Responde pelo nome de Vítor Manuel Antunes Fernandes Nunes, ou tão só pelo de Vítor ou Dr. Vítor Nunes. Hoje, com 63 anos, olha para trás e reconhece ser um dos filhos de abril. “Foi graças ao 25 de abril que sou médico. Venho de uma família muito humilde e se não fosse a revolução não teria conseguido estudar”. Não é que tal interesse para o caso específico sobre o qual aceitou falar com o DN, mas, justifica, “para mim é importante, porque a minha história pessoal explica a minha cultura de exigência em toda a minha carreira”. Estudou no Liceu Gil Vicente, em Lisboa. Era bom aluno a Matemática, mas o estudo do corpo humano também o fascinava e foi Medicina que escolheu seguir. Corria a década dos anos de 1980, quando ingressou na Faculdade de Ciências Médicas, no Campo Santana. Foi um dos 110 que entraram pelos numerus clausus, com média de 16.6. Foram seis anos de formação teórica mais o internato da especialidade no Hospital de Vila Franca de Xira, ao mesmo tempo que dava aulas no Liceu Gil Vicente e tirava um curso no Instituto de Medicina Legal, porque “sempre gostei muito da perspectiva legal das questões”. O fim do internato coincidiu com a abertura do Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) e aceitou ficar como prestador de serviço, mas em 1997 integra os quadros. Como diz, foi ali que cresceu como médico e cirurgião, aprendendo com “alguns dos melhores do país”. De médico passou a diretor de serviço. Foram 13 anos, até sair e passar por aquilo que diz ter sido “um assassinato de carácter”. Três anos depois do caso, quer recuperar o que diz que lhe foi tirado: “A minha honra.”. Porque aceita agora falar sobre um caso que fez correr tinta e que o deixou mal visto? Não me deixou mal visto. Eu fui vítima de um assassinato de carácter. E a verdade não pode ser escamoteada. Hoje percebo que o meu silêncio, que foi uma escolha consciente, porque havia processos em curso em várias instituições, serviu para distorcer os factos e criar uma narrativa falsa. Achei sempre que os canais institucionais iriam dar resposta atempada e fazer justiça, mas já lá vão quatro anos. É muito tempo. E, hoje, magoa-me muito perceber que destruíram um indivíduo (eu próprio) que tinha tornado o SNS como um projeto de vida. Estou com 63 anos e gostava de ver a minha honra reposta, até para a minha família perceber que vale a pena lutar por ideais. Vamos começar pela carta que enviou à diretora clínica, em janeiro de 2023, onde denunciava 15 casos de má prática em tratamentos aos doentes e foi noticiada no Expresso. Na altura, ficou a saber-se também que tinha sido diretor daquele serviço, depois de “acusações” de bullying. Houve quem dissesse que a denúncia era uma “vingançazinha”. Foi mesmo? Não, muito longe disso. A denúncia foi feita única e exclusivamente à diretora clínica, não sei como surge na comunicação social e nada tenho a ver com isso. Depois, a carta resulta de factos muito concretos, de princípios e valores que considerei que não estavam a ser defendidos em relação aos doentes, e ocorre depois de ter assistido a várias situações no serviço em que se discutiram casos de mortalidade que para mim eram inaceitáveis. E quando confronto os colegas sobre alguns factos, sou mandado calar. Disseram-me mesmo que não podia falar.Que tipo de situações? Situações que considero graves, como uma intervenção cirúrgica num doente que tinha uma situação clínica muito complicada e para a qual deveriam ter sido escolhidos os melhores cirurgiões, mas foi realizada por um interno do último ano. Durante a intervenção, o caso complicou-se mais, tratava-se de uma necrose pancreática numa jovem de 30 e poucos anos, e ele próprio diz na reunião de serviço que tinha telefonado ao especialista para perguntar o que fazia e que não conseguiu falar com ele. Fiquei estupefato. Perguntei o que havia para discutir naquele caso? Se um especialista não atendia, porque não foram contactados outros do serviço? O diretor do serviço mandou-me calar, disse que não era assim que se tratavam as pessoas. Mais uma vez, fiquei