"Conversei com um astronauta enquanto nós estávamos numa base na Antártida"

Os cientistas portugueses José Queirós e Ricardo Almeida realçam a importância da preparação para este tipo de viagens e também o isolamento que implicam

A procura de novas descobertas pode levar cientistas a enfrentarem imensidões de neve, um oceano gelado, a ficar isolados ou sem ver sol durante 100 dias, em locais onde "todas as conversas são estranhas".

A recompensa para longos períodos de isolamento, longe da família e amigos, nem sempre é a descoberta do maior polvo alguma vez encontrado na Antártida, como aconteceu ao investigador José Queirós, ou a mudança de instalações de uma estação científica, no polo sul, devido ao aparecimento de uma fenda no gelo, vivida por Ricardo Almeida.

Além do seu trabalho de investigação, os dois cientistas portugueses, que participaram hoje numa palestra no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, realçam a importância da preparação para estas viagens e para o isolamento que implicam, e a relação de entreajuda e amizade construídas entre os elementos que vêm de países como Nova Zelândia, Indonésia, Austrália ou África do Sul, no primeiro caso, Reino Unido, Suíça ou Polónia, no segundo.

O alentejano Ricardo Almeida estudou físico-química, na Universidade de Évora, e engenharia eletrónica e telecomunicações, na Universidade de Aveiro, e passou 15 meses na Antártida, na base Halley, contratado pela entidade britânica British Antarctic Survey para gerir radares usados em meteorologia espacial, monitorizar estações GPS que vigiam os movimentos das placas de gelo ou realizar experiências para a Agência Espacial Europeia e para a NASA.

Ao contrário de outros cientistas portugueses que vão em missões à Antártida e ficam somente durante o verão, com condições menos adversas, Ricardo Almeida ficou 15 meses e acabou por colaborar na deslocação em 24 quilómetros das 1.200 toneladas de uma base, devido a uma fenda do gelo que ameaçava isolar as instalações.

O investigador tem relatado a sensação de viver numa cápsula ou contentor, no meio de uma paisagem de neve "muito estranha, como se fosse areia da praia", com temperaturas que podem chegar a 50 graus negativos, no inverno, do nevoeiro que congela e não deixa ver nada, tornando perigosa a saída "à rua".

Recebeu preparação para viver na Antártida, para se orientar numa tempestade de neve, para partilhar com 70 outras pessoas, no verão, ou 13, no inverno, um espaço que é sempre confinado, apesar de oferecer possibilidades para ocupar os tempos livres, de ginásio a biblioteca, bilhar, sala de cinema, bar.

No entanto, deram-se todos tão bem que passavam "90% do tempo a jogar cartas e a conversar", como um grupo de amigos, realçou.

Ricardo Almeida também foi avisado de que não poderia sair da Antártida naqueles 15 meses (só acontece por razões de saúde dos cientistas, por exemplo), uma mensagem "difícil de passar à família", mas, "através de ligação satélite, era relativamente fácil 'falar' para casa", através de 'chamadas de voz'.

Tem dificuldade em selecionar as situações mais marcantes da experiência de viver num imenso manto branco, porém aponta acordar com um pinguim na escadaria da 'casa' ou, numa deslocação, ficar completamente rodeado destes animais, conversar com um astronauta, ou "atravessar o (referendo do) Brexit numa base britânica", na Antártida.

"Tive oportunidade de conversar com um astronauta que se encontrava numa estação espacial, enquanto nós estávamos numa base na Antártida. Grupos de humanos em situações muito estranhas", salientou Ricardo Almeida.

E "os 107 dias sem ver o sol, o que se reflete no corpo e na falta de disposição, pelo menos até tomar o primeiro café". Recorda que, embora não tenha sido celebrado o Natal ou a Páscoa, o reaparecimento do sol deu lugar a uma comemoração com champanhe, não gelado, mas praticamente congelado.

José Queirós estudou Biologia na Universidade de Aveiro e está a fazer mestrado de Ecologia na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra. Foi à Antártida estudar a dieta do bacalhau antártico e dos cefalópodes, família a que pertencem o polvo e a lula, a presença de contaminação por mercúrio nestes animais, e fazer filmagens para um documentário para uma empresa japonesa.

Além do seu trabalho inicial, o investigador 'ganhou' um projeto inesperado pois na expedição foi encontrado o maior polvo da Antártida de que há registo, com 1,15 metros e 18,5 quilogramas.

O primeiro desafio de José Queirós, ultrapassado com sucesso, foi integrar-se no grupo de 27 pescadores do navio onde esteve quatro meses.

As refeições era feitas por um cozinheiro neozelandês e tinham por base carne de ovelha e de carneiro, sem usar azeite, sendo "alguns pratos temperados com açúcar", mas todos ajudavam, relatou o jovem.

Os hábitos diferentes, principalmente dos indonésios, acabaram por ser geridos sem problema, e a existência de um sistema de dessalinização da água do mar facilitou as atividades que exigem água, como os banhos ou a lavagem de roupa, feita por cada um.

José Queiroz também relata os movimentos do sol, diversos daqueles registados em Portugal, e o regresso a terra, à Nova Zelândia, onde o achado do grande polvo, agora instalado num museu daquele país, chamou a atenção dos órgãos de comunicação social.

Um grupo de portugueses, a viver na Nova Zelândia fez questão de oferecer um jantar, de comida portuguesa, ao cientista e felicitá-lo pelo seu trabalho.

Quando questionados acerca dos sinais das alterações climáticas na Antártida, uma das regiões do mundo mais investigadas sobre este tema, Ricardo Almeida diz que passou ali um dos verões mais amenos e um dos "piores", segundo os relatos dos especialistas presentes na base.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG