A corrupção é um tema em alta em Portugal, como também foi no Brasil na época eleitoral. O que o torna num tema tão poderoso?.A corrupção, quando estoura, para o pensamento reacionário, na verdade é o pensamento religioso, moral, que ordena o mundo. A corrupção não é só uma questão de levar dinheiro, de roubar dinheiro, a corrupção é um problema moral e começa na alma. E você não separa o homem público do homem privado. Então, o homem honesto é aquele que também é um bom marido. Um bom pai. Necessariamente casado, que é um bom pai. É o homem que trabalha, a mulher não precisa trabalhar, ou enfim, ele que mora dentro de casa, que põe a ordem. O pensamento reacionário põe uma hierarquia de seres. O mundo foi criado assim. Então, quando você fala de corrupção, que alguém roubou dinheiro, essa corrupção necessariamente está ligada a uma corrupção mais ampla da alma. Necessariamente, é alguém que não segue os dogmas religiosos. Necessariamente, é um mau marido. Talvez seja homossexual. Talvez seja todas as perversões. Talvez seja representante das potências estrangeiras que quer oprimir o bom português. Então, na verdade, a corrupção é uma amostra, na verdade, da perversão de um sistema dominado pela esquerda, disfarçado de democracia, quando, na verdade, é uma grande ditadura. Para eles, a corrupção não é só roubar dinheiro. Ela vem junto com tudo, que representa tudo que é ruim. Ele faz parte das forças que conspiram dia e noite para destruir Portugal, a igreja, a religião e a família portuguesa. Então, você aproveita os escândalos de corrupção, que em si mesmo são escândalos que fazem parte de qualquer país, e quanto mais escândalos de corrupção aparecem, paradoxalmente, é porque mais transparente está o sistema. No momento de crise da democracia, você apresenta esse conjunto de escândalos como se fosse a expressão da podridão do sistema português, que vai contaminando a sociedade. Você precisa de uma reação brutal. A altura do volume dessa podridão. E a reação é essa. É uma reação moral. Antes de ser uma reação política, é uma reação moral. E aí esses partidos populistas de direita radical apresentam-se como a solução, é uma operação de salvação nacional. A corrupção que aparece, essa corrupção de dinheiro, é vendida como a ponta do dedo, a ponta do iceberg de um fenómeno mais geral de corrupção generalizada..Como você analisa o comportamento eleitoral neste mundo polarizado?É uma luta do bem contra o mal o tempo inteiro. Deus contra o demónio. E por isso que seduz tão fácil as pessoas? Porque esse é um discurso que seduz muito fácil e de fácil compreensão. Existe uma conspiração. É por isso que eu estou sem emprego, é por isso que o meu emprego está mal, é por isso que eu não consigo entrar na universidade. O comportamento eleitoral não é balizado por uma compreensão profunda de causas económicas, sociais, religiosas, culturais, ou de mudanças de globalização. Eles não votam assim. É irracional. A gente que conversa sobre essas coisas, o comportamento do eleitoral está preocupado com coisas mais quotidianas. Por que ele perdeu o emprego? Por que ele não sobe na vida? Por que os preços dos produtos estão muito elevados? Isso é um protesto, não é? O voto vai ser um protesto. É, na verdade ele vota para melhorar a situação particular dele. Existe um comportamento dele. Ele vota para melhorar o quê? Não só a economia, mas ele também se sente. O problema hoje é que antes, aquilo que era percebido como ameaçador era só no plano da rua. Era no plano da fábrica, era no plano da propriedade. Agora é muito mais ameaçador, porque ele vai para dentro da minha casa. Ele quer doutrinar a minha esposa, ele quer doutrinar o meu filho, ele quer doutrinar tudo. Porque o último reduto do sujeito de conservador é a casa. Porque ele pode ser humilhado na rua, mas em casa ele tem a mulherzinha dele, que vai fazer a comidinha dele..O eleitor mais radical tem chance de ser convertido?A briga é por um miolo de 20% do eleitorado, que pode mudar, para não ir para o lado de lá. Porque a direita vai existir, ela já voltou. Eu estou falando de Portugal, mas posso falar de qualquer outro lugar. Porque a direita não engajou durante muito tempo, desde os últimos 40 anos. Então isso é cíclico. Está na moda, o vento é deles agora, a questão é contornar isso. E como é que você consegue, não é convencer o “patriotário”, que a gente chamou do Brasil, o sujeito que está pedindo um golpe, o sujeito que está pedindo um golpe na porta do quartel, ajoelhado, rezando com o pneu. Esta pessoa não vai ser convencida por nada. Até porque existem também outras razões. Por exemplo, muita