Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa
Hospital de São Francisco Xavier, em LisboaGustavo Bom

Compressas esquecidas após partos em duas mulheres no Hospital São Francisco Xavier

"A verificação de duas situações idênticas, num tão curto espaço temporal (dois meses), evidencia uma fragilidade significativa nos protocolos assistenciais implementados", considera o Regulador.
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O Hospital São Francisco Xavier deixou esquecidas compressas vaginais após o parto em duas mulheres, o que levou o regulador a alertar para a necessidade de ser garantido o direito dos utentes a receber cuidados mais corretos.

A primeira reclamação à Entidade Reguladora da Saúde (ERS) foi feita em 24 de fevereiro de 2025 e a segunda em 12 de maio do mesmo ano, queixas que motivaram a abertura de um processo de inquérito, cujas conclusões foram conhecidas esta terça-feira, 3 de março.

Num dos casos, a compressa esquecida foi detetada pela própria utente seis dias depois de ter recebido a alta hospitalar, enquanto no segundo decorreram 26 dias desde o parto, segundo a deliberação da ERS.

“É certo que a verificação de duas situações idênticas, num tão curto espaço temporal (dois meses), evidencia uma fragilidade significativa nos protocolos assistenciais então implementados na Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental (ULSLO), comprometendo a efetiva salvaguarda da qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados”, concluiu a ERS.

Na resposta ao regulador sobre estes casos, o hospital informou ter implementado medidas corretivas para evitar situações semelhantes, através da elaboração de “medidas de prevenção e controlo de retenção de materiais clínicos no canal de parto”, destinadas às equipas médicas e de enfermagem que integram o serviço de urgência obstétrica e ginecológica e bloco de partos.

Apesar disso, a ERS emitiu uma instrução à ULSLO para que garanta que são “respeitados os direitos e interesses legítimos dos utentes, em especial o direito aos cuidados mais adequados e tecnicamente mais corretos, seguindo as boas práticas de qualidade e segurança em saúde”.

Além disso, o hospital deve assegurar que todos os instrumentos e ou compressas utilizados no decurso de qualquer intervenção são devidamente contados e registados no processo clínico dos utentes e corretamente removidos previamente à sua alta, adiantou.

Suspeita de AVC com sete horas de espera

A ERS emitiu ainda uma instrução à Unidade Local de Saúde Santa Maria, na sequência do caso de uma utente que deu entrada nas urgências em 03 de abril de 2024 com suspeitas de um AVC e que só teve a primeira observação médica cerca de sete horas após a triagem.

Segundo a entidade reguladora, a utente foi triada às 14:21 com pulseira amarela (urgente) e só “pelas 21:33 teve a primeira observação médica”, altura em que foi ativada a Via Verde AVC, quando o tempo de atendimento estipulado para situações urgentes é de 60 minutos.

“Refira-se que a utente não se encontrava monitorizada por qualquer profissional, nem tampouco foi sujeita a retriagem, o que de resto era a atuação obrigatória após ultrapassado o tempo alvo para observação clínica (60 minutos)”, salientou a ERS.

A ULS Santa Maria referiu que, no dia em causa, verificou-se um “elevado número de doentes” – 384 – que recorreram ao serviço de urgência, que fez com que o tempo de observação não fosse o expectável, e assegurou que o “timing´ de observação [da utente] não alterava a abordagem efetuada”.

Na sequência deste caso, a ERS emitiu uma instrução à ULS Santa Maria para que garanta também que, entre outras medidas, “sejam respeitados os direitos e interesses legítimos dos utentes, nomeadamente, o direito aos cuidados adequados e tecnicamente mais corretos, que devem ser prestados humanamente e com respeito pelo utente”.

Processo de contraordenação ao Kastelo

A ERS abriu um processo de contraordenação à Associação Nomeiodonada, que explora a unidade de cuidados continuados e paliativos pediátricos Kastelo, ordenando-lhe que cumpra as instruções dadas na anterior fiscalização de 2020.

Numa deliberação do último trimestre do ano passado, conhecida esta terça-feira, a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) recorda que o Kastelo, em Matosinhos, já tinha sido alvo de um processo de inquérito aberto em 2019, que resultou numa série de instruções que a associação que gere a unidade se comprometeu a cumprir.

Depois de ter recebido novas denuncias anónimas – entre outubro de 2024 e junho de 2025 -, a ERS promoveu em julho do ano passado uma ação de fiscalização ao Kastelo, tendo confirmado que não cumpria “os requisitos mínimos” de funcionamento das unidades de internamento e ambulatório de cuidados integrados pediátricos.

A ERS insiste no facto de a associação Nomeiodonada ter desrespeitado a decisão anterior por si emitida, tendo por isso aberto um processo de contraordenação.

Em outubro do ano passado, noticias divulgadas pelo Jornal de Notícias (JN) revelaram buscas do Ministério Público, PSP e peritos da Medicina Legal no Kastelo, em Matosinhos, por suspeitas de maus tratos.

Nas buscas de outubro, segundo escreveu na altura o JN, foram encontrados bens alimentares fora de prazo há bastante tempo, assim como medicação fora da validade.

Também no ano passado, em julho, a Inspeção-Geral de Atividades em Saúde (IGAS) anunciou ter instaurado uma inspeção à unidade de cuidados pediátricos, na sequência de denúncias anónimas recebidas.

A unidade já tinha sido alvo, há seis anos, de denúncias de maus-tratos e negligência a crianças, abuso de poder e assédio laboral a funcionários.

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