estupefato. Falava-se de uma doente com 30 e poucos anos. Estupefato por ter sido um interno a fazer a intervenção ou por ter sido mandado calar?Por tudo, sobretudo pela doente. Mas também porque o que estava a acontecer, não havia escrutínio. Não havia avaliação do erro. Não era o erro em si que estava em causa, mas a forma como se estava a olhar para o erro. Foi um erro ter sido um jovem médico a fazer uma cirurgia que deveria ter sido feita por um especialista sénior, porque operar uma necrose pancreática, que é o pâncreas podre, é mais difícil do que operar um cancro do pâncreas. E, neste sentido, deveriam ter sido escolhidos os mais preparados. O interno da especialidade deveria ter estado presente e a participar para aprender com um especialista sénior. Mas o facto do jovem médico dizer que telefonou a um especialista para perguntar o que fazia, foi um absurdo. Era uma situação que, para mim, não poderia voltar a acontecer. E mandaram-me calar.A carta falava em 15 casos. Quais foram os outros?Um deles foi o de um doente que tinha sido operado e me pediram para ir ver aos Cuidados Intensivos. Era uma situação em que já nada havia a fazer, óbito. Fui e tive o interesse de saber o que tinha acontecido, porque essa era a minha obrigação. Eu era o chefe de equipa de cirurgia na urgência naquele dia. E o que vi deixou-me muitas dúvidas sobre o que levou a operar este doente, sobre o que aconteceu durante a intervenção e o que aconteceu depois. Foi uma intervenção cirúrgica onde se gastaram dez a 12 unidades de sangue, tendo-se percebido pelo relato dos jovens médicos que realizaram a intervenção que, a certa altura, tinham perdido o controlo da situação. Mas, neste caso, fiquei com a ideia que não tinham chamado nenhum colega especialista sénior para ajudar. E quando pergunto porque se operou um doente que não tinha queixas e porque não pediram ajuda a um especialista sénior, quem estava na sala disse-me para ser eu a descobrir o que se tinha passado. Peço o resultado da anatomia patológica e percebo que era um doente que nem deveria ter sido operado. Portanto, a opção tomada não foi a mais adequada. Na reunião de serviço, em que o caso estava a ser analisado, pergunto quando e com quem é que o caso tinha sido discutido para a decisão da intervenção, e todos disseram que não tinha sido com eles. Então, foi quem? Onde estava o escrutínio em relação às situações dos doentes? Onde estava a exigência e o rigor em cada caso?Mas fala de um serviço e de uma equipa que antes foi dirigida por si. Nunca existiram casos assim? Quando era diretor todos os doentes eram escrutinados e avaliados. Havia, naturalmente, momentos muito difíceis em que éramos confrontados com o erro. Era difícil para mim e para os outros, mas, enquanto fui diretor, o erro, fosse de quem fosse, também era meu, porque em última análise eu era o responsável máximo por tudo o que acontecia. Por isso mesmo, exigia que se analisasse todos os doentes e os seus casos e que se questionasse tudo. Porque se errou e o que tinha de ser feito para não voltar a acontecer. E, basicamente, foi isto que mudou. A direção do serviço não queria que discutisse os casos nas reunião? Não. E, neste caso, para mim era incompreensível ninguém saber quem e quando o caso tinha sido discutido ou por quem tinha sido tomada a decisão de operar. Perguntei várias vezes, por fim, assumo, de forma mais exaltada, não sou uma pessoa desprovida de emoções: ‘Porque se fez isto? Porque operaram um doente sem indicação para operar? Porque não chamaram um cirurgião sénior? Porque têm falta de humildade?’, disse mesmo isto. É quando o diretor de serviço diz: ‘Cala-te. Não é assim que se tratam as pessoas’. Fico estupefato. Foi muito difícil para mim, porque estava perante uma cultura de conivência, de falta de exigência e não o podia aceitar. Foi isso que aconteceu, conivência? É essa a sua visão?Ser médico e ser cirurgião implica ser-se exigente. Estamos a tratar de doentes, vidas humanas. E foi aí que decidi que tinha de fazer alguma coisa. Não podia