gente ali é solitária, tornou-se numa forma de existência, de solidariedade. A população mais velha que não tem comunicação, os grupos de WhatsApp passam a ter uma comunicação, eles ficam passando mentiras uns para os outros, eles sabem que é mentira, mas o que eles querem não é a verdade, eles querem a sociabilidade, eles querem outra coisa. Então, o nosso papel não é tentar convencer aquele que já está desencaminhado, é evitar que aquele que está moderado vá para o caminho da radicalidade, da loucura. Esse discurso é potencializado por um certo abandono da esquerda das causas mais quotidianas?Sim. Deveria abandonar esse liberalismo difuso e voltar a adotar temas mais compatíveis com a defesa dos pobres. Com a vida real, na verdade. É isso que eu estou querendo dizer. Você deveria voltar a ter mais ênfase nesse tipo de coisa. Sem abrir mão, de uma forma moderada, da nova agenda. Não é simplesmente voltar para 1980. Quer dizer, há problemas novos que não existiam naquela época. Você tem problemas de interseccionalidade. Você vai ter que tratar também das mulheres, dos negros, dos imigrantes. Vai ter de ter uma política para cada um deles..Como você avalia a estratégia de combate à direita populista em Portugal?A questão de encarar Ventura como principal adversário é uma estratégia. Ele é o alvo a combater, se vocês quiserem combater a extrema-direita. A única maneira que existe, que é típica também das formações partidárias, ideológicas, é dizer que o centro não existe ou que o centro é uma versão encapotada do adversário. Então, assim como o PSD é uma versão encapotada da esquerda para o Chega, o PSD é uma versão encapotada do Chega para o PS. Na verdade, todo o processo é para esmigalhar o centro. E o que a gente tem visto recentemente é exatamente esse processo de esmigalhamento do centro. No Brasil, você tem um centro meio maluco. Não se consegue ir muito para frente, mas também não anda muito para trás, porque essas forças institucionais impedem os extremos de acontecer. É sempre uma desgraça, mas sempre para a maioria, os mais pobres. .Há uma divergência na classificação do espetro dos partidos. O Chega não se diz de extrema-direita, mas há quem discorde. O que você pensa sobre isso?Dizer que não é extrema-direita é uma maneira de beneficiar o Chega, claro. É como passar pano em termos. Você dizer que o Chega não é extrema-direita é uma maneira de os limpar, até porque a existência do Chega abre as portas da extrema-direita. Evidente que a tentativa de desidentificar o Chega com a extrema direita é uma filigrana que só beneficia os autoritários. Um vai abrindo a porta do outro. A partir do momento que você começa a tratar os imigrantes, aqueles que proferem algum outro tipo de religião, como sendo indignos de serem tratados como os verdadeiros portugueses, você já está fazendo uma distinção que é inconstitucional. Você está dizendo que eles não merecem dignidade. É óbvio que estão a fazer exatamente o que faziam os fascistas com os ciganos, judeus, homossexuais ou artistas que se opunham à deriva autoritária do regime. É a mesma coisa, só em graus diferentes..Que análise você faz do cenário que se desenha para 10 de março?PS em primeiro lugar, Chega em segundo, PSD em terceiro. Se o PSD não apoiar, pelo menos, mesmo que não consiga, uma tentativa de formação do governo liderado pelo Chega, vai haver eleição daqui a um ano. Eu sei. E o PSD cai de 20% para 5%. Aí não é afundar, é dar com um morteiro no meio do Titanic. Mas se ele apoiar, ele afunda na mesma, só demora mais. E depois tenta dentro do sistema, tem mais experiência de poder do que o Chega e tenta sufocar o Chega por dentro. O que eu sei é que o sistema político como um todo não tem interesse num partido como o Chega, o interesse é colocá-los para fora ou cooptá-los, tirar-lhes o poder ou usá-los para o alcançar. É um jogo de xadrez. O jogo, para gente séria, é de uma frieza absoluta, nos cálculos. Então, se a direita ganhar, vai ter que ser PSD com o Chega. Também acho que não há outra resposta. E você vai assistir a esse cenário. Que é um querendo devorar o outro, um querendo engolir o outro. Quer dizer, o PSD a querer a energia do Chega, mas reduzir o Ventura. E o Ventura, ao contrário, querendo canibalizar o PSD, dizendo que é fraco, querendo empurrar o PSD mais para direita. Vai ser isso que vai acontecer e vai causar crises. Depois o Ventura vai dizer, na verdade, que não conseguiu fazer nada. Por quê? Por causa da fraqueza do PSD, que foi contaminado por elementos esquerdistas. Não preciso conhecer ao detalhe a política portuguesa, isto é a receita. É uma questão lógica.