Um mês depois da primeira entrevista ao DN, ao fim de três anos de ter saltado para as páginas dos jornais por ter denunciado, pelo menos, 15 casos de má prática no Serviço de Cirurgia do Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra), o médico Vítor Nunes envia uma carta aberta à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, para a questionar sobre qual é o papel do “responsável máximo institucional” da Saúde quando existem “denúncias clínicas graves” no Serviço Nacional de Saúde (SNS).Na carta enviada à titular da pasta da Saúde, e à qual o DN teve acesso, Vítor Nunes começa por fazer um paralelo entre a situação que vive desde 2023, altura em que as denúncias que fez à então diretora clínica do HFF foram noticiadas, até agora com a própria democracia, perguntando: “Pode uma democracia virar a página antes de conhecer toda a história?”. Em causa, e como explica no documento enviado via e-mail, na manhã de terça-feira, dia 23 de junho, ao gabinete de Ana Paula Martins, está o facto de ter sido feita uma perícia pelo presidente do Colégio de Cirurgia Geral da Ordem dos Médicos da altura, pedida pelo próprio hospital e pelo bastonário da classe, aos casos que denunciou, “sem nunca ter sido ouvido ou os doentes que passaram por tais situações e que estão vivos”. O médico - que afirma à ministra estar a escrever-lhe na condição de “cirurgião e de alguém que dedicou grande parte da sua vida ao SNS, acreditando sempre que a exigência, o escrutínio e a procura da verdade são pilares inseparáveis da medicina” -, questiona ainda o facto de os próprios inquéritos realizadas pela Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) e a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), que encontraram “fragilidades metodológicas”, terem ficado “sem contraditório”, argumentando: “Como é possível pedirem para virar a página, quando o que está em causa neste caso é saber como deve o SNS lidar com denúncias clínicas graves, avaliações periciais e conflitos institucionais quando estão em causa doentes, profissionais e confiança pública? “.No início da missiva à governante, e à qual ainda não obteve resposta, Vítor Nunes explica: “Escrevo porque continuo sem compreender por que razão observações metodológicas relevantes produzidas por uma entidade inspetiva independente não suscitaram qualquer reflexão institucional consequente?” - referindo-se às conclusões da IGAS, que considerou ter existido “imparcialidade nula” na avaliação do perito da ordem, mas que arquivou o processo em fevereiro de 2025, por considerar que a matéria não era da sua competência. Para o médico, no caso que o visa, “está em causa o contraditório. A robustez metodológica das avaliações. A independência do escrutínio. E a forma como as instituições constroem legitimidade perante os cidadãos”, criticando ainda, sendo desta vez o destinatário o perito da ordem, o facto de ter sido “afirmado publicamente que, numa avaliação desta natureza, não era necessário ouvir os intervenientes, bastando analisar aquilo que se encontrava escrito”. Porque, se é assim que se vai atuar “qual é a mensagem que se transmite às instituições e aos profissionais?”. Isto, “não merece reflexão crítica?” Ou é “eticamente aceitável que alguém supostamente responsável faça este tipo de afirmações sem reparo?”. O cirurgião sustenta também que o “contraditório não existe para proteger denunciantes nem denunciados. Existe para proteger a verdade, a justiça e a fiabilidade das decisões. A sua ausência deve ser encarada como potencial limitação da própria procura da verdade.” Recorde-se que, após a denúncia dos casos de má prática, Vítor Nunes esteve dois anos afastado do HFF a trabalhar no Hospital de Vila Franca de Xira. Voltou em outubro de 2025 e foi deslocado para o Hospital de Sintra, por alguém do conselho de administração anterior que, segundo contou em entrevista ao DN (publicada a 19 de maio de 2026), lhe disse: “Se quiseres vais, se não quiseres vais também”, o que considerou “ser muito duro de se ouvir”, afirmando mesmo que “foi vítima de um assassinato de carácter”. No final desta entrevista assumiu ainda que, ao fim deste tempo, que o quer “é justiça e a reposição da minha honra”. . Por isso, decidiu “escrever uma carta aberta à ministra Ana Paula Martins”, onde defende também que quando “um processo com elevado impacto humano, profissional e reputacional considera dispensável ouvir quem participou diretamente nos factos analisados, a questão deixa de ser apenas técnica. Passa a ser uma questão de cultura institucional”, referindo que “independentemente de se concordar