aceitar, por exemplo, que num mês tivessem acontecido também quatro situações de lesões das vias biliares durante operações, que são lesões gravíssimas, e que ninguém perguntasse porque é que isto estava acontecer sempre com os mesmos cirurgiões? Porque não pararam todos para se questionarem sobre o que estavam a fazer de mal e como o podiam corrigir? Era inaceitável. A questão para mim, mais uma vez, não era o ter-se errado, não era o erro grosseiro, mas o não se discutir ou o não se escrutinar o erro e o que se estava a fazer. Mais grave: tentar esconder o que aconteceu. Fazer de conta que as situações não existiram. Não era assim que se fazia crescer os internos, o serviço ou o hospital. E foi isto que me levou a escrever a carta à diretora clínica. . O hospital e a Ordem nomearam um perito para avaliar estas situações, que concluiu pela “não existência de má prática”. Como explica isto? Só o senhor estava certo? Ficava muito admirado se os resultados dos dois inquéritos, o do hospital e o da Ordem dos Médicos, fossem diferentes, porque a pessoa que os conduziu foi a mesma. Foi o perito da Ordem que, na altura, era o presidente do Colégio da Especialidade de Cirurgia Geral, o dr. António Menezes e Silva, que me conhecia muito bem - porque fiz parte do colégio da especialidade durante dois anos - que liderou, como perito independente, os dois inquéritos. E devo dizer-lhe que foi um inquérito devastador e dramático para mim. Não vou dizer que está errado, mas vou dizer que, se calhar, o perito não avaliou tudo como deveria ter avaliado. Para começar, nunca me ouviu. E nas denúncias que fiz por escrito fui sempre muito cuidadoso, nunca deixei de referir o número do processo do doente, mas nunca disse o seu nome por questões de preservação dos dados. E quando refiro algumas situações, como: ‘Retiraram uma peça’, mas sem referir tumor, isto deveria ter sido um alerta, porque das duas uma: ou havia tumor ou não havia e era preciso ir à fonte, a quem investigou o caso, para se poder fazer uma avaliação clínica adequada. E o que o perito fez neste caso foi acrescentar “aspetos” que não constavam de nenhum relatório clínico e que acabaram por ser decisivos para a avaliação do caso.Que aspetos? O perito descreve o resultado de uma ecografia intra-operatória que não é aquele que constava do processo clínico do doente, que foi operado por haver indicação de tumor. Durante a operação foi feita a ecografia que confirmou a existência de tumor e que levou à retirada de parte do fígado, mas o resultado final da peça operatória não evidencia tumor e, sim, litíase intra-hepática num fígado normal. O perito, para justificar a intervenção cirúrgica, após o resultado de não haver tumor, faz referência a uma ecografia que demonstrou litíase e um fígado atrófico. Até hoje, não sei onde foi buscar este resultado, pois não constava do processo do doente. Considera então que o presidente do Colégio da Especialidade falhou? O relatório final da Inspeção Geral das Atividades de Saúde (IGAS) sobre estes 15 casos diz isso mesmo, ao considerar ‘inadequada’ a atuação deste perito. Basta ir ler o que diz a IGAS, que critica o facto do perito se referir a mim como um médico que tinha sido acusado de bullying e de assédio. Isto, porque, refere a IGAS, o inquérito deveria ser independente e só avaliar os casos cirúrgicos denunciados. A IGAS também critica a referência que ele faz no preâmbulo do inquérito sobre uma eventual atitude de “vingança”, por eu ter saído da direção do serviço, quando o perito sabia não haver nenhum inquérito em que isto tivesse ficado provado, pelo contrário. O relatório não foi independente?O relatório não foi imparcial. Mais uma vez digo que o perito não me ouviu e eu fazia parte do processo. Se me tivesse ouvido teria de relatar as minhas afirmações, que seriam suficientemente claras para não chegar às conclusões que escolheu integrar no relatório. Aliás, posso nomear dois casos em que as provas foram alteradas pelo perito. Quais?Um deles já referi. Foi o caso em que, afinal, não havia tumor