz o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa. "Mas vai ser um desafio também grande, porque pode haver uma habituação grande a estes meios digitais e as pessoas podem pensar que estão bem assim", declara o padre Manuel Barbosa.

Uma mensagem de esperança

E qual é a mensagem que deixam para este ano? "A mensagem que a comunidade islâmica de Portugal quer dar a todos em 2021 é que é um ano muito diferente de todos os outros", afirma o imã da Mesquita Central de Lisboa. "E como encarar essa situação toda? Como crentes que somos, com paciência e muitas orações para que a situação volte à normalidade", acrescenta David Munir.

"Em 2021, queremos continuar a afirmar que o mais importante é termos como referência uma pessoa, que é a pessoa de Jesus Cristo", garante o líder da Aliança Evangélica Portuguesa. "Não temos que fazer o mesmo que ele, mas nas nossas profissões sermos exemplos de amor, de integridade e, por vezes, de denúncia daquilo que está mal na nossa sociedade", prossegue António Calaim.

Já para o padre Manuel Barbosa, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, "a mensagem é muito diversa, mas no essencial é uma mensagem que é de esperança, de confiança, perante esta situação gravíssima que estamos a passar com a pandemia, mas devemos manter esta esperança, esta confiança, de que as coisas vão mudar com o esforço de todos".

Na opinião de Paulo Silva, líder da Igreja Presbiteriana em Portugal, este ano vai demonstrar que "as comunidades religiosas continuam a ter uma importância muito grande do ponto de vista de acompanhar as pessoas no domínio daquilo que é a sua própria humanidade, a sua própria espiritualidade, o seu próprio sentir, a sensação que as pessoas têm de ter nesta altura de que estão acompanhadas, que não estão propriamente sozinhas a viver os medos, as angústias, as incertezas que decorrem de uma circunstância pandémica".

"A mensagem da Bíblia. A mesma mensagem que, ao longo do tempo, nós temos transmitido aos nossos vizinhos, às pessoas na comunidade. Uma mensagem, particularmente nesta ocasião, de esperança e, ao mesmo tempo, de consolo", diz José Alberto Catarino, porta-voz para a região de Lisboa das Testemunhas de Jeová de Portugal.

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