ou não com as conclusões da perícia inicial, seria expectável que tais observações desencadeassem uma reflexão institucional séria. Contudo, a resposta predominante parece ter sido a reafirmação das conclusões anteriormente alcançadas. A questão deixou então de ser clínica. Passou a ser metodológica. O problema já não são apenas as fragilidades metodológicas identificadas. O problema é a aparente normalização da sua desvalorização.”E deixa um alerta: “Quando as instituições deixam de refletir sobre os próprios métodos, o risco deixa de ser um erro isolado. Passa a ser sistémico. Uma entidade inspetiva como a IGAS não deveria ser valorizada apenas quando confirma conclusões previamente estabelecidas e não pode ser ignorada quando é incómoda. A verdadeira questão é: O que aprenderam as instituições com tudo isto?”, questiona ainda, argumentando que “arquivar não é necessariamente esclarecer. Encerrar não é necessariamente compreender. E validar não é necessariamente escrutinar.”O médico continua a carta com uma série de perguntas às quais, e ao fim de três anos, ainda não conseguiu obter respostas, reforçando que o tema que o levou a interpelar a governante é o seu papel, enquanto titular da pasta. “Quando uma entidade inspetiva independente identifica fragilidades metodológicas relevantes, porque razão nenhuma reavaliação foi considerada necessária? Se existiam intervenientes vivos, identificáveis e diretamente envolvidos nos factos analisados, porque motivo foram considerados irrelevantes para o apuramento da verdade? Se um relatório inspetivo independente não é suficiente para desencadear reflexão crítica sobre o processo analisado, que circunstâncias o serão?" Ou ainda "se os mecanismos criados para escrutinar os outros não admitem ser eles próprios escrutinados, quem garante a sua responsabilização? E se as fragilidades metodológicas identificadas não justificam qualquer reavaliação, que mensagem transmite o Estado aos profissionais que acreditam na transparência, no contraditório e na procura da verdade?”Vítor Nunes defende que “a autoridade institucional pode encerrar processos, mas isso não substitui nem impede uma reflexão. O consenso pode produzir estabilidade, mas isso não elimina a necessidade de escrutínio.” Até porque, “a destruição reputacional de profissionais, quaisquer que sejam, sem processos plenamente escrutináveis, metodologicamente sólidos e verdadeiramente contraditados, deveria preocupar qualquer sociedade madura”, lembrando que a própria Entidade Reguladora da Saúde considerou “existirem aspetos suficientemente relevantes para emitir recomendações formais e equacionar medidas” ao hospital devido às práticas que denunciou, mas “alguém agiu?”.Com base na premissa de que “nenhuma democracia madura” deve “virar a página” sem antes “compreender plenamente aquilo que nela ficou escrito, porque a confiança pública não nasce da ausência de perguntas”, mas da “disponibilidade para lhes responder”, parte para mais interrogações à ministra da Saúde: “Se amanhã qualquer médico português for objeto de uma perícia realizada sem contraditório, sem audição das partes relevantes, e essa perícia for posteriormente objeto de reservas metodológicas por uma entidade inspetiva independente, recomendaria V. Ex.ª a esse médico que aceitasse simplesmente que a página fosse virada? Ou consideraria legítimo que continuasse a procurar respostas? E qual deveria ser o papel dos responsáveis máximos institucionais do país, nesta área?” No final, lança um desafio: “Se os procedimentos utilizados neste caso fossem amanhã aplicados a um membro do Governo, a um dirigente hospitalar ou a um responsável institucional, seriam considerados suficientes para garantir confiança no resultado produzido?” E termina a carta dizendo que se a escreveu “não é para revisitar o passado”, mas porque “as instituições recusam refletir sobre os seus métodos” e “acabam, inevitavelmente, por repetir os mesmos erros e discutir os mesmos problemas no futuro.”Ao DN, Vítor Nunes assumiu que gostaria de ver a reabertura da perícia feita pelo especialista da Ordem dos Médicos e do hospital, para que fosse feito o contraditório. O DN contactou o gabinete da ministra da Saúde para saber se a carta enviada esta semana terá fedd-back, mas não obteve resposta..Amadora-Sintra. Entidade da Saúde conclui que hospital tem de garantir direitos dos doentes, senão haverá sanções.Hospital Amadora-Sintra. Bastonário diz “não haver motivo” para nova “avaliação” a casos denunciados ."Imparcialidade nula". IGAS critica perito que analisou alegada má prática médica no Amadora-Sintra