e o perito justificou a operação com a existência de litíase, que não estava relatada no processo do doente. Depois, há o caso de uma doente em que ajudei um colega a operar, para se retirar uma porção do pâncreas. Ela foi operada e no pós-operatório desenvolveu um pseudo-quisto de três centímetros de diâmetro. Isto pode acontecer, é uma sequela. Fizemos exames e sabíamos que era isto que existia e que a dor de que a doente se queixava não era disto. A questão é que a doente continuou a ser acompanhada por outros colegas, após eu ter sido afastado da direção do serviço e destas cirurgias, que propuseram nova intervenção cirúrgica sem haver qualquer indicação clínica adequada. A doente tinha feito uma ressonância pancreática um mês antes desta decisão que só revelava a existência do tal pseudo-quisto de três centímetros sem complicações. Mas os colegas operaram a doente e o perito justifica esta intervenção com a existência de um novo tumor, sem que no processo conste algum facto que aponte para a existência deste. O resultado da anatomia patológica só confirma a existência do pseudo-quisto. Porque não pediu à Ordem outra avaliação?Simplesmente, porque nunca ninguém me ouviu. A certa altura pedi uma reunião ao bastonário, já era o Dr. Carlos Cortes, aconteceu no dia 5 de junho de 2023, pelas 15h00. Antes, tinha-lhe enviado um dossiê com a documentação disponível e ele perguntou-me o que eu pretendia depois de me ouvir durante 50 minutos. E eu apenas lhe disse que “queria que houvesse justiça neste caso”. Ele respondeu-me que lhe tinha enviado documentação extensa e que não poderia retirar a confiança ao presidente do colégio. A partir daqui, percebi que não poderia ter confiança numa análise imparcial por parte da Ordem dos Médicos. E coloquei um processo cível contra o perito, que ainda decorre. Não recorreu a outras entidades da saúde? A certa altura eu era o mau da fita, foi muito difícil. Sempre achei que o meu trabalho no hospital e no SNS falaria por mim. Não foi o que aconteceu. Volto a dizer que fui vítima de um assassinato de carácter. Na altura, fiz um comentário ao relatório do perito da Ordem que enviei ao então ministro da Saúde, Manuel Pizarro, e ao ex-bastonário dos médicos, Miguel Guimarães, achei que eram médicos e alternativas possíveis para olharem para o relatório e para os meus comentários e perceberem que havia desconformidades. Recordo-me que um deles chegou a afirmar à comunicação social que o que ali estava “era grave”. Sei que o ministro Manuel Pizarro enviou o meu comentário para a administração do Amadora-Sintra e para a IGAS, mas até agora não deu em nada. A IGAS acabou por arquivar o processo que abriu aos 15 casos por considerar que a matéria não era da sua área. Eu fiquei sempre com a ideia que no final da avaliação da IGAS e do perito haveria uma conferência de imprensa com todas as entidades envolvidas, mas não aconteceu. Porque se tivesse havido, quem lá estivesse seria questionado sobre as conclusões do perito e seria impossível justificar os resultados a que este tinha chegado. Quatro anos depois, tem esperança que a Ordem regresse ao caso?Sinceramente, não sei se vai acontecer. Mas continua a preocupar-me o silêncio da Ordem relativamente ao documento da IGAS. Até pela credibilidade e confiança que a Ordem deve ter junto da população, como órgão garante da qualidade dos cuidados de saúde. Quando erramos, tenho o bom princípio, ou pelo menos, a humildade de o reconhecer. E eu não preciso de mais nada senão o reconhecerem que o que denunciei estava certo ou errado, de forma independente. Só preciso disso. Até porque, se estiver de facto errado, sou eu que digo que não mereço continuar a exercer Medicina. Não é possível uma pessoa que faz as denúncias que fiz, continuar a exercer se estas não forem verdadeiras. E tenho muita certeza no que denunciei. Fui diretor daquele serviço durante 13 anos, dei a cara pelo serviço e o que eu questionava na altura era a falta de escrutínio. Por isso, denunciei a situação à diretora clínica, a qual, três meses antes da denúncia, não queria que eu me demitisse da direção do serviço. O que esperava que acontecesse com a denúncia?Esperava que todas as pessoas do serviço fossem chamadas para discutirem internamente o que estava a acontecer, esperava que se parasse imediatamente com as intervenções cirúrgicas para se avaliar todos os casos. Na minha opinião, era necessário parar para pensar no que deveria ser feito para não se repetirem os mesmos erros. Era só isto que esperava, mas quem dirigia o hospital ignorou completamente. Um mês e pouco depois da primeira denúncia, enviei nova carta com mais cinco casos diferentes mas na mesma linha. Um deles sobre uma cirurgia ao pâncreas que não era necessária, mas que foi feita porque também não foi avaliada nem estudada. Foi analisada em cima do acontecimento, já com o doente no bloco. Algo que não pode acontecer. Este é o caso em que o perito da Ordem diz “admito que se coloquem dúvidas relativamente à indicação desta intervenção”, mas sem nenhuma conclusão. Foi mais um caso em que não houve planeamento nem rigor. E avançou-se para uma intervenção cirúrgica que não era necessária. Está tudo registado. Portanto, o que eu esperava era que houvesse um escrutínio destes casos de forma independente e com rigor. Era muito importante que o teor dos relatórios periciais fosse público. Era a única forma de a verdade surgir.Fala de escrutínio público para a classe médica ou sociedade?Escrutínio perante os cirurgiões, porque a Ordem deveria ter analisado e verificado as situações com os dados concretos. E não o fez. Se houver alguma coisa de errado, deve reconhecer que o processo não foi bem feito. Quer que tudo volte a ser analisado... Porque não? Seria um princípio de inteligência e de humildade. Só preciso disso, mais nada, porque, como disse, fui vítima de um assassinato de carácter. O que fiz enquanto médico foi posto em causa. Houve um levantamento de pessoas a dizer ‘não quero trabalhar com o Vítor’ sem me conhecerem e sem nunca terem trabalhado comigo, como um grupo de internos. Não foi apenas no Amadora-Sintra, a minha carreira e a minha honra foram postas em causa. Houve comentários de dirigentes sindicais sobre mim, sendo eu sindicalizado, sem sequer me terem ouvido, sem me perguntarem o que aconteceu, de médico para médico. Neste momento, a minha perceção é que ainda ninguém quer trabalhar com o ‘dr. Vítor Nunes’, e antes não era assim. Não havia funcionário do meu hospital e até do conselho de administração que tivesse de ser operado e não quisesse que fosse eu a fazê-lo. Há pouco tempo, houve alguém na administração do hospital que me disse: ‘Se quiseres vais para o hospital de Sintra, se não quiseres vais na mesma’. Isto é muito duro de ouvir, sobretudo para quem colocou sempre o doente e o hospital acima de tudo. Portanto, o que preciso é que a minha versão seja ouvida, porque estarei disponível para ser escrutinado.Ainda espera justiça?Ao fim de quatro anos, já não há propriamente justiça, até porque não sou o mesmo Vítor, não sou o mesmo cirurgião. Como cirurgião, fui amputado. Fui afastado de fazer intervenções cirúrgicas que gostava de fazer e que sabia fazer. Tive de sair do meu hospital para ir para outro hospital, durante dois anos, voltei e fui colocado no hospital de Sintra, que tem o seu mérito, mas onde faço o mesmo que um interno do primeiro ano, como intervenções a quistos sebáceos, lipomas e hérnias inquinais. Os doentes ficam satisfeitos, mas eu acho que poderia fazer muito mais. Modéstia à parte, acho que não estou a ser suficientemente aproveitado. Nunca fui de hastear a bandeirinha “eu sou muito bom”. Há pessoas que me conhecem e sabem que esta nunca foi a minha maneira de estar na vida. Mas, assumo, que a minha aprendizagem na profissão foi no sentido de estar entre os melhores. Isso não vale a pena questionar. E gosto de ser reconhecido. Sei que fiz tudo pelo hospital. Enquanto dirigi o serviço durante 13 anos, tivemos projetos de investigação, criámos um centro de referência, obtivemos prémios e tivemos vários profissionais em doutoramentos em Harvard e noutras instituições internacionais com cartas de recomendação minhas. Ora, diga-me, um diretor de serviço que faz isto é um diretor que faz bullying? E o que espera do hospital?Espero que perceba que ainda está a tempo de reanalisar todo este processo para poder corrigir a minha situação. Este seria o primeiro passo. Para mim é um princípio de exigência absoluta, porque sem exigência não há melhoria. E podem perguntar-me o que quiserem. Não quero que todos concordem comigo, porque o sucesso também se faz na divergência de opiniões. Enquanto fui diretor de serviço, obviamente que nem todos concordavam comigo, mas eu era o responsável máximo pelo que acontecia. Competia-me ouvir os colegas, orientar e decidir um rumo e um trajeto. Por exemplo, durante a covid-19 houve um momento difícil no hospital, ficámos sem oxigénio e foi necessário transportar doentes para outros locais, nomeadamente para unidades do Porto, cerca de 80% dos médicos que acompanharam estes doentes eram do Serviço de Cirurgia e fui eu que lhes perguntei se estavam disponíveis para colaborar. Eles aceitaram. Ora, acha que se o diretor tratasse mal os médicos eles aceitavam? Para mim, este foi um dos momentos de grande orgulho pela reação dos profissionais no serviço. O que veio a seguir é que ainda não consigo perceber. . “Recuso por completo o conceito de ‘bullying’ e de agressividade verbal e hostil” As queixas de bullying foram referidas por um médico que justificou à administração que se ia embora por ser perseguido por si. Depois, apareceram outras queixas de agressões verbais hostis. Como se revê nisto?Não me revejo, por vários motivos. O inquérito feito pelo hospital excluiu a existência de bullying. Isto é o primeiro aspeto. Acho que as pessoas confundem bullying com exigência. Uma coisa é ser exigente, e com corresponsabilização, porque eu também tinha essa exigência para mim como médico e como diretor de serviço. O médico referiu à administração que “não ia ao bloco”. Ora, não era eu que definia os tempos operatórios atribuídos ao serviço. Eram a direção clínica e a direção do bloco operatório que atribuíam os dias. Depois, era eu que definia as equipas que operavam, em função dos critérios de prioridade da lista de espera e do centro de referência, sendo que a prioridade eram os doentes com cancro e os que integravam os centros de referência, serem operados o mais rápido possível. Chegámos a ter 55 doentes à espera e estes só podiam ser operados pelos médicos que integravam o centro de referência, porque esta foi uma das condições para a atribuição deste centro. O que quer dizer que havia equipas fixas e dedicadas e estes cirurgiões tinham de ser os melhores. Logo, iam mais vezes ao bloco.Este médico fazia parte destas equipas? Não, porque no momento da candidatura aos centros de referência ele não integrava o serviço, mas não era o único que não integrava. A verdade é que eu também comecei a definir outros critérios que não agradaram a alguns médicos, como as condições para participarem na cirurgia adicional - quem não quisesse fazer urgência, também não integrava a escala da cirurgia adicional. Este era um critério fundamental. Não podia apoiar um médico que queria estar dispensado da urgência ou que só queria fazer urgência ao fim de semana, mas que queria estar na escala da cirurgia adicional durante a semana. Na questão do bullying também acabou por ser referido que eu e os que me estavam mais próximos íamos mais ao bloco, mas se forem aos números vêm que não é verdade. E no meu caso vêm que a minha condição era quase sempre de ajudante. Basta olhar para os mapas dos últimos anos. E quanto às agressões verbais e hostis em reuniões de serviço? Recuso por completo o conceito dessa agressividade, o que existia era talvez mais emoção nas discussões. Havia discussões duras e difíceis porque tudo o que fazíamos tinha de ser avaliado e escrutinado. Por exemplo, houve uma discussão forte quando uma doente chega ao hospital com uma apendicite um ano depois de supostamente lhe ter sido feita uma apendicectomia. Afinal, a apendicectomia não tinha sido feita, então o que tinham operado? Eu tinha de questionar isto. E, afinal, o que retiraram foi o apêndice epiplóico que interpretaram como o apêndice normal. Porque não disseram? Perguntei quem tinha feito a intervenção há um ano, o que se tinha passado? Ninguém me respondeu e isto para mim não era admissível. O que critico não é o terem retirado o apêndice epiplóico, mas sim o não terem informado o doente da condição clínica que tinha. É claro que estas discussões eram tidas com alguma emoção, porque eu era sempre o último responsável pelo que se passava no serviço, mas nunca “tratei mal as pessoas”. Sabe que nestas discussões eu usava muito uma expressão que depois me acusaram de ser bullying, eu perguntava se era assim que gostavam que os próprios pais ou alguém da família fossem tratados? Para mim era muito importante que quem estivesse na equipa percebesse o nível de exigência, até na relação com os doentes. Quando havia complicações nas minhas operações, era o primeiro a falar delas. As queixas de bullying levaram-no a pedir a demissão, não foi? Se não havia razões, porque o fez?Acabei por não ser eu a demitir-me. Demitiram-me. Quando apareceu a queixa, o presidente do conselho de administração da altura (Marco Ferreira) disse-me: ‘Não te preocupes, vou falar com a diretora clínica (Ana Valverde )’. Eu disse logo que queria uma investigação ao caso. Uns dias depois a diretora clínica disse-me que falaram com várias pessoas e que ‘tudo não passou de uma tempestade num copo de água’. Referiu até, “continuas a ser o mestre”. Eu respondi: ‘Isto não fica assim’. Não era possível acusarem-me desta maneira e não ficar tudo clarificado. E disse-lhe que precisava de “uma prova de confiança do CA e da direção clínica”. Mas esta não apareceu nos dias seguintes e enviei um e-mail a dizer que se não houvesse esta manifestação, não poderia continuar como diretor de serviço. A diretora clínica respondeu-me que essa prova de confiança seria dada na sexta-feira seguinte - isto foi a meio de janeiro. Depois, não foi possível por motivos de trabalho e eu entendi. Passou para segunda-feira, também não aconteceu e a diretora clínica acaba por me pedir para sair da direção de serviço. Ou seja, acabam por me demitir. Mais tarde, vim a saber que a direção clínica falou com pessoas a quem disse que tinham de “denunciar o Vítor”, tinham de arranjar provas para eu sair. Mas o relatório do inquérito do hospital às acusações de bullying não apresenta uma única prova de que tratei mal um colega. O que espera que seja reparado nesta situação? Há a questão de honra. Nunca quis falar até agora porque, mais uma vez, achei sempre que a minha carreira falaria por mim. Mas não. E o que foi posto em causa foi a minha honra e o meu carácter sem provas. O que se esteve a discutir sempre foram os valores que defendo - dignidade, respeito, defesa do doente e a sua autonomia. São estes os valores com os quais me identifico e me levaram a continuar a ser médico. Quando regressou do Hospital de Vila Franca houve dez médicos e cerca de 30 internos que disseram que saíam. A Ordem ameaçou retirar a certificação para formação. Isso não o demoveu, porquê?É preciso esclarecer que as pessoas saíram, mas depois regressaram quase todas com o estatuto de prestadores de serviço a 20 horas e outros tiveram o que queriam, deixaram de fazer urgência. Eu era o diretor que questionava e que não permitia que as pessoas ganhassem dinheiro de forma fácil. Por exemplo, quando institui no serviço que não podíamos estar só a operar lipomas - que é um procedimento fácil e rápido e havia pessoas que faziam dez por dia, ganhando numa tarde dois mil euros - não agradou a algumas pessoas. Quem fazia dez lipomas passou a fazer cinco, porque havia que operar hérnias e estas levavam mais tempo. Eu não era capaz de permitir estas situações. E os internos que refere nem sequer me conheciam, nunca trabalharam comigo.Acha que o seu afastamento teve a ver com o mexer em interesses económicos?Ninguém tem coragem de assumir isso. Mas o que fazia e as regras que impunha eram pelo hospital e pelo doente, sempre de forma transparente. Quando me acusaram de só alguns irem ao bloco demonstrei que as equipas eram constituída por pessoas fidedignas, com qualidade e que não punham em causa a segurança do doente. Faziam e faziam bem. Esta é a minha ética. Não a vou discutir. Mas também acreditava e acredito que o SNS nunca mudará se não tiver o fator diferenciador da excelência e do mérito, enquanto todos estivermos a ganhar o mesmo, independentemente do empenho, não vamos a lado nenhum.Tem uma ação cível contra quatro médicos do serviço que o acusaram de bullying, alguns eram-lhe próximos, o que for decidido no julgamento vai resolver alguma da sua mágoa?A minha honra e o meu carácter foram postos em causa e é isso que espero que seja reparado, independentemente deste julgamento. Nunca destruí um serviço, ao fim de 13 anos deixei um serviço de topo e com condições para ir mais longe. Mas, internamente, não me quiseram ouvir. Cronologia do que se sabe. Das denúncias aos processos e ao silêncio 10-1-2022 – Presidente do Conselho de Administração do HFF reúne com Vítor Nunes para lhe dizer que um médico do serviço disse à diretora clínica que se ia embora “por ser perseguido por ele”. Vítor Nunes diz que a partir daqui não tem condições para continuar como diretor de serviço.12-1-2022 – Diretora clínica reúne com Vítor Nunes e diz que denúncia não tem fundamentação. Vítor Nunes pede manifestação de apoio, ela concorda. Mas esta não acontece.19-1-2022 – Nova reunião com diretora clínica e médico que o substituiu como adjunto da direção clínica, onde lhe pedem para retirar o pedido de demissão.20-1-2022 – Presidente do CA informa que vai avançar com um inquérito, mas sem evocar um motivo.16-2-2022 – Diretora clínica informa que resultado do inquérito “não confirma acusações de “assédio” e de bullying, mas que, por haver ambiente crispado, “aceitavam a minha demissão”.17-02-2022 - Nomeação de diretor Interino, que substituiu Vítor Nunes, no Boletim Informativo do HFF.25-02-2022 - Colégio de Cirurgia Geral da Ordem dos Médicos visita Serviço de Cirurgia Geral do HFF. 6-10-2022 – Oito meses depois de ter deixado a direção do serviço, envia carta à diretora clínica a denunciar 15 casos que considera passíveis de má prática clínica. 7-10-2022 - É convocado para reunião com o CA às 12h00. Às 15h00, é informado que irão ser tomadas medidas sobre as denúncias.25-11-2022 – Envia nova carta com mais cinco casos. Não recebe resposta a nenhuma situação.13-1-2023 – Expresso noticia conteúdo das cartas enviadas à diretora clínica do Amadora-Sintra.13-1-2023 – Ministério Público abre processo à suspeita de mortes decorrentes de má prática (ainda sem resultado). Ordem dos Médicos avança com um inquérito. O hospital também.15-1-2023 – Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) abre inquérito.29-5-2023 – Hospital decide pelo arquivamento dos casos denunciados por “inexistência de prática de infração disciplinar”. Ordem também, o perito era o mesmo.31-5-2023 – Vítor Nunes vê o seu contrato suspenso por 90 dias, por ter sido demonstrado que teve acessos a processos clínicos.1-10-2023 - Sai do Amadora-Sintra para ir para o Hospital de Vila Franca de Xira.1- 10 - 2024 - Regressa do HVFX ao Amadora-Sintra, mas tarde é enviado para o Hospital de Sintra, onde ainda está.27-11-2024 – IGAS termina inquérito. Relatora propõe arquivamento por “IGAS não ter competência sancionatória sobre o exposto, mas informa Ordem dos Médicos, Colégio da Especialidade de Cirurgia Geral, Ministério Público e hospital do seu conteúdo. 18-5-2026 - Neste dia, decorrem ainda duas ações cíveis interpostas por Vítor Nunes a quatro médicos que o acusaram de "bullying" e uma outra ação cível contra o perito da Ordem dos Médicos que avaliou as queixas e as arquivou e teceu comentários no seu relatório sobre o cirurgião. ."Imparcialidade nula". IGAS critica perito que analisou alegada má prática médica no Amadora-Sintra